Monday, December 17, 2007

Preços

Com a chegada de 2008, certas tarefas que deixei pendentes ao longo desse ano tornam-se urgentes. Necessariamente não deveriam ser levadas a cabo até 31/12, porém, por uma questão moral, comecei a reparar os objetos quebrados, furados, descolados, queimados, colocar quadros na parede e desembalar metade da suposta "decoração" que comprei para vir pro novo (porém no mesmo edifício) apartamento. Nesse meio estavam um par de sandálias descoladas (um pé só) e um jeans com bolso furado. Cabe dizer, em um parêntese, que passei 2007 inteiro querendo usar esses artigos porém sempre eles estiveram encostados.

Hoje, entretanto, seria o dia de resolver as pendências e levei tudo para dois pequenos negócios no Shopping Salvador. Pequenos, porém com preços de 5a avenida, foi o que pensei quando a jovem balconista teve o desplante de me cobrar R$13,00 para costurar o bolso da calça e R$18,00 (+R$8,00 da mão-de-obra e R$25,00 caso eu fosse pintar) pelo conserto da sandália. O mais impressionante foi ela dizer que só me custaria R$51,00 ter uma sandália "novinha"(a mesma que há um ano custou R$75,00). Ou eu ganho pouco ou a ninfeta gasta demasiado (justo ela a qual muito provavelmente ganha salário comercial). Senti vontade de dizer algumas verdades, porém engolei a seco, juntei minhas trouxinhas e fui embora pensativo.

Imagino, momentaneamente, o que você pensa sobre o desfecho do enredo ao chegar a esse ponto. Caso tenha lido meia dúzia do que já escrevi aqui, obvia e previsivelmente, saberá que eu mesmo resolvi consertar tudo: me furei duas vezes com a agulha (e prometi deixar mamãe costurar o bolso) e, pela primeira vez em dezenas, não colei os dedos usando Super Bonder (e após isso, ainda com 3/4 do vidrinho, posso colar o que quiser!). Para quem encarou pintar o apartamento, colar a sandália seria fichinha e de fato foi. Fiquei R$64,00 menos pobre e muito satisfeito em ter contribuído para o fim dos preços abusivos.

Além disso, acabo de minutar um email pra o Dr. Henrique Meirelles. Imagino que esteja em curso um processo inflacionário no mercado de serviços (de baixa qualifacação, frise-se) ou então meu nível de renda não me permite terceirizar o antes doméstico, das duas uma. Alguém pode evocar, após ouvir o Café com o Presidente, que o Brasil está crescendo e as pessoas com mais dinheiro. Talvez, entretanto duvido muito que o nível (excesso) de liquidez internacional e a taxa de juros americana influenciem a sola da minha sandália modernosa. Para mim isso leva outra nome: roubalheira.

Friday, December 07, 2007

Sinal da cruz

Hoje quando entrei no avião vi três pessoas fazendo sinal da cruz. Na saída até a aeromoça fez. Engrossando as fileiras, lá no trabalho alguns fazem isso também, logo que chegam. Nada contra a religião, óbvio, mas acredito que em momentos de maior violência, talvez, essa simbologia toma corpo entre nós.
Fugindo um pouco disso, vive-se fazendo sinal da cruz pra tudo. Refiro-me a nós como povo, até porque eu nem esse hábito tenho. Entretanto, do Presidente da República aos surfistas na praia da Pipa, todo mundo faz sinal da cruz por qualquer motivo. Há goleiros, inclusive, que fazem um para cada pau da trave como se algo sobrenatural fosse evitar a alegria da torcida adversária. É engraçado isso. Se perguntados, boa parte não tem idéia precisa do motivo de fazerem isso. Eles não se confessam, comem hóstia ou vão à missa.
Acredito que vivemos cercados de cacoetes sendo um grande expoente desses o Presidente Lula. Expandindo um pouco esse conceito, ele tem cacoetes verbais, em grande parte, para sustentar seus frágeis posicionamentos. Ele, até onde entendo esse hábito, opta, assim como boa parte da população brasileira, por essa e outras simbologias como forma de compartilhamento de responsabilidades. Algo como se dissesse, que se o errado ocorresse, ele seria culpado só em parte.
Os cacoetes, assim como os clichês, são recursos simples e acessíveis a todos. É mais fácil, por exemplo, recorrer ao sinal da cruz ao invés de agarrar as bolas como se com isso o goleiro passasse a mensagem de que a tarefa dele é compartilhada com o plano espiritual. Assim como é cômodo para uma figura pública, da mesma forma que o goleiro, "tirar o seu da reta". Os símbolos como os sinais da cruz e cacoetes em geral estão ligados diretamente a isso, acredito. É uma maneira de eximir-se de culpa ou responsabilide por eventos futuros.
Não entendo por completo a mística das simbologias muito menos o motivo de tantos cacoetes, mas na dúvida é bom bater na madeira três vezes.

Sunday, December 02, 2007

Baianas como business II

A princípio esse tema só renderia um texto, porém devido aos comentários pró e contra meu ponto de vista, pretendo aprofundar um pouco a análise a fim de provar, dentre outras teses, a de que você pode estar perdendo tempo fazendo faculdade.
Primeiramente o tema baianas foi utilizado pelo "folclore" que há em sua existência e por ser um exemplo que realmente vi em Salvador. Obviamente não há que ser baiana para ter um nível de renda superior a boa parte da população. O mesmo raciocínio aplica-se a qualquer tipo de vendedor de rua desde o que vende frutas, carregador de celular ou comida. A fim de se enquadrar em um médio-alto estrato de renda basta que o indivíduo tenha um retorno diário de R$200,00 (os quais em 26 dias renderiam R$5.200,00 líqüidos/mês). Isso posto, qualquer atividade comercial que renda esse spread torna-se tão ou mais rentável que o caminho clássico de estudar e arrumar um bom emprego.
Naturalmente não venho contestar o estudo, porém nem sempre é estudando que se ganha um bom dinheiro, prova disso são esses exemplos que dei. Há outros, é claro, porém não se cria um Sílvio Santos por semana, logo é preferível nem citá-los por completo. Talvez devido a um passado de instabilidade econômica, desenvolvemos um apego exarcebado a títulos e posições. Se considerarmos a existência de algum charme em trabalhar empacotado, o mesmo talvez não exista para quem tenha uma barraquinha de açaí. Entretanto, no fim das contas ambos estão economicamente em paridade.
De cara, no entanto, essa análise esconde dois fatores que envolvem ter um negócio próprio ainda que informal. O primeiro é o investimento inicial algo que dependendo da necessidade pode variar de R$500,00 até milhares de reais e o outro é a incerteza que se tem em lançar-se num empreendimento. Aqui, porém, cabe uma pequena digressão. Se o cidadão, partamos desse pressuposto, não tem educação formal e não atende aos requisitos que elenquei no primeiro artigo (línguas, estudo e informática, por exemplo), o que ele tem propriamente a perder? O mercado hoje não absorve quem sai das universidades e, em muitos casos, se absorver, lhe oferece um sub-emprego graduado.
Não é à toa a quantidade de dentistas, arquitetos e fisioterapeutas (todos obviamente com educação superior) que atuam em áreas em nada relacionadas às suas formações, para citar uns poucos. Muitos deles, inclusive, partindo para inicialmente negócios informais que após bastante esforço e mérito tornam-se pequenos e médios empreendimentos gerando diversos empregos. A própria baiana, fruto do primeiro exemplo, tinha dois ajudantes em sua barraca.
Em um país em que engenheiros e advogados recém-formados recebem propostas de trabalho de 40h semanais por um salário de R$800,00 (muitas vezes menores até que a mensalidade da faculdade, se privada) , ser baiana de acarajé, vender sanduíche natural ou qualquer atividade informal acaba sendo um escolha sensata e lucrativa. Em última análise, nós clientes comeríamos empadinhas bastante culturais.

Wednesday, November 21, 2007

Baianas como business

Dia desses, enquanto comia um acarajé, comecei a reparar no fluxo de pessoas em volta da barraca. Era perto das 17h e uma fila quilométrica se amontoava em torno da cobertura de 2x2 onde uma baiana devidamente paramentada (vestidos, colares e afins) junto com dois ajudantes despachavam acarajés, abarás, cocadas e coca-cola (por algum motivo nunca vi uma vendendo cerveja, mas ainda vou descobrir o porquê).
Fazendo uma análise empírica, e considerando que essa não é a baiana mais famosa de Salvador (não é Cira, Dinha nem Regina), reparei que ali se vende um acarajé por minuto. Ora, se cada acarajé é vendido a R$3,00, em uma hora faturam-se R$180,00 e em quatro horas apuram-se R$720,00. É uma meta simples de alcançar: 240 vendas de R$3,00 (já dando um bom desconto afinal não estou incluindo cocadas, bebidas ou acarajés em uma freqüência maior que a cada sessenta segundos).
Continuando a matemática, as baianas de acarajé, no geral, trabalham de segunda a sábado das 16h às 20h. Nunca vi acarajé antes do fim-de-tarde e em dia de domingo só se vende em pontos turísticos. Entretanto, para sermos fiéis, além desse regime de 4h/dia, vamos considerar que elas necessitam de duas horas antes e duas depois para preparo, montagem e desmontagem de sua estrutura quituteira. Enfim, as jovens de branco rendado também trabalham 8h/dia.
Calculando sobre um faturamento médio/dia de R$700,00 (dei R$20,00 pro "santo"), teremos que ao final de um mês (vinte e seis dias de trabalho, quatro folgas), a baiana terá faturado 700*26 = R$18.200,00. Se cada ajudante lhe custar R$1.000,00/mês (o mesmo que ganhei para andar engravatado e ser escriturário no BB) e que ela paga a sei-lá-quem um aluguel de mais R$1.000,00, ainda assim sobrariam R$15.200,00.
As baianas no geral são pessoas de muito boa índole e reputação. Dessa forma, vou supor que elas doam R$200,00/mês para ONGs como Greenpeace, WWF ou similares. Por fim, seu faturamento bruto é de R$15.000,00. Se considerarmos que ela gasta 33% do seu faturamento com o custo de produzir os acarajés, facilmente chegamos a conta de R$10.000,00 mensais líquidos.
Para melhor explicar, segue Demonstrativo de Resultado do Exercício para o mês I:
(+) R$18.200,00 - Vendas Brutas
(-) R$5.000,00 - Custo de Produtos Vendidos
(=) R$13.200,00 - Lucro Operacional
(-) R$1.000,00 - Empregado I
(-) R$1.000,00 - Empregado II
(-) R$1.000,00 - Instalações
(-) R$200,00 - Greenpeace
(=) R$10.000,00 - Lucro líqüido
Rapidamente conclui-se que ser vendedor de rua é mais rentável que estudar para concurso público. Baianas de acarajé necessariamente não precisavam fazer faculdade, quiçá mestrado; não estudam línguas ou informática; não são obrigatoriamente líderes, proativas, motivadas, ambiciosas e "hands on"; em resumo, as baianas praticam o mesmo ofício há décadas (o qual é inclusive Patrimônio Cultural Imaterial) e com isso obtêm renda que as coloca no topo da pirâmide social.
Se você estiver pensando em mudar de carreira, vá em frente. Eu ainda prefiro não me vestir de baiana.

