Tuesday, September 25, 2007

Os pratos mofam

A preguiça, a correria e muitas vezes a falta de interesse me impedem de ter uma gestão mais agressiva do meu apartamento. Pensando nisso, contratei uma faxineira. Até aí normal, afinal, como já disse em outros textos, a única atividade doméstica a qual eu me dedico com prazer é a cozinha. Usando um termo contemporâneo, diria que adotei a terceirização, ou seja, "contratei alguém com expertise* no tema a fim de dedicar-me somente ao meu core business**".
Pautado nas mais modernas técnicas de gestão de recursos humanos, implantei horário flexível, remuneração por produção e sistema de metas. Se minha casa fosse maior, arriscaria até um plano de carreira, afinal todo trabalhador merece ter perspectivas de crescimento na organização onde atua. Dia desses, inclusive, preocupado com sua empregabilidade, sugeri que buscasse algum curso profissionalizante e para minha surpresa minha escudeira está fazendo módulos de corte de cabelo, ou seja, logo ela me deixará e o processo de recrutamento e seleção será a nova faceta da Gestão de RH Doméstica.
Aproveitando uma promoção da Tok & Stok, comprei uns pratos de cerâmica, ainda enquanto mobiliava o apartamento. Os pratos são ótimos, porém bastante porosos. Eles são difíceis de secar mesmo com pano e facilmente acumulam água. Ao lavá-los é necessário, sempre, deixar no escorredor até que fiquem 100% secos e então guardar. Um cuidado que eu tenho, porém que muitas vezes não ocorre à minha faxineira.
Elas, verdade seja dita, ou fingem que não entendem ou não estão nem aí. Já disse inúmeras vezes que os pratos mofam se colocados molhados, mas pela quinta vez, mês passado, cozinhei e todos meus pratos estavam mofados. De novo. Após um dia de trabalho, comer um risoto fumegante em um prato recém des-mofado não é nada agradável. Baseado nisso, redigi poucas palavras em letras garrafais dizendo: Por favor, a partir de hoje toda a louça pode ficar no escorredor. Não guarde mais nada no armário.
Pronto. O tema da louça estava resolvido, entretanto, a pobre não entendeu o motivo da abordagem tão direta do tema. É verdade, pensei eu depois. Pelas minhas contas, era a quinta vez que eu percebia os pratos mofados, porém a primeira que me endereçava a ela a fim de tratar o problema.
Comunicação é sempre problema, mas pior ainda é comer em prato mofado.
* Expertise - Conhecimento técnico
** Core business - Negócio chave, ou seja, manter o foco.

Saturday, September 15, 2007

Férias XIV - Próximas férias

Já respondendo aos mais alvoroçados, irei adiantando três roteiros que já tenho planejados restando somente cumprí-los. Dois pela américa e um pela europa. Seguirão por ordem de prioridade com a qual cumprirei. Os dois primeiros serão em 2008 e o segundo em 2009 - quem viver, verá.

Roteiro I - Venezuela e Colômbia

É o que me falta conhecer de América do Sul. Obviamente não fui às Guianas e o Paraguai foi só de passagem. Irei ao Equador quando tiver muito afim de ir aos Galápagos, porém meu interesse geral em América do Sul terá sido medianamente atendido após visitar Colômbia e Venezuela. Ao fim das contas serão 24 dias (12 em cada) visitando as cidades (Caracas, Mérida e Maracaibo na Venezuela e Cartagena, Medellín e Bogotá na Colômbia) e dois arquipelágos no Caribe - Los Roques (VEN) e San Andrés (COL) cujo destaque maior são os pontos de mergulho. Com mergulhos o orçamento fica salgado em torno de US$1500 a parte terrestre (e aquática, rs), sem mergulho dá para reduzir em 40 ou 50%. Sim, mergulhar é bem salgado - com trocadilhos e tudo. Em média sairá a US$60/dia.

Roteiro II - América Central

Esse também ocorrerá em 2008, restando tirar trinta dias de férias, algumas folgas e de repente um feriado ou outro. Aqui, o tempo será crucial, afinal o roteiro comporta sul do México, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá. Ele está feito para um trajeto de quarenta dias, pode parecer muito, mas serão cinco países e uns 3000km a percorrer. O orçamento aqui, para ir sem stress, é de US$30/dia, porém querendo luxar e esbanjar, dá para gastar mais, claro, entretanto o objetivo é viajar bem e racionalizar despesas.

