Turismo
Poncho, conga e iPod
Comida ruim, ônibus horríveis, trem da morte: jovens redescobrem os encantos do caminho para Machu Picchu
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Na década de 70, era praticamente um rito de passagem: o jovem cabeludo punha a mochila nas costas e um livro cheio de bobagens de Eduardo Galeano na cabeça, cruzava a Bolívia e seguia até Machu Picchu, a magnífica cidade inca no topo dos Andes peruanos. Moviam-no uma visão idealizada da "nossa América Latina", popular na época, e o roteiro barato (sem falar em outros baratos nos quais o trajeto era pródigo). Sem um pingo de latino-americanidade na alma, mas igualmente cheia de sonhos juvenis, uma nova geração está retomando a trilha para Machu Picchu. São viajantes dispostos a passar frio, comer mal, não tomar banho e viver uma aventura inesquecível. Quem pode, claro, leva um iPod para amenizar as agruras do caminho. "Eu e meus amigos estamos na idade de perguntar o que queremos para o futuro. Passar por sufocos como esse ensina a lidar melhor com os problemas que possam aparecer", teoriza o estudante de administração Guilherme Gnipper, 23 anos, de São Paulo. "Pode parecer bobagem, mas vou porque quero me encontrar, me conhecer espiritualmente", diz a estudante de direito Amanda Magri, 20 anos, que, em nome da aventura, se dispôs a abdicar do ritual da escova e se matriculou em uma academia (uma semana antes, mas se matriculou).
Gnipper e Amanda fazem parte de um grupo de onze jovens que passaram o mês de julho trilhando a América do Sul – foram à internet trocar experiências, fizeram seu roteiro, arrumaram a bagagem (duas mochilas cada um) e, no Terminal Rodoviário da Barra Funda, em São Paulo, animadíssimos, tomaram o ônibus para Corumbá, em Mato Grosso do Sul, e de lá para Porto Quijarro, na Bolívia. Aí embarcaram nele mesmo – o "trem da morte", que continua na ativa, mais limpo e ajeitado, mas ainda quente, lotado de ambulantes e repleto de exotismos para jovens de classe média que em seu habitat nunca viram coisa parecida. "Toda parada entra gente vendendo comida", descreve Amanda. Ao todo, foram 132 horas de trem e ônibus, sem falar na trilha a pé de cinco dias, cada um apoiado em seu cajado – "Virou meu melhor amigo. Cheguei até a conversar com ele", conta o analista de sistemas Andre Savioli, 24 anos –, para alcançar Águas Calientes, o vilarejo vizinho a Machu Picchu. Uma caminhada difícil, certamente, mas até tranqüilizante depois da experiência rodoviária no último trecho peruano, que continua igualzinho como era nos anos 70, segundo relatos da antiga turma do poncho e conga. "Pegamos um ônibus velho, com piso de tábua, que andava espremido entre a montanha e o abismo. O motorista dirigia feito louco. Foi assustador", lembra a estudante de filosofia Maristela Aiko Mochizuki, 19. Em todas as paradas, o grupo optou por acomodações simples, com banheiro coletivo (Amanda levou lencinhos umedecidos, para quando o banho era impraticável). Comeu muito frango ("frito, pingando gordura") e gastou bolivianos ou soles nas mesmíssimas coisas que encantavam os mochileiros de outrora: flautas de madeira, ponchos, gorros e agasalhos de alpaca.
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