Tuesday, November 20, 2007

Procura-se um revisor

Meus textos em alguns casos estão carregados de erros, foi o que constatei após uma leitura que fiz esses dias. Em grande parte acho que isso se deve à minha constumeira impaciência com tudo que me cerca e como diferente não seria, digito feito um doido e nem me dando o tempo de reler, já clico em publicar e só então, com um pouco mais de calma, dias depois, paro, leio e vejo o que passa despercebido por mim.

Comigo, a escrita flui de maneira muito rápida e direcionada. Às vezes tenho uma idéia de escrever algo, faço alguns parágrafos e vou salvando no site. Atualmente estou com menos, afinal fiz uma campanha para publicar o que estava pendente (esse é inclusive um deles) e terminei limpando boa parte dos textos rascunhados, porém já cheguei a ter dez rascunhos por meses sem nem tocá-los. Resultado, quando tenho vontade, sento, publico e pronto. Nisso entram no ar diversas falhas que não reparo. Enfim, isso foi para falar que não tenho muita paciência em escrever pausada e delicadamente.

O resultado de minha personalidade apressada são os erros que passam batido e que aqui ou ali, pessoas com muito jeito e delicadeza vem me apontando. Agradeço a todas, obviamente, mas necessito algo além disso: estou em busca de um revisor. Pode ser revisora também. Alguém que tenha um delta de calma a mais que eu para acertar defeitos que ficam após o texto ser publicado e para os quais eu dificilmente retorno a fim de consertar.

Estou disposto, inclusive, a dar minha senha para que quem for revisar entre e corrija itens como pontuação e ortografia, sobretudo. Acho que na impaciência e até pressa em colocar novidades aqui, termino perdendo um pouco o critério e nessa esteira muitos textos truncados vêm a público num claro atentado à minha imagem de bom e atencioso blogueiro.
Por fim, está feito o convite, adianto que o trabalho é voluntário. Hoje em dia isso é chique.

Tuesday, November 13, 2007

Um prato de cuscuz resolve

Assim que entrei na natação a nutricionista mandou cuidar da ingestão calórica. Ora, se fosse bom ela não estaria me avisando previamente, foi o que pensei. E não era que a infeliz tava certa? Já saio da piscina com uma fome absurda e às vezes não é fácil manter uma linha nutricional após nadar 2000m.

Foi o que ocorreu hoje. Já saí d'água com uma fome das arábias. No caminho de casa havia Burger King, Habib's, Mc Donald's, acarajés e todo tipo de veneno fast-food. Resisti bravamente, cheguei em casa e comi uma maçã. Naturalmente uma maçã não dá nem pra saída, logo comi um iogurte e por último três morangos. Foi então quando comecei a pensar em retomar um texto que iria concluir aqui. Sentei na cadeira e lembrei de uma caixinha de couscous que ainda estava aberta na geladeira: aí começou meu martírio.

A cada digitada eu só pensava no cuscuz (ou couscous) que, convém ressaltar, nem é essas comidas todas, mas pra quem tá com fome né? Foi aí então que minuciosamente minha mente começou a trabalhar contra mim mesmo: passei a avaliar os prós e contras de comer o primo do fuba e finalmente cheguei a conclusão que se eu tivesse parado no Mc Donald's teria sido muito pior. Pronto, estava dada a ordem para comer o cuscuz como se fosse a mais fina das iguarias.

O preparo seguiu o passo-a-passo que já coloquei aqui (massa de couscous marroquino, caldo de galinha ou carne, cinco minutos de fogo) e além disso fritei dois ovos com azeite. Enquanto comia, também tentando aplacar a consciência, pensei que poderia ter colocado itens bem mais engordativos (se houvesse na geladeira também né?) e assim minha mente aceitou passivamente o prato de couscous com ovos na medida em que cada colherada (sim, eu como como pedreiro) descia goela abaixo.

Ah, se os males do mundo fossem simples assim. Em meu caso, um prato de cuscuz resolve.

Saturday, November 03, 2007

Rap das Armas

De tempos em tempos nossa produção cultural nos brinda com obras de caráter bastante duvidoso. É desnecessário citar exemplos, porém o último hit que estoura em todas caixas de som (dos postos de gasolinas às nights ensacadinhas) é o tema da produção de Tropa de Elite, para quem não lembra é a música do "Parapapapapapapapapa".

Após assistir o filme por duas vezes fiquei curioso em procurar a letra e finalmente me deparei com o bastante sugestivo título do "Rap das Armas". Sua estrutura, caso queira ler, encontra-se no link a seguir - Rap das Armas. Sugiro que dê uma rápida olhada só para entender a que me proponho.

Não sou especialista em armas, mas claramente se vê, a partir do título, que a intenção do seu autor é intimidar, além de logicamente incitar e propagar a cultura da violência. Arrisco dizer, inclusive, que esse tipo de produção é financiado pelo próprio tráfico em uma relação promíscua e ilegal. Ironicamente, a prática do mecenato foi de Roma aos morros. O pior de tudo, porém, não é nem a produção ou financiamento desse tipo de "cultura" e sim, seu consumo. Esses marginais travestidos de artistas, incitam a violência em um claro atentado à ordem democrática e o estado de coisas que fazem do Brasil que construímos um país onde há respeito às diferenças. Nós, enquanto classe A-B-C, rimos e achamos gostoso descer até o chão enquanto o camarada propaga que "lá vem aquele de AK-47". Em tempo, essa é a arma mais utilizada por forças terroristas como os Taleban, os rebeldes da Chechênia e atuais insurgentes no Iraque. Para falar somente de um exemplo, sob pena de ser repetitivo.

É urgente a construção de um critério mínimo de consumo da cultura dos morros. Um lado da moeda é calça da Gang, popozudas e essa maneira lasciva de dançar. De outro, em muito relacionado também à cultura funk, há um claro ataque ao poder constituído ao mesmo tempo em que se romantiza um elemento cuja forma de divertir é propagar artefatos de destruição massiva e desproporcional ao ambiente urbano. A condescendência com a qual tratamos o que desce de lá será uma conta bastante alta de pagar, se já não o é, ao que passo em que se acha natural ouvir a palavra granada enquanto se paquera a gatinha ao lado.

Já tornou-se lugar comum a pujança do poderio militar da indústria do crime no Brasil. Isso é fato, o que critico e questiono é que nós enquanto reféns desse enredo social, consumamos uma cultura que se propõe unicamente a exaltar uma máquina capaz de nos fazer perder o sono e até a vida, em muitos casos. O problema da criminalidade vai mais além de uma canção, eu sei. Entretanto, de tanta tolerância, fico aqui pensando onde iremos parar nessa roda-viva de romantização da criminalidade, seja ela descortinada ou velada, como esses pancadões o são.

Ultimamente, ou pelo menos até onde lembre, todo verão lançam-se músicas que vão bombar. Ao ouvir essa exaltação ao poder paralelo, confesso que me dá uma saudade danada do É o Tchan, Calypso e músicas de rebolado. Lixo por lixo, é preferível o que se dedica somente a entreter.

Tuesday, October 30, 2007

Dois anos de Bahia III

(CONTINUAÇÃO)


O pior de querer, e até em parte, alcançar ser gente grande é a solidão. Não durou mais de dez dias para perceber que viveria boa parte dos meus momentos sozinho. Claro que existem pessoas muito importantes para mim aqui, porém eu sentia uma falta de tudo. Não demora muito até você perceber que o ônus de se lançar em certas aventuras (ou até doidice, dependendo do intérprete) tem um preço bastante alto e isso, em muitas vezes, beira o arrependimento. Ao chegar aqui, saí de um ambiente bastante acolhedor em Macaé para encarar o que seria a rotina de morar numa Salvador que em muito diferia do que eu estava acostumado tanto em Natal, quanto em meio à minha turma de CF no Rio (muita gente e agitação).


O que a época de chegar aqui me reservaria seria, a princípio, um esquema de casa-trabalho, arrumação de mudança e tarefas chatas as quais em nada se pareciam o que eu sempre imaginei de ser o fato de morar só. A época em que aportei à Bahia, entretanto, é a que imagino ser a melhor: o verão. Salvador faz jus a fama de cidade festeira e, da 1a semana até pouco antes do carnaval, onde não fiquei aqui, mas fui para Caicó, frequentei todo tipo de festa: ensaio de tudo no mundo, festas, lavagens e correlatas. Nesse período, meu banco de horas pulou do azul claro para o vermelho encarnado, mas tudo era festa. Mais uma vez, o ciclo se inicia nas próximas semanas, porém hoje não vivo mais a mesma tara de festas como todo turista (e assim me considerava quando vim pra cá) tem. Pelo fato de se mencionar Salvador, automaticamente diversas pessoas têm uma visão de "acarajé, Pelourinho e capoeira", mais ou menos a mesma que tive.


No entanto, fato é morar em uma cidade, algo totalmente distinto é ser turista nela. São Paulo, por exemplo, é excelente para passear, porém se fosse morar ali, eu teria que me acostumar com aquele trânsito FDP, algo no qual Salvador não deixa muito a desejar não. Vivo dizendo que me considero também baiano, mas o trânsito aqui é capaz de irritar o mais apaixonado dos soteropolitanos e isso é sem dúvida meu maior incômodo com relação à essa bela cidade.


A solidão, continuando, em meu caso, vinha do excesso de tempo livre pós-trabalho. Nessa esteira, resolvi que iria ocupá-lo, logo eu fiz curso de redação, mergulho, culinária (japonesa, italiana, francesa, brasileira, chinesa), drinks, vinhos, natação, corrida, musculação, boxe. Fui a degustações de whiskey, vinho, vodka, cerveja. De positivo nisso tudo teve perda de peso (8kg) e muitas amizades que fiz. Por último entrei numa confraria na qual nos reunimos quinzenalmente para cozinhar e tomar vinho. Como se vê, minha rotina é bastante relacionada com a mesa. Por fim, aprendi a lidar com a solidão e talvez seja por isso que hoje consigo viajar sozinho (como relatado abaixo) e não sofrer ou me amedrontar com o fato de deparar-se somente com minha própria compahia.


Por outro lado, ainda tocando no tema solidão, no geral os domingos ainda são terríveis para mim. Lá em casa, em Natal, eles são historicamente dias bastante "famíla", sobretudo os almoços, e isso faz falta. Arrisco até dizer que é o tipo de ocasião insubstituível na vida de alguém, afinal invariavelmente em quase todos domingos sinto falta deles, dos bons papos, porém isso é algo que ainda terei que trabalhar e possivelmente quando fizer outro retrospecto já terei evoluído um pouco mais.


A dor, a qual me referi acima, produz crescimento na maioria dos casos. Contudo o pior misto de dor que já senti ao longo desse período foi o de ficar seriamente doente e não ter o apoio dos meus mais próximos. Peguei um rotavírus (imagino que seja o vírus que vem por aí rodando) e rapidamente fiquei acamado por dois dias. Não sei se por peculiaridade da doença ou por falta de cuidado, na segunda noite acordei com uma febre de 40C e fui dirigindo para o pior hospital que um ser humano pode ir: Hospital Aliança. Lá chegando às três da manhã começaram uma bateria de exames que incluiu radiografia, ultrassonografia e tomografia; exame de sangue, fezes, urina e toda uma saraivada de procedimentos os quais possivelmente foram só para fazer caixa a fim de manter uma estrutura nababesca. Resultado: ao meio-dia eu ainda não havia sido medicado e arranquei o soro da mão, atirei contra a parede e sai com mais de mil de lá. Minha saúde não me permitia rompantes de cólera, porém o negão 2x2 deve ter sentido o clima fechar quando eu mandei ele tomar naquele canto, após tentar me impedir de sair do hospital, enfim eu mesmo me liberei dos cuidados médicos e hoje guardo um "atestado de alta por evasão hospitalar". Como pude comprovar, ainda continuo metido a esquentado, mas nada que o tempo não cure e o fato de engolir muitos sapos contribui para isso.