Roteiro III - Caminho de Santiago

Esse fatalmente ficará para 2009, porém será necessário ter pelo menos 30 dias livres e muita disposição para caminhar em média de 25-30km/dia. Não vou cair no bla-blá-blá de dizer que será um "caminho para redescobrir meu eu", porém não critico quem faça esse percurso com fins mais espirituais. Minha idéia é meramente terrena, porém desde já estou com muita vontade. Não é necessário fazer propriamente um roteiro afinal o caminho está traçado há séculos, entretanto é imperativo ter preparação psicológica e física para aguentar a pressão da caminhada de 800km. Se tivesse tempo, também faria em 2008, porém a CLT só nos brinda com 30 dias de férias por ano e necessito trabalhar para bancar tanta "viajança" - como muitos dizem.

Os termos financeiros aqui são diferentes já que irei gastar em euros, porém uns 1500 euros ou US$60/dia, serão suficientes para todas as despesas considerando que o principal é caminhar. O resto é galho fraco.

Concluindo, possivelmente irei fazê-los sozinho, como muitos que já fiz. Aparecendo interessados, é preferível do que encarar solo contudo se tiver que ir eu e Deus, iremos com certeza.

Friday, September 14, 2007

Férias XIII - Conclusão

Concluo essa série das minhas últimas férias, reforçando que o principal nisso tudo é ter cabeça fria e encarar a vida com bom humor. Minha vida pessoal, a cada vez que volto, é bastante impactada pelas experiências que tive e hoje minha cama queen size, meus vinhos e meu pequeno recanto em Salvador me parecem um tremendo luxo frente ao que já passei, por opção é verdade, nessas andanças por aí afora.

Sem querer voar demais nas idéias, imagino que viajar seja lançar-se em busca do novo, da aventura, do risco e de um auto-conhecimento para o qual, infelizmente, muitos não tem acesso e uns poucos, vontade. A verdade é que penso no dia que irei sair de mochila nas costas e não voltar tão cedo. Minha mãe piraria só de ouvir (ou ler) essa possibilidade, porém não deixo de considerar o dia em que o mundo será minha casa e a mochila minha vida (e aí já se vão sete anos com ela, com sua mini-bandeirinha do Rio Grande do Norte e os 13 remendos que já fiz). Pode parecer idiotice falar de uma mochila tão poeticamente, contudo através dela cresci enquanto pessoa, filho, profissional e sobretudo turista. Foi de mochila nas costas que minha cabeça começou a abrir-se, fui picado por essa doença que é viver pensando na próxima viagem e não pretendo parar - queria Deus me dar saúde e dinheiro para bancá-las. Sobre ele, o metal, concluo dizendo que dinheiro é necessário para viajar, mas não tanto. Conheçi pessoas que rodam o mundo com orçamentos diários menores do que comumente se gasta em uma refeição em Salvdor. É possível sim, só depende de cada um.

Prometo que irei relatar as próximas viagens da mesma maneira que descrevi essa que aqui se encerra. Recebi muitos comentários positivos pelos quais fico bastante satisfeito e agradecido. Em mais alguns meses irei cumprir a primeira da lista que relato no próximo post e novamente serão 10,15 ou quanto textos minha imaginação permitir. Aos que me acompanharam vai meu humildade muito obrigado. E aos que agora, após finalizados todos os textos, se dediquem a lê-los, agradeço mais uma vez e estou às ordens para qualquer dúvida.

Thursday, September 13, 2007

Férias XII - Machu Picchu

Um pouco emocionado foi como cheguei à Machu Picchu. No colegial foi quando começamos a planejar, eu e Juan Pablo, de chegarmos à Cidade Perdida dos Incas, e agora nove anos mais tarde, havia completado um sonho que vinha da adolescência. Fisicamente eu estava bem desgastado. Eu não tomava banho há dois dias, meu pé direito tinha uma bolha enorme (e uma bolhinha no pé tortura qualquer um), meus jeans estava preto, meu casaco preto estava branco e eu estava preto de tanto sol. Hoje, digitando esse post, sinto-me infinitamente mais limpo do que quando cheguei à Cidade Perdida, mas isso é o bom de tudo, como veremos abaixo.

