Wednesday, October 17, 2007

40 docinhos




Em um fim-de-semana desses, fui ao casamento de um casal amigo. Tudo como manda o ritual. A respeito da cerimônia e desdobramentos, nada a comentar. Já dos convidados, o único senão foi uma senhora que, após aberta a mesa dos doces, achou por bem levar 40 docinhos. Ora, ela nem devia poder comer tanto açúcar. Possivelmente por problemas de idade: triglicerídes, glicose e talvez até diabetes. Cárie não ataca chapa, logo essa preocupação não existia. Em todo caso fiquei com a cena na cabeça: a inofensiva velhinha (daquelas bem vovozinhas mesmo) carregando 40 docinhos.

O que leva alguém a avançar sobre uma mesa e insatisfeito com tal voracidade, carregar 40 docinhos? Gula? Falta de educação? Ajudar os netinhos a "garantir o seu"? Se restar dúvida de como comumente as pessoas avançam, sugiro assistir Coração Valente justo na parte em que Mel Gibson grita "SCOTLAND!!!". A foto de início desse post exemplifica bem.

Antes de tudo doce não é minha praia, logo ela não era uma ameaça ao meu intuito alimentar. Se ela voasse nas garrafas de uísque, aí sim eu tomaria partido, mas até então ela podia morrer com brigadeiros e olhos-de-sogra (se bem que atualmente tudo em bufê leva nome em francês, né?) que de minha parte eu não ofereceria resistência.

Analisando o fenômeno, já de volta a meu computador, passei a associar o mesmo comportamento de manada a diversas atitudes do dia-a-dia. É fácil perceber como a velhinha perdeu a racionalidade frente aos docinhos se traçarmos um paralelo com o alvoroço que é não só para embarcar, porém sobretudo para desembarcar de um avião. Basta o piloto tocar a pista e o avião começar a andar um pouquinho mais devagar que metade do vôo se inquieta ao ponto de a comissária ter que chamar a atenção de um ou outro. Por fim, assim que chega-se à ponte, 99% do avião fica em pé, mesmo sabendo que naquela posição ainda permanecerão por pelo menos cinco minutos.

E nos self-services? Alguém já reparou como as pessoas "avoam" sobre os pratos? Até parece que aquilo tudo é boca livre. No fim das contas, todo mundo se serve, pesa a comida e paga proporcional ao que levou. Esse último exemplo foi para contrastar com os bufês em geral. Basta algum cristão dizer "o bufê abriu" que meio mundo de mortas-fome (p.s. acabei de tirar a dúvida de hífens em - http://www.pucrs.br/manualred/hifen.php) avança feito um bando de hienas rumo à carniça. Discovery Channel perde feio.

Como é de costume, alguém pode dizer que as mortas-fome (em maior número mulheres, infelizmente, por isso o feminino) quando se digladiam pela coxa do peru (e haja porrada aí pois até onde sei as aves-não-transgênicas detêm apenas duas) estão fazendo "o prato dos meninos" ou "do marido". Pra cima de mim?

Por último, lembrei da história do Lobo Mau. O diálogo dele com a Vovó seria mais ou menos assim:

L - Vovó, pra quê essas mãos tão grandes?
V - É pra poder carregar mais doces, lobinho.
L - Ahhhh.

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