Já concluindo, por aqui encerro esse meu relato, com a única certeza que não sei do meu amanhã seja ele de fato amanhã ou daqui a alguns anos. Não tenho idéia se e nem quando volto para Natal, apenas vivo o dia-a-dia como sendo um presente divino e o melhor de tudo são as histórias para contar que felizmente vão se somando às muitas que já foram contadas e outras que estão aqui relatadas. O que vivi nesses dois anos, acredito, me habilita a alçar vôos ainda maiores (o que quer que isso queria dizer) e sou bastante grato pelo fato de que a balança de dois anos de Bahia pende bastante para o lado positivo.

Por último, gostaria de aprofundar ainda mais o cárater auto-biográfico desse texto, porém sob pena de tornar-me chato e repetitivo deixarei para explorar temas específicos como viagens e festas (muitos dos quais já falei em diversos textos) isoladamente a fim de não matar ninguém de tanto ler pois sei que na tela tudo cansa bem mais. Através desse blog, algumas pessoas lêem meus textos e me chamam de aventureiro. Pois bem, dentre todos esses relatos, esse talvez seja o que mais conta de mim: nessa minha aventura de viver.

Dois anos de Bahia II

Continuando, essa chegada à Bahia foi o término de um período que eu imaginava ter acabado quando saí da faculdade: o de estar sob a "proteção" constante de alguém. Assim que me formei, passei quase dois meses na Argentina, entrei pro Banco e logo vim para a Petrobras. Eu não havia até então entendido a dimensão na qual me inseriria enquanto adulto, justamente por ter saído de casa em maio de 2005 e automaticamente ingressado em um grupo incrível que foi a turma com a qual entrei na Companhia e comecei propriamente minha carreira profissional. Até a 1a noite no meu apartamento em Salvador, onde entrei com um colchão, uma vela, uma garrafa d'água e toda minha mudança (resumia-se a duas malas), minha vida tinha sido totalmente protegida: durante vinte e poucos anos pelos pais aos quais Deus encarregou-se de dar a hercúlea tarefa de me fazer gente e depois, mesmo que momentaneamente e guardada a proporção do que isso pode significar, por uma turma de Curso de Formação na qual todos (ou ao menos a maior parte) eram de fora e o máximo que sabiam de seus destinos é que deixaram para trás muitas coisas.


A realidade do que a independência significaria começou a descortinar-se na medida em que tive que assumir tarefas que até então passavam ao largo da minha percepcão faculdade-estágio-academia-vida noturna. Pode parecer uma espécie de manha, mas eu nunca imaginei como seria difícil lidar com uma casa e ser realmente independente, o que até então eu só vinha vivenciando em parte já que por seis meses morei em hotel, não tive chefe, aborrecimentos, encheção de saco, ou seja, ainda vivia o fator novidade de ser "gente grande". A partir de então, há exatos dois anos, foi quando eu passei a perceber que o buraco era mais embaixo.


Ao longo desse tempo, uma antiga lei da física provou-se verdade pra mim: a de que se um corpo for deixado em repouso a menos que uma força externa atue, ele permanecerá assim indefinidamente. Lembro a lei, mas de cor eu não sei o número. Com 33% de chance de acertar ou foi a 1a, 2a ou 3a. Enfim, os copos, tênis, roupas, livros, chave de carro, eles simplesmente adormeciam onde eu tinha deixado e amanheciam guardados, pendurados, lavados, limpos, enxutos e prontos para uso. Minha percepção míope não atentava para o fato de que alguém (ou Mamãe ou Raimunda, nossa lendária companheira) havia estrategicamente passado por ali e organizado o que eu não tinha feito, possivelmente ao chegar de madrugada de algum canto. Essas pessoas não iriam mais estar no meu apartamento em Salvador.

Os copos, pratos, talheres e toda imundície-bagunça-alvoroço que eu fizesse estariam de volta aqui em casa como se testemunhassem uma vida inteira de gente indo atrás do que você poderia facilmente ter feito e nunca fez. As nadadeiras ainda salgadas quinze dias em cima do sofá eram a prova cabal de que eu não tinha a mínima competência para gerenciar um apartamento de 50m2, quiçá uma vida. Esses pequenos detalhes da rotina ensinam e desgatam bastante porém eles são uma das facetas, talvez a ponta do iceberg.

(CONTINUARÁ)

Dois anos de Bahia I



Esse apanhado já foi conversado e discutido em muitas esferas: mesa de bar, trabalho, msn, mas só agora sento para tentar fazer um relato de dois anos de Bahia. A verdade é que essa idéia surgiu ainda no ano passado, porém com a correria do fim-de-ano terminei sem escrever e passei 2007 inteiro esperando chegar esse momento para enfim abordar talvez os dois anos mais intensos da minha vida.


Naturalmente tenho vivido intensamente desde que saí do segundo grau, imagino. O período de faculdade e o após ele foram cheios de novidades, mas esse foi mais peculiar, e suponho que você concordará comigo caso encare a maratona da leitura. É claro que outras épocas de minha vida também tem seus pontos altos, porém me manterei fiel aos últimos vinte e quatro meses.


Para começar, cheguei aqui de pára-quedas. Talvez exagerando um pouco foi mais ou menos com uma mão na frente outra atrás. Não era tão mal assim, afinal vinha empregado e com todas frescuras do mundo, porém no aspecto pessoal, além de Thiago, que vinha comigo de Macaé, as pessoas que conhecia na Bahia se resumiam a colegas de trabalho (alguns dos quais tornaram-se também amigos próximos).


Nunca esqueço quando cheguei aqui em 31/10/05, véspera do meu aniversário, e me espantei com a distância até o aeroporto. Mal sabia que iria ir e voltar essa Avenida Paralela pelo menos umas vinte vezes para ir à Natal (pelas minhas contas deve ter sido isso mais ou menos). O dia seguinte, 01/11, seria o que até hoje imagino ter sido um dos piores da minha vida: além de ser meu aniversário, lembrei muito da minha família, dos amigos que deixei em Macaé, de um "amor" (complicado dizer como evoluiria, mas ainda assim especial) deixado no Rio e o medo de tudo que estava por vir. Eu havia trocado de cidade como quem muda de roupa, explicarei mais abaixo.

São nessas horas que começam a aparecer os torturantes "e se...". Confesso que eles ocuparam minha mente por um tempo, acho que pelo menos os seis primeiros meses foram cheios de "e se..." e até onde percebi eles não contribuiram com muita coisa. Fato era, hoje eu percebo, em uma questão de dias eu havia dado um rumo totalmente diferente à minha vida e não sabia aonde isso iria me levar, se eu iria gostar,me adaptar, ficar aqui para sempre, em resumo, eu não sabia de nada do meu presente e futuro imediato. Pode parecer exagero porém até hoje imagino que as repercussões dessa minha decisão impactaram toda minha vida: trabalho, família, amigos. É mais ou menos a tese da Teoria do Caos, ou seja, um "sim, eu concordo" mudou possivelmente o trabalho que eu desempenho, a pessoa com a qual vou me casar, um eventual acidente que eu poderia vir a ter. É viagem demais começar a conjecturar a esse respeito, mas espero ter sido claro no valor que acho que esse sim pode ter tido.

A verdade é que a situação era essa pelo fato de haver aceitado uma transferência para cá e sobre ela convém abordar mais profundamente. Cheguei de Buenos Aires na véspera do dia em que concordaria vir pra cá. Após um papo de cinco minutos eu havia acabado de decidir que moraria na Bahia. É hilário, mas o que me passou pela cabeça foram três coisas: acarajé, capoeira e Pelourinho. Juro que em momento algum pensei em vida, rotina. Nada. Quando ouvi a mulher sugerir vir para Salvador (após seis meses de RJ), concordei como se ela tivesse dito "vamos tomar um café" e a tal da ficha não veio cair até essa terça-feira, 01/11 - meu aniversário, hospedado em um hotel mixuruca (os melhores estavam lotados) no antro da prostituição baiana. Hoje acho graça, mas não nego que um leve desespero começava a tomar conta de mim.


A sabedoria popular, e é sempre oportuno recorrer à ela, diz que não há desespero que dure pra sempre, ou algo do tipo. Foi nisso que me peguei há exatos dois anos e saí para tomar uma cerveja em comemoração ao meu aniversário. Em respeito a quem me levou para uma véspera de finados em Salvador, não vou dizer que foi uma merda, mas foi bem ruim. Poderia ter sido pior caso tivesse ficado assistindo Casseta & Planeta em uma terça-feira de aniversário. Em parte aí começou-se a formar dentro de mim um conceito que evoluiria ao longo do tempo que é o de que as coisas podem sempre piorar. De certa forma está relacionado à Lei de Murphy, mas fato é que hoje, após tantas situações trágicas e engraçadas, penso que o motivo de uma reclamação hoje pode ser o de uma alegria amanhã e vice-versa. O que temos de fato é hoje, o amanhã é mera especulação.


Lembrei que escrevi uma carta para Flocos, no meio de 2004 (inclusive está abaixo, basta procurar por "Flocos" em seu navegador) a qual dentre outros conselhos dizia assim " Saiba que o crescimento vem acompanhado de dor. Se vier a senti-la, lembre que eu, a torcida do América e mais um monte de gente estaremos com você. Sempre.". Ironicamente, eu iria me pegar lendo a carta que eu tinha escrito para um amigo como forma de entender tudo o que se passava na minha vida.


(CONTINUARÁ)

Wednesday, October 24, 2007

V Meia Maratona Internacional da Bahia

Como comentei abaixo em Pintura de apartamento, tenho o hábito de "inventar novidades e abraçá-las como metas a alcançar". Uma delas, iniciada no meio do ano passado, foi a de iniciar um treinamento de corrida e entrar para o Clube de Corrida da academia. Até aí nada diferente do sempre eu: inventar uma novidade para ter com quê se preocupar.

Para começar um treinamento assim, de início cada quilômetro é sofrível e uma mistura de dor generalizada, ofegância e uma completa sensação de desmonte corporal tomaram conta de mim. Dóia tudo, é claro, afinal o máximo que eu tinha corrido até então tinha sido as Olimpíadas Infantis do Colégio Marista de Natal aí pelo começo dos anos 90. E como não poderia ser diferente, a medida que fui ganhando condicionamento, resistência, ousadia e gaiatice, passei a percorrer maiores distâncias no asfalto até que participei da 1a prova em agosto último.