Em regra, o viajante pode ir à Machu Picchu de trem saindo de Cusco ou pelas muitas trilhas que levam 4 ou 5 dias caminhando e acampando. Obviamente, é mais cômodo ir de trem, claro, é tanto que conheço pessoas que foram dessa maneira e adoraram, porém eu queria fazer o roots. Caminhar, caminhar, caminhar e por fim chegar ao meu destino. No total foram mais ou menos 70km em quatro dias de caminhada os quais, fatalmente, fazem o camarada reavaliar diversos valores.

O grande x da questão é caminhar e torcer para não ter bolhas. Eu, azaradamente, tive uma que me tirou a paciência, porém cansaço físico é administrável e seu limite, você verá, está muito mais além do que você imagina. Em regra, caminha-se de dia e acampa-se ao fim da tarde. Tínhamos uma estrutura de guerra: um cozinheiro com ajudante, um guia e um cavaleiro (que levava todas barracas, alimentos, equipamento de cozinha e mochilas). Acordávamos cedo, tipo seis da manhã, el gato (o apelido do cozinheiro) fazia milagre em cozinhar sopas, massas, cereais, frango, carne, tortilhas e tudo que podia se fazer em um fogão de uma boca a 3000m de altura carregando mantimentos para todos os dias sem reclamar nada. Caso algum dos leitores vá até essa trilha, sugiro que dê uma gorjeta (propina em espanhol) para o trabalho dessas pessoas que ganham um ordenado médio de US$100/mês.

De barriga cheia, folha de coca na boca e vento na cara, íamos trilha adentro conversando besteira e desgastando o corpo já bastante cansado. Meu grupo tinha um suíço com seus 50 anos, uma irlandesa, um cara do bangladesh (quem nasce lá é o quê?!) e eu com 20 e poucos anos e uma quatro americanos com seus 18 anos. Houve um choque de idade, sobretudo entre o coroa e os americanos, porém nada muito sério, afinal ele gritou e todos calaram a boca. Foi uma espécie de Big Brother nos Andes ver o povo batendo boca se deviam caminhar mais ou parar, fazer A ou B, enfim, decidir enquanto grupo. Preferi ficar fora disso tudo, sempre conversando com o cozinheiro e seu ajudante os quais me ensinaram muito sobre vida, quechua (o dialeto deles) e cozinha, é claro.

A trilha é cansativa sim, porém não é perigosa e nem entediante. Não há que ser atleta para chegar lá, porém um completo sedentário talvez tenha alguma dificuldade. Em todo caso, ela é uma chance de romper limites, sejam eles físicos, psicológicos ou culturais.

O retorno é em trem, afinal fazer o caminho de volta a pé é demais. Em média os valores saem em torno de US$250 incluindo tudo - ingressos, refeições, barracas e todos esses serviços. Não é caro, porém é preciso ter em mente essa despesa. Existem empresas mais baratas e caras, claro, dependendo do nível de serviço que oferecem. Eu não lembro a minha, mas ao redor da praça em Cusco existem várias. É bom, claro, seguir recomendações. É melhor ir em uma bem recomendada, pois como já deixei claro em quase tudo que escrevi, a noção de direitos nos Andes é bem rarefeita.

Wednesday, September 12, 2007

Férias XI - Cusco

Corri sério risco de ter que parar meu passeio em Arequipa, afinal mais uma greve impediria o trajeto na rodovia Arequipa-Cusco. Esses movimentos sociais, como é de conhecimento de todos, são bastante fortes nos países andinos e por vezes uma maneira de conseguir atenção para o que querem é atrapalhando os turistas - grande fonte de renda para tanto Bolívia quanto Peru. O que eles fazem, que fique claro, é incômodo, porém nunca perigoso. Quebra-quebra, bombas de gás, polícia de choque e afins só passam na televisão. A maioria dos manifestantes são campesinos pobres, doentes e sem dentes.

Novamente fiz um trajeto noturno em ônibus, porém me precavi com todo aparato de frio e as oito horas em ônibus pareceram uma noite bem dormida. A propósito, para quem quer economizar em viagens é super importante planejar viagens noturnas (considerando também a segurança) pois não se perde tempo viajando de dia (se esse for um problema) e economiza-se a diária de albergue (sim, imagino que isso sempre será um problema).