Naturalmente, e como reforcei abaixo em XXXV Corrida Duque de Caxias, após vencida uma prova de 10km, a meta seria a Meia Maratona que ocorreria dois meses depois. Conhecendo esse Daniel que conheço, e fiel a meus princípios-auto-flagélicos (para quem ler hoje, 24/10, amanhã no escritório olho no dicionário se existe essa palavra, mas até lá fica assim), treinei feito um corno: aclives, corridas diurnas, a favor/contra o vento, noturnas, longas distâncias, ritmo intenso; em resumo, melhorei meu tempo, mas o principal foi minha resistência. Estava pronto para correr exatos 21,1 km na V Meia Maratona Internacional da Bahia marcada para o domingo dia 25/10.

Nos últimos dias antes da corrida estava em Recife. Lá, na quinta-feira anterior à prova, corri 7km em Boa Viagem. Fiz um tempo bom (41' - para os meus termos) e fui descansar crente que a meia seria tranquila. Na sexta, entretanto, saí na noite pernambucana e, digamos, tomei umas cinco doses de whiskey. Logo, partindo do axioma popular de que "quem nunca come mel, quando come se lambuza", por analogia, associo que "quem está sem beber, quando bebe se ferra"e foi exatamente o que ocorreu: acordei o sábado com uma ressaca de matar qualquer queniano.

Nesse dia não caminhei, nem mesmo corri ou alonguei. Deixei minha cabeça latejar e passei o dia inteiro em completo repouso na vã ilusão de que estaria pronto para correr no dia seguinte. Puro engano. A ressaca entrou pelo domingo de tal maneira que desde às seis da manhã quando o despertador tocou e ainda ousei levantar para tentar me aprontar, percebi que meu dia seria da redinha na varanda do décimo andar do Itaigara pro sofá e nada de muito movimento - que dirá meias maratonas. Não sei se me arrependi, ainda nem formei opinião a esse respeito, mas desde então eu ri muito. Só de vingança em 2008 vou correr uma maratona inteira: 42,2 km hahaha.

(Ao longo do próximo ano irei postar aqui o desenrolar desse mais novo auto-flagelo).

Wednesday, October 17, 2007

40 docinhos




Em um fim-de-semana desses, fui ao casamento de um casal amigo. Tudo como manda o ritual. A respeito da cerimônia e desdobramentos, nada a comentar. Já dos convidados, o único senão foi uma senhora que, após aberta a mesa dos doces, achou por bem levar 40 docinhos. Ora, ela nem devia poder comer tanto açúcar. Possivelmente por problemas de idade: triglicerídes, glicose e talvez até diabetes. Cárie não ataca chapa, logo essa preocupação não existia. Em todo caso fiquei com a cena na cabeça: a inofensiva velhinha (daquelas bem vovozinhas mesmo) carregando 40 docinhos.

O que leva alguém a avançar sobre uma mesa e insatisfeito com tal voracidade, carregar 40 docinhos? Gula? Falta de educação? Ajudar os netinhos a "garantir o seu"? Se restar dúvida de como comumente as pessoas avançam, sugiro assistir Coração Valente justo na parte em que Mel Gibson grita "SCOTLAND!!!". A foto de início desse post exemplifica bem.

Antes de tudo doce não é minha praia, logo ela não era uma ameaça ao meu intuito alimentar. Se ela voasse nas garrafas de uísque, aí sim eu tomaria partido, mas até então ela podia morrer com brigadeiros e olhos-de-sogra (se bem que atualmente tudo em bufê leva nome em francês, né?) que de minha parte eu não ofereceria resistência.

Analisando o fenômeno, já de volta a meu computador, passei a associar o mesmo comportamento de manada a diversas atitudes do dia-a-dia. É fácil perceber como a velhinha perdeu a racionalidade frente aos docinhos se traçarmos um paralelo com o alvoroço que é não só para embarcar, porém sobretudo para desembarcar de um avião. Basta o piloto tocar a pista e o avião começar a andar um pouquinho mais devagar que metade do vôo se inquieta ao ponto de a comissária ter que chamar a atenção de um ou outro. Por fim, assim que chega-se à ponte, 99% do avião fica em pé, mesmo sabendo que naquela posição ainda permanecerão por pelo menos cinco minutos.

E nos self-services? Alguém já reparou como as pessoas "avoam" sobre os pratos? Até parece que aquilo tudo é boca livre. No fim das contas, todo mundo se serve, pesa a comida e paga proporcional ao que levou. Esse último exemplo foi para contrastar com os bufês em geral. Basta algum cristão dizer "o bufê abriu" que meio mundo de mortas-fome (p.s. acabei de tirar a dúvida de hífens em - http://www.pucrs.br/manualred/hifen.php) avança feito um bando de hienas rumo à carniça. Discovery Channel perde feio.

Como é de costume, alguém pode dizer que as mortas-fome (em maior número mulheres, infelizmente, por isso o feminino) quando se digladiam pela coxa do peru (e haja porrada aí pois até onde sei as aves-não-transgênicas detêm apenas duas) estão fazendo "o prato dos meninos" ou "do marido". Pra cima de mim?

Por último, lembrei da história do Lobo Mau. O diálogo dele com a Vovó seria mais ou menos assim:

L - Vovó, pra quê essas mãos tão grandes?
V - É pra poder carregar mais doces, lobinho.
L - Ahhhh.

Festa do Padroeiro de Maracaípe

Pela 5a vez em dois anos percorri o trecho Salvador-Natal (ou o oposto) por carro. Muitos dizem que é loucura e não tiro suas razões. Enfrentar 1150km não é para qualquer dia tampouco qualquer um. Entretanto, como tudo na vida, há vantagens as quais, dependendo do ponto de vista, amenizam a trajetória de em média 15h.
Conhece-se um Brasil distinto das grandes cidades. Lugares remotos como Piaçabuçú (AL), São José da Coroa Grande (PE) e Mamanguape (PB). Saindo de Salvador às 11h da manhã, cruzava a PE-060 às 21h e o cansaço começou a chegar. Olhei em volta, só havia canavial e , não dá pra negar, o camarada sente um medinho de qualquer coisa. Sei lá o quê. Ainda faltavam, mais ou menos, 350km até Natal e seguindo no mesmo ritmo aportaria na Capital Potiguar por volta de uma da matina. Era de fato o que eu queria, chegar em casa o mais cedo possível, contudo o destino me reservaria uma experiência diferente.
Parei em um posto de gasolina (que felizmente apareceu antes de uma "pousada" qualquer) para perguntar a um cidadão muito despreocupado, como boa parte dos frentistas de interior, qual era a parada mais próxima. Qual não foi minha surpresa ao saber que estava a meros 20km da paradisíaca Porto de Galinhas. Pronto, ali descansaria.
Lá chegando e após a busca por uma hospedagem, soube por fontes seguras que o movimento da noite seria em Maracaípe (conhecido pico do surfe) em sua pública festa do padroeiro. Justiça seja feita, não me animei muito, é verdade, mas já escaldado de outras festas de rua, públicas, povões e afins, coloquei uma camiseta furada, uma bermuda até mais ou menos e vinte conto no bolso. Subi no mototáxi e após quinze minutos de "pó-pó-pó" eu estava a beira do apocalipse.
Não quero ser preconceituoso, que fique claro, porém é necessário uma dose cavalar de mente aberta, álcool e empolgação para se soltar em festas assim. Após 11h de direção, fato era, eu juntava mais ou menos todos os requisitos auto-impostos para o lazer a baixo custo em meio à população nativa de um point do surfe nacional. Além disso, tomar algumas cervejas (e o dinheiro também não tinha como dar para mais que isso) ouvindo um cover de Aviões do Forró era seguramente melhor que ter dormido em alguma hospedagem de BR (entedida em seu sentido lato sensu, ou seja, motel) ou seguir dirigindo mais 350km até Natal.
O público, em sua maioria, era estranho à minha convivência. Novamente não quero soar preconceituoso, afinal foi bastante divertido, porém meu dia-a-dia não me brinda com a convivência entre pessoas tão animadas e soltas. Os nativos, no geral, são assim soltos e felizes à sua maneira.
...
[Gostaria, aqui, de fazer uma pequena intervenção e analisar meu próprio texto. Comecei a escrevê-lo há uma semana e só hoje, 17/10, retomei a redação. Ri muito ao ler o último parágrafo o qual muito se assemelha À Carta de Pero Vaz de Caminha escrita assim que os portugueses aportaram aqui (A Carta, Pero Vaz de Caminha - http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/carta.html). A maneira como descrevi os locais soou, ao meus olhos, preconceituosa e elitista, entretanto não cabe alterar].
...
Voltando à festa, restavam R$2,00 no bolso que seriam a condução de retorno. Subi numa kombi velha e voltei para minha realidade menos crua. No caminho comecei a pensar no que ainda me falta ocorrer. Certamente, na próxima Festa do Padreiro de Maracaípe, em outubro/08, estarei menos preocupado com o ambiente e mais imerso na multidão. Por fim, a experiência valeu: as cervejas, as risadas e o texto.

Tuesday, October 16, 2007

Pintura de apartamento

Tenho um mau hábito de inventar novidades e abraçá-las como metas a alcançar. Reputo como sendo um mau hábito, afinal não raras vezes me arrependo de ter pensado demais e quero desistir, mas uma espécie de auto-orgulho me inibe de cair fora do que nem deveria ter sido iniciado. Se eu fosse reler esse parágrafo, certamente não iria entender muito bem o que quis dizer, porém com um exemplo todos conseguem compreender.
Após uma extensa negociação, mudei de apartamento aqui em Salvador. Não foi nada grandioso, afinal saí do nono para o décimo andar. A mudança, no entanto, ocasionou uma série de pequenos acertos e reparos em ambos apartamentos - o vago e o novo. Até aí tudo bem, afinal não é a primeira vez que faço e desfaço malas, mas, no geral, dessa última meu tempo foi bastante tomado e, momentaneamente, deixei de lado algumas atividade cotidianas como o blog, por exemplo.
Dentre um dos reparos necessários estava a pintura do novo apartamento. A idéia inicial seria pintar tudo, porém fui diminuindo até que restringi-me somente ao quarto. O pintor, um camarada da mais alta polidez e simpatia, furou quatro vezes. Essas evasivas mexeram comigo e então tive a infeliz idéia de eu mesmo pintar a nova morada. Repito: I-N-F-E-L-I-Z. Melhor teria sido se nesse momento de loucura, eu estivesse dormindo e a atividade de pintura fosse um mero pesadelo.
De idéia na cabeça, comprei todo o material e no último domingo comecei o que seria um lazer mas terminou como um parto. Faço aqui uma pequena interrupção: tenho uma tese de que tudo no começo é bom e, como não deveria ser diferente, minha missão iniciou-se às 8h como ares de grande acontecimento e encerrou-se, já pelas 17h de um domingo de sol em Salvador, com uma tremenda sensação de alívio.
De começo é uma beleza: o cara começa devagarzinho, dá uma pincelada aqui, se mela um pedaço, em resumo acha tudo bacana. Esse é o momento novidade. Lá pra uma hora de pintura, o cidadão já se acha o Salvador Dalí. A prática adquirida em sessenta minutos de pintura, o habilita até a ganhar um extra nas férias e ele começa a se perguntar "por que eu nunca pintei antes?". Terminada a primeira demão (camada) de tinta, já dói tudo: braço, perna, costas, cabeça. Se for destro, o mané vai tentar pintar com a esquerda pra aliviar e é aí que o caldo começa a entornar. Muitos podem associar isso ao casamento, mas deixo as analogias por conta de cada leitor.
Após duas horas de tinta, o imbecil vai querer parar por algum motivo. Seja café, cigarro ou banheiro, qualquer auto-desculpa o tirará do seu flagelo. Comigo não foi diferente. A visão de todo, algo que a filosofia há muito vem discutindo, não chegou nem a sua metade. Se eu já achava que tinha chegado ao inferno, faltava pintar o teto... Ah, o teto. Por que danado a gente não mora em casa sem teto? Podia ser aquela da música que não tinha teto não tinha nada! Meu domingo iria piorar exponencialmente ao começar levantar o pincel em direção ao céu...
Pintar o teto, e aí peço uma pequena abstração de sua parte, é ficar feito um otário com um cabo de vassoura na mão esfregando um rolo pra lá e pra cá pelo menos umas setecentas vezes. Se for usuário de lente de contato, como eu, dê um jeito de acostumar-se com os pingos ou use óculos de proteção (eu tinha mas nem lembrei disso). No geral, dá pra cansar, isso eu garanto. E lembremos que aí conclui-se a primeira demão. Falta a segunda.
Pós-almoço, é hora de pedir pra morrer. Primeiro já se fez a merda de iniciar uma pintura que por qualquer cem conto alguém faria, depois porque você ainda não chegou a lugar nenhum. O máximo que há, e haja boa vontade aí, é uma camada esbranquiçada sobre a antes suja parede, mas nada de fato alcançado.
O foda-se é ligado nesse momento. Tudo que se quer é atingir algo minimamente bonito e cômodo. Essa é a hora do erro, da culpa e do arrependimento. Se estiver acompanhado, guarde para si todas as queixas, afinal o menos necessário no momento é desmotivar quem está ali para contribuir.
O resultado final ficou bom, confesso. Agora não sei se minha percepção foi influenciada pelo esforço ou se de fato pintamos bem. A sensação de se alcançar algo difícil é ótima, mas o desenrolar é miserável. Fica aqui uma recomendação: por favor só invente novidades fáceis de serem levadas até o fim. Para quem quiser um exemplo de algo a não fazer é pintar seu próprio apartamento. Se ainda tiver dúvidas, lembre-se de mim ao pintar o teto.