O bom de lá, assim como Arequipa são os restaurantes, bares e baladas - afinal possivelmente ou você virá de uma Bolívia carente disso ou de uma trilha meio punk - e muitas pessoas descansam antes ou depois de irem à Machu Picchu. Dessa forma, a cidade está sempre cheia e o turismo é sua principal fonte de renda.

Há ali, ao redor da praça (região mais movimentada da cidade), diversas igrejas, palácios e prédios de arquitetura europeizada (naõ sei bem definir aquele estilo), mas que rendem belas fotos e caminhadas. Minha situação ali foi meio similar a de muitos que por ali passavam - estar em trânsito, mas ainda assim a cidade é bela e agradável. Passei quatro dias ali, me diverti muitíssimo, comprei repelente, gel para higienização de mãos, aluguei mais um saco de dormir (caso vá fazer a trilha é importante um que proteja bem do frio), pílulas para purificar água, biscoito, chocolate, barrinha de cereal, miojo e todo um arsenal para adentrar o mato só saindo quatro dias depois na mística Machu Picchu.

Cusco para muitos é mero entroposto até o Santuário Inca, entretanto ela também tem muito a oferecer caso haja tempo e disposição.

Tuesday, September 11, 2007

Férias X - Arequipa

(Continuação da Série Férias, sugiro ler desde o "Férias I - Introdução").

A chegada à Arequipa foi reconfortante e tranqüila. O reconfortante foi primeiramente por saber que estaria em um dos pontos altos do turismo no Peru e, depois, por ter passado umas das experiências mais friorentas da minha vida até então: viagem noturna em ônibus pelos Andes.

Acreditei na propaganda que dizia "Coches con calefacción" (ônibus com aquecimento) e me dei muito mal. Saindo de Puno às 22h para uma viagem de 6h onde fatalmente iríamos enfrentar a congelante madrugada do altiplano peruano mas em um ônibus com aquecimento. Na teoria. Deixei meus casacos pesados no porão e subi com um abrigo leve. Após meia-noite, o frio baixou de vez e graças a Deus uma senhora vestida tipicamente (e muita gente anda assim sempre, como falei) cedeu parte do seu fétido porém aconchegante cobertor. Foi a minha salvação.

Mas falando em Arequipa, ela foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. O que isso quer dizer? A fim de exemplo, o Pelourinho, Ouro Preto, Brasília e Olinda, dentre outros, levam o mesmo título. Fazendo jus à reputação, ela tem um centro histórico bem organizado, limpo e seguro. Seria a minha sugestão de um Pelourinho no futuro.

Em seu entorno há vários passeios, sobretudo os de trekking, porém, como não ia morrer caminhando, deixei para fazê-los somente em Cusco, em caminho à Machu Picchu - objetivo central de todo esse desenrolar. A noite arequipeña tem uma invenção diabólica que são "drinks 3x10", ou seja, 3 drinks por 10 soles (3 doses de whiskey ou vodka ou cerveja ou cuba libre etc), pagando a ninharia de US$1/bebida. O turista faz um estrago imenso com míseros R$20,00. Além de bebida, seu centro também tem uma concentração enorme de bons restaurantes e a excelente preço (em dólar). Uma refeição em um dos mais reputados restaurantes locais, saiu por US$20. El Turko chama-se. Sugestão para uma próxima ida.

Wednesday, September 05, 2007

Por que 90% dos caminhoneiros são gaúchos?

Já percorri muitos quilômetros pelas BRs do país. A tarefa, para quem já dirigiu por algumas horas, é bastante monótona e repetitiva. Após reavaliar minha vida por cinco vezes, ainda faltavam 600km para concluir o trecho Salvador-Natal. Comecei, lentamente, a reparar nas placas dos caminhões. Naturalmente, e por rodarem o país inteiro, é comum ver placas de vários locais, porém atualmente isso nem representa tanto, afinal é bastante comum veículos registrados em um estado rodarem por outras partes.

A tese, a princípio, pode parecer descabida, contudo convém fazer uma análise mais aprofundada do fato. Por certo que não tenho dados estatísticos que suportem minha proposição. Obviamente, também, minha pesquisa não tem caráter científico algum, entretanto após seguir minha linha de raciocínio, ao menos 80% de quem passa por esse blog, poderá ver o fenômeno do transporte rodoviário nacional versus a naturalidade de seus motoristas assim como eu. Talvez eu devesse ter sido sociólogo ou trabalhar no Censo. De toda forma, vamos aos fatos.

O primeiro argumento, claro, é o número de caminhões com placas RS. Dia desses, aqui em Salvador, vi um caminhão com placa RS - Vacaria (município que nunca nem ouvi falar) e fora essa, obviamente, é bastante freqüente ver placas de Uruguaiana, Canoas, ou seja, municípios, em tese, mais populares ao grande público. Paradoxalmente, já refuto meu próprio argumento. Basta ver o número de carros com placa PR e a população do estado, aposto com quem quiser que o número de veículos licenciados no Paraná é incompatível com a população de lá*.

Em segundo lugar, basta reparar nos restaurantes ditos "de beira de estrada" (título bastante preconceituoso afinal todos estabelecimentos ou ficam à beira de ruas ou de estradas e em muitos lugares ambas palavras são sinônimos, mas não pretendo discutir o caráter lingüístico de "estrada"). Em grande parte, os paradores de "beira de estrada" são churrascarias, e caso o conceito de churrascaria seja flexível, bastaria excluir do mapa todos os estabelecimentos rodoviários com nomes que evoquem os pampas (aqui sem necessidade de exemplo) e os que sejam pintados em amarelo, verde e vermelho - fatalmente diminuiria a densidade demográfica de qualquer BR, em resumo, os restaurantes são feitos, possivelmente por gaúchos, porém, mais relevante ainda, eles são feitos para gaúchos, justamente os caminhoneiros.

Em terceiro lugar, quem quer que tenha pernoitado em algum posto de gasolina Brasil afora, poderá facilmente perceber que o item mais consumido em qualquer alvorada é o chimarrão. Não conheço outra população que consuma tanta erva-mate como os gaúchos (incluídos aí argentinos, paraguaios e uruguaios, também gaúchos) e seus representantes nas estradas não são diferentes. Basta visitar qualquer posto entre cinco e sete da manhã (espero que não seja necessário você vir a vivenciar isso, mas serve como exemplo também).

Em quarto lugar, e para concluir, ainda no ano passado, distraídamente tranquei uma Scania de placa RS - São Leolpoldo, percorri alguns metros e lá veio o caminhoneiro cortando luz atrás de mim, abri pra direita, fiz sinal de positivo, mas não deu outra:

- Vai tomar no c*, tchê!

E tchê, até onde sei, é linguajar de gaúcho.

* O Paraná tem um dos IPVAs mais baixos do Brasil.




----------------
Now playing: Dire Straits - Sultains Of Swing
via FoxyTunes

Couscous

O cuscuz desempenha um papel essencial na alimentação do povo brasileiro. Alimento de alto valor nutricional, baixo custo, fácil preparo e versatilidade, o fubá (ou fuba) de milho tem lugar em todas mesas brasileiras desde a colonização. E remontando ao tempo da colonização, o cuscuz (do árabe kuskus) possivelmente aportou em terras brasileiras após a ocupação da península ibérica pelos próprios árabes por volta do século XII ou XIII não lembro bem.

Ultimamente, talvez devido à globalização, as mesas mais requintadas têm visto a ascensão do couscous em sua acepção mais típica e afrancesada. Não é incomum encontrar bons restaurantes que acompanham seus pratos por essa massa amarelada, macia e bastante úmida - aí talvez a maior diferença entre o nosso cuscuz e o couscous deles. Já o acompanhei com cozidos (cordeiro e carne vermelha), polvo, peixe e frutos do mar em geral. Sabendo adequá-lo em apresentação e sabor, o couscous pode substituir a altura a parte "massa" de qualquer refeição. Obviamente continua valendo a regra de não se misturar massas: arroz x macarrão, batata x couscous, etc.

Na última segunda, preparei uma porção de couscous utilizando 400ml de água, 1 caldo de legumes e meia colher de azeite. De preparo simples, é só ferver todos os líquidos, retirar do fogo, adicionar a massa e esperar inchar (mais ou menos cinco minutos). O modo de preparo que está na caixa (Divella 500g a R$5,90) não fala em usar nenhum caldo (carne, legumes, etc), somente água e sal e ainda adiciona manteiga. Eu, de minha parte, substituí a água e sal por caldo de legumes e não coloquei manteiga. A parte refoguei umas 200g de camarão temperados com sal e pimenta branca e um pouquinho de cheiro verde. Em dez minutos, consegui um prato leve, rápido, saudável, barato e muito saboroso. Pena que não tirei foto pois a apresentação do couscous após ser desenformado com os camarões refogados ficou muito bacana.