Monday, October 01, 2007

Pensamentos quase póstumos

Artigo - Luciano Huck
Folha de S. Paulo


Pago todos os impostos. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa.


LUCIANO HUCK foi assassinado. Manchete do "Jornal Nacional" de ontem. E eu, algumas páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma no caderno de cultura. Não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio. Por quê? Por causa de um relógio. Como brasileiro, tenho até pena dos dois pobres coitados montados naquela moto com um par de capacetes velhos e um 38 bem carregado. Provavelmente não tiveram infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia. O lugar deles é na cadeia. Agora, como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa. Adoro São Paulo. É a minha cidade. Nasci aqui. As minhas raízes estão aqui. Defendo esta cidade. Mas a situação está ficando indefensável. Passei um dia na cidade nesta semana -moro no Rio por motivos profissionais- e três assaltos passaram por mim. Meu irmão, uma funcionária e eu. Foi-se um relógio que acabara de ganhar da minha esposa em comemoração ao meu aniversário. Todos nos Jardins, com assaltantes armados, de motos e revólveres. Onde está a polícia? Onde está a "Elite da Tropa"? Quem sabe até a "Tropa de Elite"! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade. Tenho certeza de que esse tipo de assalto ao transeunte, ao motorista, não leva mais do que 30 dias para ser extinto. Dois ladrões a bordo de uma moto, com uma coleção de relógios e pertences alheios na mochila e um par de armas de fogo não se teletransportam da rua Renato Paes de Barros para o infinito. Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão. Meu prazer passa pelo bem-estar coletivo, não tenho dúvidas disso. Confesso que já andei de carro blindado, mas aboli. Por filosofia. Concluí que não era isso que queria para a minha cidade. Não queria assumir que estávamos vivendo em Bogotá. Errei na mosca. Bogotá melhorou muito. E nós? Bem, nós estamos chafurdados na violência urbana e não vejo perspectiva de sairmos do atoleiro. Escrevo este texto não para colocar a revolta de alguém que perdeu o rolex, mas a indignação de alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo e concluir -com um 38 na testa- que o país está em diversas frentes caminhando nessa direção, mas, de outro lado, continua mergulhado em problemas quase "infantis" para uma sociedade moderna e justa. De um lado, a pujança do Brasil. Mas, do outro, crianças sendo assassinadas a golpes de estilete na periferia, assaltos a mão armada sendo executados em série nos bairros ricos, corruptos notórios e comprovados mantendo-se no governo. Nem Bogotá é mais aqui. Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba. Finge não saber. Alguém consegue explicar um assassino condenado que passa final de semana em casa!? Qual é a lógica disso? Ou um par de "extraterrestres" fortemente armado desfilando pelos bairros nobres de São Paulo? Estou à procura de um salvador da pátria. Pensei que poderia ser o Mano Brown, mas, no "Roda Vida" da última segunda-feira, descobri que ele não é nem quer ser o tal. Pensei no comandante Nascimento, mas descobri que, na verdade, "Tropa de Elite" é uma obra de ficção e que aquele na tela é o Wagner Moura, o Olavo da novela. Pensei no presidente, mas não sei no que ele está pensando. Enfim, pensei, pensei, pensei. Enquanto isso, João Dória Jr. grita: "Cansei". O Lobão canta: "Peidei". Pensando, cansado ou peidando, hoje posso dizer que sou parte das estatísticas da violência em São Paulo. E, se você ainda não tem um assalto para chamar de seu, não se preocupe: a sua hora vai chegar. Desculpem o desabafo, mas, hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser paulistano, um brasileiro humilhado por um calibre 38 e um homem que correu o risco de não ver os seus filhos crescerem por causa de um relógio.Isso não está certo.

Tuesday, September 25, 2007

Os pratos mofam

A preguiça, a correria e muitas vezes a falta de interesse me impedem de ter uma gestão mais agressiva do meu apartamento. Pensando nisso, contratei uma faxineira. Até aí normal, afinal, como já disse em outros textos, a única atividade doméstica a qual eu me dedico com prazer é a cozinha. Usando um termo contemporâneo, diria que adotei a terceirização, ou seja, "contratei alguém com expertise* no tema a fim de dedicar-me somente ao meu core business**".
Pautado nas mais modernas técnicas de gestão de recursos humanos, implantei horário flexível, remuneração por produção e sistema de metas. Se minha casa fosse maior, arriscaria até um plano de carreira, afinal todo trabalhador merece ter perspectivas de crescimento na organização onde atua. Dia desses, inclusive, preocupado com sua empregabilidade, sugeri que buscasse algum curso profissionalizante e para minha surpresa minha escudeira está fazendo módulos de corte de cabelo, ou seja, logo ela me deixará e o processo de recrutamento e seleção será a nova faceta da Gestão de RH Doméstica.
Aproveitando uma promoção da Tok & Stok, comprei uns pratos de cerâmica, ainda enquanto mobiliava o apartamento. Os pratos são ótimos, porém bastante porosos. Eles são difíceis de secar mesmo com pano e facilmente acumulam água. Ao lavá-los é necessário, sempre, deixar no escorredor até que fiquem 100% secos e então guardar. Um cuidado que eu tenho, porém que muitas vezes não ocorre à minha faxineira.
Elas, verdade seja dita, ou fingem que não entendem ou não estão nem aí. Já disse inúmeras vezes que os pratos mofam se colocados molhados, mas pela quinta vez, mês passado, cozinhei e todos meus pratos estavam mofados. De novo. Após um dia de trabalho, comer um risoto fumegante em um prato recém des-mofado não é nada agradável. Baseado nisso, redigi poucas palavras em letras garrafais dizendo: Por favor, a partir de hoje toda a louça pode ficar no escorredor. Não guarde mais nada no armário.
Pronto. O tema da louça estava resolvido, entretanto, a pobre não entendeu o motivo da abordagem tão direta do tema. É verdade, pensei eu depois. Pelas minhas contas, era a quinta vez que eu percebia os pratos mofados, porém a primeira que me endereçava a ela a fim de tratar o problema.
Comunicação é sempre problema, mas pior ainda é comer em prato mofado.
* Expertise - Conhecimento técnico
** Core business - Negócio chave, ou seja, manter o foco.

Saturday, September 15, 2007

Férias XIV - Próximas férias

Já respondendo aos mais alvoroçados, irei adiantando três roteiros que já tenho planejados restando somente cumprí-los. Dois pela américa e um pela europa. Seguirão por ordem de prioridade com a qual cumprirei. Os dois primeiros serão em 2008 e o segundo em 2009 - quem viver, verá.

Roteiro I - Venezuela e Colômbia

É o que me falta conhecer de América do Sul. Obviamente não fui às Guianas e o Paraguai foi só de passagem. Irei ao Equador quando tiver muito afim de ir aos Galápagos, porém meu interesse geral em América do Sul terá sido medianamente atendido após visitar Colômbia e Venezuela. Ao fim das contas serão 24 dias (12 em cada) visitando as cidades (Caracas, Mérida e Maracaibo na Venezuela e Cartagena, Medellín e Bogotá na Colômbia) e dois arquipelágos no Caribe - Los Roques (VEN) e San Andrés (COL) cujo destaque maior são os pontos de mergulho. Com mergulhos o orçamento fica salgado em torno de US$1500 a parte terrestre (e aquática, rs), sem mergulho dá para reduzir em 40 ou 50%. Sim, mergulhar é bem salgado - com trocadilhos e tudo. Em média sairá a US$60/dia.

Roteiro II - América Central

Esse também ocorrerá em 2008, restando tirar trinta dias de férias, algumas folgas e de repente um feriado ou outro. Aqui, o tempo será crucial, afinal o roteiro comporta sul do México, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá. Ele está feito para um trajeto de quarenta dias, pode parecer muito, mas serão cinco países e uns 3000km a percorrer. O orçamento aqui, para ir sem stress, é de US$30/dia, porém querendo luxar e esbanjar, dá para gastar mais, claro, entretanto o objetivo é viajar bem e racionalizar despesas.

Roteiro III - Caminho de Santiago

Esse fatalmente ficará para 2009, porém será necessário ter pelo menos 30 dias livres e muita disposição para caminhar em média de 25-30km/dia. Não vou cair no bla-blá-blá de dizer que será um "caminho para redescobrir meu eu", porém não critico quem faça esse percurso com fins mais espirituais. Minha idéia é meramente terrena, porém desde já estou com muita vontade. Não é necessário fazer propriamente um roteiro afinal o caminho está traçado há séculos, entretanto é imperativo ter preparação psicológica e física para aguentar a pressão da caminhada de 800km. Se tivesse tempo, também faria em 2008, porém a CLT só nos brinda com 30 dias de férias por ano e necessito trabalhar para bancar tanta "viajança" - como muitos dizem.

Os termos financeiros aqui são diferentes já que irei gastar em euros, porém uns 1500 euros ou US$60/dia, serão suficientes para todas as despesas considerando que o principal é caminhar. O resto é galho fraco.