Quando tiver mais quórum para minha cozinha, irei preparar um cozido francês chamado boeuf bourguingon ( http://www.olivieranquier.com.br/receitas/receita.php?id=26 )para acompanhá-lo de couscous. Em maio último levei três horas para preparar um e servi com pão. O preparo é demorado mas vale a pena. Com o couscous, também em francês, será uma combinação perfeita.



----------------
Now playing: Dire Straits - Romeo And Juliet
via FoxyTunes

Monday, September 03, 2007

Daltonismo

Semana passada, ouvi a oftalmologista dizer que eu era daltônico. Já passei por isso inúmeras vezes, sobretudo nos exames médicos anuais. Depois dessa constatação, todos perguntam se eu consigo ver os sinais de trânsito, como tirei habilitação, etc. Em grande parte gente mala, é importante dizer.

Como sempre, eu disse em alto e bom som que não era daltônico, que conseguia separar as cores mas o tal Teste de Ishihara me acusa de ter isso. Não gostei de ser daltônico, a verdade é essa. E para provar minha saúde visual fiz uma aposta com a doutora:

- Se sou daltônico, vamos fazer o seguinte. A senhora bota uma nota de cem e eu uma de dez, a que eu acertar é minha.

Logicamente ela não aceitou e eu não ganhei meus R$100,00 por ser "daltônico". Moral da história, nem a Dra. acredita no exame que aplicou em mim.

Esse Ishihara inventou um teste de caráter duvidável com bolinhas coloridas as quais, teoricamente, formam números, e a partir daí definiu quem é ou não daltônico. Não tive tempo de avaliar a abordagem científica desse teste, contudo, em minha visão leiga, tenho sérios questionamentos a respeito de sua efetividade. Das vezes que me mostraram os cartões nem os oftalmologistas conseguiam dizer bem se era número, letra ou outra figura.

De toda maneira não tem muita importância, de posse de minha mais nova moléstia visual, além da miopia e do astigmatismo, fui em busca de minha aposentadoria. Olhei no site do INSS, no Google e consultei algumas figuras (com larga experiência em burlar regras) na tentativa de conseguir aposentadoria precoce, porém para minha infelicidade daltonismo não induz P.N. Reza a lenda que para certos concursos públicos a disfunção pode dar até eliminação no exame médico (concurso pra guarda de trânsito, por certo).

Em resumo, depois de muito pensar as eventuais vantagens de ser daltônico, cheguei à feliz conclusão que as meninas adoram daltônicos, ou pelo menos não se queixam, o que por si já é meia vantagem.

Por fim, sugiro que você, leitor, visite o link abaixo:


Espero que também tenha dificuldade em ver cores, afinal é chato ser "daltônico" sozinho.



----------------
Now playing: Dire Straits - What It Is
via FoxyTunes

Sunday, September 02, 2007

Mataram as coxinhas!

Calmamente tomando um scotch em um badalado evento na capital baiana, dia desses, comecei a reparar nos antigos salgadinhos, hoje finger food, que serviam para acompanhar a bebedeira. Com nomes em inglês, francês e japonês, os comensais se jogavam em cima de acepipes que em nada lembram as festas de antigamente. A bem da verdade, como diria uma figura ímpar, "antigamente eu era criança", mas não é preciso voltar muito tempo não. Há 10 anos, por exemplo, o que acompanhava qualquer recepção eram coxinhas, empadinhas e quibes (ou kibes, sei lá). Hoje, os antigos salgadinhos ditos "de massa" ocupam posição inferior em qualquer comilança metida à chique.

O discurso nutricional é de que as coxinhas (aqui representando toda sua classe) são cheias de gorduras trans e de baixo valor nutricional. Pois sim, até parece que o quiche de kani é light-super-diet. A título de informação, qualquer massa de empada, quiche ou coisa que o valha é pura manteiga+farinha.

Dentre os acepipes havia um mini-ravioli frio de pato, carrot de bacalhau (uma lâmina de cenoura enrolada sobre uma saladinha de bacalhau) e o resto eu não lembro afinal já devia ir pelo quarto whiskey... O bom de tudo é que os garçons fazem um marketing absurdo da finger food que até parece que vão lhe vender aquilo... A certa altura, aproveitando o salamaleque de um deles, puxei pro canto e disse:

- Companheiro, e as coxinhas?
- Senhor, infelizmente não trabalhamos com coxinhas.
- Como assim, mataram as coxinhas?!

Ele riu, achou que eu fosse apenas mais um convidado ébrio e desconversou. Não vou mentir que a questão terminou aí. A verdade é que ela ficou martelando em minha cabeça durante muito tempo até que finalmente comi um confit de não sei o quê (ah, convém dizer que esse povo mata o francês, tornando ridícula a cena de quererem soar descolados) e terminei sendo gastronomicamente cúmplice na matança desses ícones da "tradicional mesa da família brasileira".

Por fim não teve jeito. Não providenciaram minhas coxinhas, risóles ou empadinhas. Pedir brigadeiro ou cajuzinho seria motivo de escárnio entre os que, segundo famoso colunista potiguar, "são, querem ser ou não são". Daqui a algum tempo, teremos festas flashback cujo cardápio será exatamente coxinhas, empadinhas e kibes. Os mais brasileiros dos salgadinhos, os quais alimentaram gerações a despeito de qualquer furor médico, hoje são taxados de bregas, oleosos e engordativos. O quente, ou melhor hot, atualmente, é engordar em francês, afinal gordinho gaulês é mais chique que gordinho baiano.

Saturday, September 01, 2007

Hábitos dos pais

Não tenho certeza, mas alguma vertente da ciência psicológica deve explicar a relação que temos com os hábitos dos nossos pais. Não me refiro a aspectos de personalidade. Falo das atitudes do dia-a-dia, as corriqueiras, assim como lavar a louça de luva, limpar o ouvido com palito de dente ou simplesmente fazer suco de laranja com a fruta gelada. Ao meu ver, isso não é personalidade, porém causa uma influência enorme sobre as pessoas.

Fazendo coro ao que Elis disse uma vez "... ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais...", hoje de manhã vesti uma sunga assim que acordei. Preciso enfatizar esse "assim que acordei" para o bom do transcorrer do texto: levantei e caí dentro da sunga. Fui tão rápido, ágil e direto que nem Clodoaldo Silva, com seus milênios de sunga sobre todos nós, entraria na tanga, como diz vovó, antes que eu. Discutindo então comigo mesmo o papel da sunga na sociedade, fui levado à conclusão de que roupa de banho é para ser usada ou em piscina ou na praia. Não há escapatória. Beleza, mas quem disse que vou à praia hoje? Tirando o verão, quantas vezes ao ano ponho os pés na areia? Esse sábado, 01 de setembro de 2007, após já 2/3 de ano, acordei com muitas dúvidas e a culpa toda é da sunga. Por que danado eu fui vestir uma sunga em dia nublado aqui em Salvador?

Fiz força para percorrer as quilométricas cerâmicas que separam a cozinha do quarto em um apartamento de 56 m². De sunga e arrastando os pés, tomei um copo d'água, peguei um lápis e comecei a escrever a programação do último dia da semana:

  • oficina
  • academia
  • lavanderia
  • supermercado

Rapidamente,parei e pensei: - Rapaz, tô igual a meus pais.

Fazendo a matemática, tire aí uns 30 anos e alguns centrímetros de circunferência abdominal, estou vendo a mesma cena de muitos sábados quando ainda morava em Natal. Lembro bem das vezes que meu pai usava sunga e não ia prá praia. Podia fazer sol, chuva ou até remotamente nevar na capital potiguar, mas lá estava ele de sunga dentro de casa.

Elis estava certa, foi então o que pensei. É, mas e as listinhas? Imagine algo que me perseguiu a vida inteira foram as listas, anotações, bilhetes... Eca! Nunca gostei de anotar nada... Até morar só e começar a esquecer do que comer, beber, vestir, comprar e fazer na rua... Rendi-me às listinhas ridículas (mas úteis) as quais abominei durante toda minha existência. Essa é a nuance maternal nesse sábado nublado em Salvador, de sunga e anotando os afazeres numa listinha. Ah, e com um lápis de pau na mão. Conheço poucas pessoas que ainda os utilize, mas no momento lembro só de duas: eu e minha mãe.