Concluindo, possivelmente irei fazê-los sozinho, como muitos que já fiz. Aparecendo interessados, é preferível do que encarar solo contudo se tiver que ir eu e Deus, iremos com certeza.

Friday, September 14, 2007

Férias XIII - Conclusão

Concluo essa série das minhas últimas férias, reforçando que o principal nisso tudo é ter cabeça fria e encarar a vida com bom humor. Minha vida pessoal, a cada vez que volto, é bastante impactada pelas experiências que tive e hoje minha cama queen size, meus vinhos e meu pequeno recanto em Salvador me parecem um tremendo luxo frente ao que já passei, por opção é verdade, nessas andanças por aí afora.

Sem querer voar demais nas idéias, imagino que viajar seja lançar-se em busca do novo, da aventura, do risco e de um auto-conhecimento para o qual, infelizmente, muitos não tem acesso e uns poucos, vontade. A verdade é que penso no dia que irei sair de mochila nas costas e não voltar tão cedo. Minha mãe piraria só de ouvir (ou ler) essa possibilidade, porém não deixo de considerar o dia em que o mundo será minha casa e a mochila minha vida (e aí já se vão sete anos com ela, com sua mini-bandeirinha do Rio Grande do Norte e os 13 remendos que já fiz). Pode parecer idiotice falar de uma mochila tão poeticamente, contudo através dela cresci enquanto pessoa, filho, profissional e sobretudo turista. Foi de mochila nas costas que minha cabeça começou a abrir-se, fui picado por essa doença que é viver pensando na próxima viagem e não pretendo parar - queria Deus me dar saúde e dinheiro para bancá-las. Sobre ele, o metal, concluo dizendo que dinheiro é necessário para viajar, mas não tanto. Conheçi pessoas que rodam o mundo com orçamentos diários menores do que comumente se gasta em uma refeição em Salvdor. É possível sim, só depende de cada um.

Prometo que irei relatar as próximas viagens da mesma maneira que descrevi essa que aqui se encerra. Recebi muitos comentários positivos pelos quais fico bastante satisfeito e agradecido. Em mais alguns meses irei cumprir a primeira da lista que relato no próximo post e novamente serão 10,15 ou quanto textos minha imaginação permitir. Aos que me acompanharam vai meu humildade muito obrigado. E aos que agora, após finalizados todos os textos, se dediquem a lê-los, agradeço mais uma vez e estou às ordens para qualquer dúvida.

Thursday, September 13, 2007

Férias XII - Machu Picchu

Um pouco emocionado foi como cheguei à Machu Picchu. No colegial foi quando começamos a planejar, eu e Juan Pablo, de chegarmos à Cidade Perdida dos Incas, e agora nove anos mais tarde, havia completado um sonho que vinha da adolescência. Fisicamente eu estava bem desgastado. Eu não tomava banho há dois dias, meu pé direito tinha uma bolha enorme (e uma bolhinha no pé tortura qualquer um), meus jeans estava preto, meu casaco preto estava branco e eu estava preto de tanto sol. Hoje, digitando esse post, sinto-me infinitamente mais limpo do que quando cheguei à Cidade Perdida, mas isso é o bom de tudo, como veremos abaixo.

Em regra, o viajante pode ir à Machu Picchu de trem saindo de Cusco ou pelas muitas trilhas que levam 4 ou 5 dias caminhando e acampando. Obviamente, é mais cômodo ir de trem, claro, é tanto que conheço pessoas que foram dessa maneira e adoraram, porém eu queria fazer o roots. Caminhar, caminhar, caminhar e por fim chegar ao meu destino. No total foram mais ou menos 70km em quatro dias de caminhada os quais, fatalmente, fazem o camarada reavaliar diversos valores.

O grande x da questão é caminhar e torcer para não ter bolhas. Eu, azaradamente, tive uma que me tirou a paciência, porém cansaço físico é administrável e seu limite, você verá, está muito mais além do que você imagina. Em regra, caminha-se de dia e acampa-se ao fim da tarde. Tínhamos uma estrutura de guerra: um cozinheiro com ajudante, um guia e um cavaleiro (que levava todas barracas, alimentos, equipamento de cozinha e mochilas). Acordávamos cedo, tipo seis da manhã, el gato (o apelido do cozinheiro) fazia milagre em cozinhar sopas, massas, cereais, frango, carne, tortilhas e tudo que podia se fazer em um fogão de uma boca a 3000m de altura carregando mantimentos para todos os dias sem reclamar nada. Caso algum dos leitores vá até essa trilha, sugiro que dê uma gorjeta (propina em espanhol) para o trabalho dessas pessoas que ganham um ordenado médio de US$100/mês.

De barriga cheia, folha de coca na boca e vento na cara, íamos trilha adentro conversando besteira e desgastando o corpo já bastante cansado. Meu grupo tinha um suíço com seus 50 anos, uma irlandesa, um cara do bangladesh (quem nasce lá é o quê?!) e eu com 20 e poucos anos e uma quatro americanos com seus 18 anos. Houve um choque de idade, sobretudo entre o coroa e os americanos, porém nada muito sério, afinal ele gritou e todos calaram a boca. Foi uma espécie de Big Brother nos Andes ver o povo batendo boca se deviam caminhar mais ou parar, fazer A ou B, enfim, decidir enquanto grupo. Preferi ficar fora disso tudo, sempre conversando com o cozinheiro e seu ajudante os quais me ensinaram muito sobre vida, quechua (o dialeto deles) e cozinha, é claro.

A trilha é cansativa sim, porém não é perigosa e nem entediante. Não há que ser atleta para chegar lá, porém um completo sedentário talvez tenha alguma dificuldade. Em todo caso, ela é uma chance de romper limites, sejam eles físicos, psicológicos ou culturais.

O retorno é em trem, afinal fazer o caminho de volta a pé é demais. Em média os valores saem em torno de US$250 incluindo tudo - ingressos, refeições, barracas e todos esses serviços. Não é caro, porém é preciso ter em mente essa despesa. Existem empresas mais baratas e caras, claro, dependendo do nível de serviço que oferecem. Eu não lembro a minha, mas ao redor da praça em Cusco existem várias. É bom, claro, seguir recomendações. É melhor ir em uma bem recomendada, pois como já deixei claro em quase tudo que escrevi, a noção de direitos nos Andes é bem rarefeita.

Wednesday, September 12, 2007

Férias XI - Cusco

Corri sério risco de ter que parar meu passeio em Arequipa, afinal mais uma greve impediria o trajeto na rodovia Arequipa-Cusco. Esses movimentos sociais, como é de conhecimento de todos, são bastante fortes nos países andinos e por vezes uma maneira de conseguir atenção para o que querem é atrapalhando os turistas - grande fonte de renda para tanto Bolívia quanto Peru. O que eles fazem, que fique claro, é incômodo, porém nunca perigoso. Quebra-quebra, bombas de gás, polícia de choque e afins só passam na televisão. A maioria dos manifestantes são campesinos pobres, doentes e sem dentes.

Novamente fiz um trajeto noturno em ônibus, porém me precavi com todo aparato de frio e as oito horas em ônibus pareceram uma noite bem dormida. A propósito, para quem quer economizar em viagens é super importante planejar viagens noturnas (considerando também a segurança) pois não se perde tempo viajando de dia (se esse for um problema) e economiza-se a diária de albergue (sim, imagino que isso sempre será um problema).

O bom de lá, assim como Arequipa são os restaurantes, bares e baladas - afinal possivelmente ou você virá de uma Bolívia carente disso ou de uma trilha meio punk - e muitas pessoas descansam antes ou depois de irem à Machu Picchu. Dessa forma, a cidade está sempre cheia e o turismo é sua principal fonte de renda.

Há ali, ao redor da praça (região mais movimentada da cidade), diversas igrejas, palácios e prédios de arquitetura europeizada (naõ sei bem definir aquele estilo), mas que rendem belas fotos e caminhadas. Minha situação ali foi meio similar a de muitos que por ali passavam - estar em trânsito, mas ainda assim a cidade é bela e agradável. Passei quatro dias ali, me diverti muitíssimo, comprei repelente, gel para higienização de mãos, aluguei mais um saco de dormir (caso vá fazer a trilha é importante um que proteja bem do frio), pílulas para purificar água, biscoito, chocolate, barrinha de cereal, miojo e todo um arsenal para adentrar o mato só saindo quatro dias depois na mística Machu Picchu.

Cusco para muitos é mero entroposto até o Santuário Inca, entretanto ela também tem muito a oferecer caso haja tempo e disposição.

Tuesday, September 11, 2007

Férias X - Arequipa

(Continuação da Série Férias, sugiro ler desde o "Férias I - Introdução").

A chegada à Arequipa foi reconfortante e tranqüila. O reconfortante foi primeiramente por saber que estaria em um dos pontos altos do turismo no Peru e, depois, por ter passado umas das experiências mais friorentas da minha vida até então: viagem noturna em ônibus pelos Andes.

Acreditei na propaganda que dizia "Coches con calefacción" (ônibus com aquecimento) e me dei muito mal. Saindo de Puno às 22h para uma viagem de 6h onde fatalmente iríamos enfrentar a congelante madrugada do altiplano peruano mas em um ônibus com aquecimento. Na teoria. Deixei meus casacos pesados no porão e subi com um abrigo leve. Após meia-noite, o frio baixou de vez e graças a Deus uma senhora vestida tipicamente (e muita gente anda assim sempre, como falei) cedeu parte do seu fétido porém aconchegante cobertor. Foi a minha salvação.

Mas falando em Arequipa, ela foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. O que isso quer dizer? A fim de exemplo, o Pelourinho, Ouro Preto, Brasília e Olinda, dentre outros, levam o mesmo título. Fazendo jus à reputação, ela tem um centro histórico bem organizado, limpo e seguro. Seria a minha sugestão de um Pelourinho no futuro.

Em seu entorno há vários passeios, sobretudo os de trekking, porém, como não ia morrer caminhando, deixei para fazê-los somente em Cusco, em caminho à Machu Picchu - objetivo central de todo esse desenrolar. A noite arequipeña tem uma invenção diabólica que são "drinks 3x10", ou seja, 3 drinks por 10 soles (3 doses de whiskey ou vodka ou cerveja ou cuba libre etc), pagando a ninharia de US$1/bebida. O turista faz um estrago imenso com míseros R$20,00. Além de bebida, seu centro também tem uma concentração enorme de bons restaurantes e a excelente preço (em dólar). Uma refeição em um dos mais reputados restaurantes locais, saiu por US$20. El Turko chama-se. Sugestão para uma próxima ida.

Wednesday, September 05, 2007

Por que 90% dos caminhoneiros são gaúchos?

Já percorri muitos quilômetros pelas BRs do país. A tarefa, para quem já dirigiu por algumas horas, é bastante monótona e repetitiva. Após reavaliar minha vida por cinco vezes, ainda faltavam 600km para concluir o trecho Salvador-Natal. Comecei, lentamente, a reparar nas placas dos caminhões. Naturalmente, e por rodarem o país inteiro, é comum ver placas de vários locais, porém atualmente isso nem representa tanto, afinal é bastante comum veículos registrados em um estado rodarem por outras partes.

A tese, a princípio, pode parecer descabida, contudo convém fazer uma análise mais aprofundada do fato. Por certo que não tenho dados estatísticos que suportem minha proposição. Obviamente, também, minha pesquisa não tem caráter científico algum, entretanto após seguir minha linha de raciocínio, ao menos 80% de quem passa por esse blog, poderá ver o fenômeno do transporte rodoviário nacional versus a naturalidade de seus motoristas assim como eu. Talvez eu devesse ter sido sociólogo ou trabalhar no Censo. De toda forma, vamos aos fatos.

O primeiro argumento, claro, é o número de caminhões com placas RS. Dia desses, aqui em Salvador, vi um caminhão com placa RS - Vacaria (município que nunca nem ouvi falar) e fora essa, obviamente, é bastante freqüente ver placas de Uruguaiana, Canoas, ou seja, municípios, em tese, mais populares ao grande público. Paradoxalmente, já refuto meu próprio argumento. Basta ver o número de carros com placa PR e a população do estado, aposto com quem quiser que o número de veículos licenciados no Paraná é incompatível com a população de lá*.

Em segundo lugar, basta reparar nos restaurantes ditos "de beira de estrada" (título bastante preconceituoso afinal todos estabelecimentos ou ficam à beira de ruas ou de estradas e em muitos lugares ambas palavras são sinônimos, mas não pretendo discutir o caráter lingüístico de "estrada"). Em grande parte, os paradores de "beira de estrada" são churrascarias, e caso o conceito de churrascaria seja flexível, bastaria excluir do mapa todos os estabelecimentos rodoviários com nomes que evoquem os pampas (aqui sem necessidade de exemplo) e os que sejam pintados em amarelo, verde e vermelho - fatalmente diminuiria a densidade demográfica de qualquer BR, em resumo, os restaurantes são feitos, possivelmente por gaúchos, porém, mais relevante ainda, eles são feitos para gaúchos, justamente os caminhoneiros.

Em terceiro lugar, quem quer que tenha pernoitado em algum posto de gasolina Brasil afora, poderá facilmente perceber que o item mais consumido em qualquer alvorada é o chimarrão. Não conheço outra população que consuma tanta erva-mate como os gaúchos (incluídos aí argentinos, paraguaios e uruguaios, também gaúchos) e seus representantes nas estradas não são diferentes. Basta visitar qualquer posto entre cinco e sete da manhã (espero que não seja necessário você vir a vivenciar isso, mas serve como exemplo também).

Em quarto lugar, e para concluir, ainda no ano passado, distraídamente tranquei uma Scania de placa RS - São Leolpoldo, percorri alguns metros e lá veio o caminhoneiro cortando luz atrás de mim, abri pra direita, fiz sinal de positivo, mas não deu outra:

- Vai tomar no c*, tchê!

E tchê, até onde sei, é linguajar de gaúcho.

* O Paraná tem um dos IPVAs mais baixos do Brasil.




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Couscous

O cuscuz desempenha um papel essencial na alimentação do povo brasileiro. Alimento de alto valor nutricional, baixo custo, fácil preparo e versatilidade, o fubá (ou fuba) de milho tem lugar em todas mesas brasileiras desde a colonização. E remontando ao tempo da colonização, o cuscuz (do árabe kuskus) possivelmente aportou em terras brasileiras após a ocupação da península ibérica pelos próprios árabes por volta do século XII ou XIII não lembro bem.

Ultimamente, talvez devido à globalização, as mesas mais requintadas têm visto a ascensão do couscous em sua acepção mais típica e afrancesada. Não é incomum encontrar bons restaurantes que acompanham seus pratos por essa massa amarelada, macia e bastante úmida - aí talvez a maior diferença entre o nosso cuscuz e o couscous deles. Já o acompanhei com cozidos (cordeiro e carne vermelha), polvo, peixe e frutos do mar em geral. Sabendo adequá-lo em apresentação e sabor, o couscous pode substituir a altura a parte "massa" de qualquer refeição. Obviamente continua valendo a regra de não se misturar massas: arroz x macarrão, batata x couscous, etc.

Na última segunda, preparei uma porção de couscous utilizando 400ml de água, 1 caldo de legumes e meia colher de azeite. De preparo simples, é só ferver todos os líquidos, retirar do fogo, adicionar a massa e esperar inchar (mais ou menos cinco minutos). O modo de preparo que está na caixa (Divella 500g a R$5,90) não fala em usar nenhum caldo (carne, legumes, etc), somente água e sal e ainda adiciona manteiga. Eu, de minha parte, substituí a água e sal por caldo de legumes e não coloquei manteiga. A parte refoguei umas 200g de camarão temperados com sal e pimenta branca e um pouquinho de cheiro verde. Em dez minutos, consegui um prato leve, rápido, saudável, barato e muito saboroso. Pena que não tirei foto pois a apresentação do couscous após ser desenformado com os camarões refogados ficou muito bacana.

Quando tiver mais quórum para minha cozinha, irei preparar um cozido francês chamado boeuf bourguingon ( http://www.olivieranquier.com.br/receitas/receita.php?id=26 )para acompanhá-lo de couscous. Em maio último levei três horas para preparar um e servi com pão. O preparo é demorado mas vale a pena. Com o couscous, também em francês, será uma combinação perfeita.



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Monday, September 03, 2007

Daltonismo

Semana passada, ouvi a oftalmologista dizer que eu era daltônico. Já passei por isso inúmeras vezes, sobretudo nos exames médicos anuais. Depois dessa constatação, todos perguntam se eu consigo ver os sinais de trânsito, como tirei habilitação, etc. Em grande parte gente mala, é importante dizer.

Como sempre, eu disse em alto e bom som que não era daltônico, que conseguia separar as cores mas o tal Teste de Ishihara me acusa de ter isso. Não gostei de ser daltônico, a verdade é essa. E para provar minha saúde visual fiz uma aposta com a doutora:

- Se sou daltônico, vamos fazer o seguinte. A senhora bota uma nota de cem e eu uma de dez, a que eu acertar é minha.

Logicamente ela não aceitou e eu não ganhei meus R$100,00 por ser "daltônico". Moral da história, nem a Dra. acredita no exame que aplicou em mim.

Esse Ishihara inventou um teste de caráter duvidável com bolinhas coloridas as quais, teoricamente, formam números, e a partir daí definiu quem é ou não daltônico. Não tive tempo de avaliar a abordagem científica desse teste, contudo, em minha visão leiga, tenho sérios questionamentos a respeito de sua efetividade. Das vezes que me mostraram os cartões nem os oftalmologistas conseguiam dizer bem se era número, letra ou outra figura.

De toda maneira não tem muita importância, de posse de minha mais nova moléstia visual, além da miopia e do astigmatismo, fui em busca de minha aposentadoria. Olhei no site do INSS, no Google e consultei algumas figuras (com larga experiência em burlar regras) na tentativa de conseguir aposentadoria precoce, porém para minha infelicidade daltonismo não induz P.N. Reza a lenda que para certos concursos públicos a disfunção pode dar até eliminação no exame médico (concurso pra guarda de trânsito, por certo).

Em resumo, depois de muito pensar as eventuais vantagens de ser daltônico, cheguei à feliz conclusão que as meninas adoram daltônicos, ou pelo menos não se queixam, o que por si já é meia vantagem.

Por fim, sugiro que você, leitor, visite o link abaixo:


Espero que também tenha dificuldade em ver cores, afinal é chato ser "daltônico" sozinho.



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Sunday, September 02, 2007

Mataram as coxinhas!

Calmamente tomando um scotch em um badalado evento na capital baiana, dia desses, comecei a reparar nos antigos salgadinhos, hoje finger food, que serviam para acompanhar a bebedeira. Com nomes em inglês, francês e japonês, os comensais se jogavam em cima de acepipes que em nada lembram as festas de antigamente. A bem da verdade, como diria uma figura ímpar, "antigamente eu era criança", mas não é preciso voltar muito tempo não. Há 10 anos, por exemplo, o que acompanhava qualquer recepção eram coxinhas, empadinhas e quibes (ou kibes, sei lá). Hoje, os antigos salgadinhos ditos "de massa" ocupam posição inferior em qualquer comilança metida à chique.

O discurso nutricional é de que as coxinhas (aqui representando toda sua classe) são cheias de gorduras trans e de baixo valor nutricional. Pois sim, até parece que o quiche de kani é light-super-diet. A título de informação, qualquer massa de empada, quiche ou coisa que o valha é pura manteiga+farinha.

Dentre os acepipes havia um mini-ravioli frio de pato, carrot de bacalhau (uma lâmina de cenoura enrolada sobre uma saladinha de bacalhau) e o resto eu não lembro afinal já devia ir pelo quarto whiskey... O bom de tudo é que os garçons fazem um marketing absurdo da finger food que até parece que vão lhe vender aquilo... A certa altura, aproveitando o salamaleque de um deles, puxei pro canto e disse:

- Companheiro, e as coxinhas?
- Senhor, infelizmente não trabalhamos com coxinhas.
- Como assim, mataram as coxinhas?!

Ele riu, achou que eu fosse apenas mais um convidado ébrio e desconversou. Não vou mentir que a questão terminou aí. A verdade é que ela ficou martelando em minha cabeça durante muito tempo até que finalmente comi um confit de não sei o quê (ah, convém dizer que esse povo mata o francês, tornando ridícula a cena de quererem soar descolados) e terminei sendo gastronomicamente cúmplice na matança desses ícones da "tradicional mesa da família brasileira".

Por fim não teve jeito. Não providenciaram minhas coxinhas, risóles ou empadinhas. Pedir brigadeiro ou cajuzinho seria motivo de escárnio entre os que, segundo famoso colunista potiguar, "são, querem ser ou não são". Daqui a algum tempo, teremos festas flashback cujo cardápio será exatamente coxinhas, empadinhas e kibes. Os mais brasileiros dos salgadinhos, os quais alimentaram gerações a despeito de qualquer furor médico, hoje são taxados de bregas, oleosos e engordativos. O quente, ou melhor hot, atualmente, é engordar em francês, afinal gordinho gaulês é mais chique que gordinho baiano.

Saturday, September 01, 2007

Hábitos dos pais

Não tenho certeza, mas alguma vertente da ciência psicológica deve explicar a relação que temos com os hábitos dos nossos pais. Não me refiro a aspectos de personalidade. Falo das atitudes do dia-a-dia, as corriqueiras, assim como lavar a louça de luva, limpar o ouvido com palito de dente ou simplesmente fazer suco de laranja com a fruta gelada. Ao meu ver, isso não é personalidade, porém causa uma influência enorme sobre as pessoas.

Fazendo coro ao que Elis disse uma vez "... ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais...", hoje de manhã vesti uma sunga assim que acordei. Preciso enfatizar esse "assim que acordei" para o bom do transcorrer do texto: levantei e caí dentro da sunga. Fui tão rápido, ágil e direto que nem Clodoaldo Silva, com seus milênios de sunga sobre todos nós, entraria na tanga, como diz vovó, antes que eu. Discutindo então comigo mesmo o papel da sunga na sociedade, fui levado à conclusão de que roupa de banho é para ser usada ou em piscina ou na praia. Não há escapatória. Beleza, mas quem disse que vou à praia hoje? Tirando o verão, quantas vezes ao ano ponho os pés na areia? Esse sábado, 01 de setembro de 2007, após já 2/3 de ano, acordei com muitas dúvidas e a culpa toda é da sunga. Por que danado eu fui vestir uma sunga em dia nublado aqui em Salvador?

Fiz força para percorrer as quilométricas cerâmicas que separam a cozinha do quarto em um apartamento de 56 m². De sunga e arrastando os pés, tomei um copo d'água, peguei um lápis e comecei a escrever a programação do último dia da semana:

  • oficina
  • academia
  • lavanderia
  • supermercado

Rapidamente,parei e pensei: - Rapaz, tô igual a meus pais.

Fazendo a matemática, tire aí uns 30 anos e alguns centrímetros de circunferência abdominal, estou vendo a mesma cena de muitos sábados quando ainda morava em Natal. Lembro bem das vezes que meu pai usava sunga e não ia prá praia. Podia fazer sol, chuva ou até remotamente nevar na capital potiguar, mas lá estava ele de sunga dentro de casa.

Elis estava certa, foi então o que pensei. É, mas e as listinhas? Imagine algo que me perseguiu a vida inteira foram as listas, anotações, bilhetes... Eca! Nunca gostei de anotar nada... Até morar só e começar a esquecer do que comer, beber, vestir, comprar e fazer na rua... Rendi-me às listinhas ridículas (mas úteis) as quais abominei durante toda minha existência. Essa é a nuance maternal nesse sábado nublado em Salvador, de sunga e anotando os afazeres numa listinha. Ah, e com um lápis de pau na mão. Conheço poucas pessoas que ainda os utilize, mas no momento lembro só de duas: eu e minha mãe.

Friday, August 31, 2007

Curso Bolsa de Valores - Natal/RN - 20,21 e 22/9

Amigos, abrindo espaço para propaganda aqui no Blog, gostaria de convidar meus leitores que se interessam por mercado financeiro, a freqüentarem um curso muito esclarecedor que acontecerá em Natal de 20 a 22/9. Para maiores informações, cliquem na foto abaixo ou visitem www.focusfinance.com.br .


Wednesday, August 22, 2007

Doce de Cajá

Entre meus muitos interesses está a cozinha. Além de mergulho, mercado financeiro, corrida e escrita, a gastronomia tem acompanhado minha vida há muito tempo. Ultimamente, para participar de um concurso agora nesse segundo semestre, andei pensando em uma receita de sobremesa e tive a idéia de fazer algo com cajá.

Optar por cajá tem seus motivos, afinal nos últimos anos tem sido cada vez comum mais a mistura do que é regional com a técnica tradicional resultando assim em inusitadas combinações como essa que me proponho agora.

A idéia é fazer uma tartelette (pequena torta) de cajá. A tartelette é uma receita originariamente francesa, entretanto dela só utilizarei a massa. O cajá entra como sendo o ingrediente regional a fim de oferecer ao prato um cárater mais fusion. Até agora, só tive tempo de fazer o doce de cajá (que será o preenchimento) junto com uma base provavelmente de créme patisier ou creme de leite ou açúcar e manteiga, não sei ainda. Em todo caso, segue a receita do doce o qual pode ser consumido puro (é diferente pois o cajá mesmo em um doce conserva um pouco da acidez e amargor), acompanhado de algo que lhe quebre essa doçura/acidez como creme de leite ou ainda, caso mais líquido, em forma de calda para acompanhar todo tipo de sobremesa.

A receita é simples e quase desnecessária. É mais ou menos a mesma idéia de qualquer doce de fruta.

400g de polpa de cajá
600g de açúcar
500ml de água
3 paus de canela

Derreta a polpa ainda congelada em uma panela ou tacho (eu usei uma panela para paella), adicione a água, o açúcar e, depois que tudo estiver líquido, adicione a canela em pau. Leve ao fogo baixo e espere até engrossar (pelo menos 1h).

Turismo - Poncho, conga e iPod (VEJA - 20/08/2007).

Turismo
Poncho, conga e iPod

Comida ruim, ônibus horríveis, trem da morte: jovens redescobrem os encantos do caminho para Machu Picchu







Na década de 70, era praticamente um rito de passagem: o jovem cabeludo punha a mochila nas costas e um livro cheio de bobagens de Eduardo Galeano na cabeça, cruzava a Bolívia e seguia até Machu Picchu, a magnífica cidade inca no topo dos Andes peruanos. Moviam-no uma visão idealizada da "nossa América Latina", popular na época, e o roteiro barato (sem falar em outros baratos nos quais o trajeto era pródigo). Sem um pingo de latino-americanidade na alma, mas igualmente cheia de sonhos juvenis, uma nova geração está retomando a trilha para Machu Picchu. São viajantes dispostos a passar frio, comer mal, não tomar banho e viver uma aventura inesquecível. Quem pode, claro, leva um iPod para amenizar as agruras do caminho. "Eu e meus amigos estamos na idade de perguntar o que queremos para o futuro. Passar por sufocos como esse ensina a lidar melhor com os problemas que possam aparecer", teoriza o estudante de administração Guilherme Gnipper, 23 anos, de São Paulo. "Pode parecer bobagem, mas vou porque quero me encontrar, me conhecer espiritualmente", diz a estudante de direito Amanda Magri, 20 anos, que, em nome da aventura, se dispôs a abdicar do ritual da escova e se matriculou em uma academia (uma semana antes, mas se matriculou).

Gnipper e Amanda fazem parte de um grupo de onze jovens que passaram o mês de julho trilhando a América do Sul – foram à internet trocar experiências, fizeram seu roteiro, arrumaram a bagagem (duas mochilas cada um) e, no Terminal Rodoviário da Barra Funda, em São Paulo, animadíssimos, tomaram o ônibus para Corumbá, em Mato Grosso do Sul, e de lá para Porto Quijarro, na Bolívia. Aí embarcaram nele mesmo – o "trem da morte", que continua na ativa, mais limpo e ajeitado, mas ainda quente, lotado de ambulantes e repleto de exotismos para jovens de classe média que em seu habitat nunca viram coisa parecida. "Toda parada entra gente vendendo comida", descreve Amanda. Ao todo, foram 132 horas de trem e ônibus, sem falar na trilha a pé de cinco dias, cada um apoiado em seu cajado – "Virou meu melhor amigo. Cheguei até a conversar com ele", conta o analista de sistemas Andre Savioli, 24 anos –, para alcançar Águas Calientes, o vilarejo vizinho a Machu Picchu. Uma caminhada difícil, certamente, mas até tranqüilizante depois da experiência rodoviária no último trecho peruano, que continua igualzinho como era nos anos 70, segundo relatos da antiga turma do poncho e conga. "Pegamos um ônibus velho, com piso de tábua, que andava espremido entre a montanha e o abismo. O motorista dirigia feito louco. Foi assustador", lembra a estudante de filosofia Maristela Aiko Mochizuki, 19. Em todas as paradas, o grupo optou por acomodações simples, com banheiro coletivo (Amanda levou lencinhos umedecidos, para quando o banho era impraticável). Comeu muito frango ("frito, pingando gordura") e gastou bolivianos ou soles nas mesmíssimas coisas que encantavam os mochileiros de outrora: flautas de madeira, ponchos, gorros e agasalhos de alpaca.

Cercada de montanhas e mistérios, Machu Picchu provavelmente foi construída no século XV. Escapou dos estragos da colonização devido à localização remota e foi descoberta pelo explorador americano Hiram Bingham em 1911. Atualmente, recebe mais de 800.000 turistas por ano e entrou na nova lista das sete maravilhas do mundo. No Brasil, o caminho das pedras continua a ser uma atração dirigida aos turistas com espírito de aventura ou tendência ao misticismo. Marisol Hanco, dona da agência de viagens peruana Amazing Adventures, que organiza as trilhas para Machu Picchu, atendeu nas férias de julho 250 turistas brasileiros, cinco vezes mais que em 2002. Quem não se anima a enfrentar a trilha a pé pode ir de trem, saindo de Cuzco. Existem três hotéis cinco-estrelas na região, um dentro do parque onde fica Machu Picchu e dois em Cuzco, a 79 quilômetros. Entre as amenidades, o Hotel Monastério oferece por 30 dólares "oxigênio extra" nos quartos para amenizar os efeitos do soroche, o mal-estar provocado pela altitude. O outro remédio, mastigar folhas de coca, custa praticamente nada. Mas tampouco tem algum efeito – como geração após geração vem descobrindo. Ah, sim, o grupo acompanhado por VEJA voltou de avião.

Blog irmão

Estreando como blogueiro está meu irmão, Esaú, no endereço http://ebmn.blogspot.com/ . Variando da poesia à crônica e andando pelos textos corriqueiros, seu primeiro post foi na última segunda, 20, certamente iniciando uma carreira que lhe trará não só dúvidas, reflexões e certezas, mas sobretudo alegrias em saber primeiramente externar pensamentos, idéias e sentimentos, mas também, por saber que haverá leitores na outra ponta que consumirão suas letras com bastante atenção.

A quem se interessar, por favor não hesite em visitar - http://ebmn.blogspot.com .

Por último, inicio aqui um painel à direita com "blogs amigos", dentre os quais, listo o seu como primeiro.

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Monday, August 20, 2007

XXXV Corrida Duque de Caxias

Exatamente há um ano atrás comecei a correr. De início, naturalmente, é difícil romper a falta de fôlego, o cansaço físico (sobretudo pernas) e a adaptação necessária ao começo de qualquer atividade física. Há, entretanto, diversos benefícios os quais não necessito nem descrever, afinal são de domínio público.

Em meu caso, porém, além dos resultados típicos, ontem pude participar da XXXV Corrida Duque de Caxias. 1200 corredores largaram às 08:00h para enfrentar 10km em um dia de pouco sol e uma chuvinha fina, mas chata. O campeão terminou em 29 minutos, já eu levei 1:02 para fazer o mesmo trajeto. Atingi dois objetivos: a) completar a prova; b) não ser o último colocado.

Em provas assim, é interessante ver a diversidade de pessoas. Havia crianças (possivelmente não aguentariam correr os 10km mas estavam lá ainda assim), idosos (os quais correriam bem mais que boa parte dos meus amigos) e obviamente os profissionais. Para eles, talvez 5% do número de atletas, o objetivo é vencer. Para nós, claro, a idéia é curtir e completar a prova. Também pudera, é impossível concorrer com alguém que tem 1,60m, 50kg e corre há anos. Muitos são o típico "chassi de grilo" - figuras sem o mínimo de gordura corporal ou musculatura. Nesse meio tempo, eu, comendo poeira e vendo esse povo "made in Sénégal" correndo lá longe, lembrei da definição do Menino Maluquinho:

"Era uma vez um menino maluquinho
Ele tinha o olho maior que a barriga
tinha fogo no rabo
tinha vento nos pés"

Viajei bem ao lembrar de Ziraldo, mas em que se deve pensar quando se corre e toma chuva?


Continuando a respeito do début em corridas de rua, seguem os treinamentos que utilizei:


Iniciante 5km
Avançado 5km
Iniciante 10km
Avançado 10km
Meia-maratona

Fiz o avançado 5km, o avançado 10km e estou começando o meia-maratona. O que não queira dizer que ao fim desse último poderei correr 21km, contudo lancei-me mais um desafio: completar a Meia Maratona da Bahia em 21/10. É o dobro do percurso de ontem e ainda faltam dois meses até lá. Veremos.

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