Já percorri muitos quilômetros pelas BRs do país. A tarefa, para quem já dirigiu por algumas horas, é bastante monótona e repetitiva. Após reavaliar minha vida por cinco vezes, ainda faltavam 600km para concluir o trecho Salvador-Natal. Comecei, lentamente, a reparar nas placas dos caminhões. Naturalmente, e por rodarem o país inteiro, é comum ver placas de vários locais, porém atualmente isso nem representa tanto, afinal é bastante comum veículos registrados em um estado rodarem por outras partes.
A tese, a princípio, pode parecer descabida, contudo convém fazer uma análise mais aprofundada do fato. Por certo que não tenho dados estatísticos que suportem minha proposição. Obviamente, também, minha pesquisa não tem caráter científico algum, entretanto após seguir minha linha de raciocínio, ao menos 80% de quem passa por esse blog, poderá ver o fenômeno do transporte rodoviário nacional versus a naturalidade de seus motoristas assim como eu. Talvez eu devesse ter sido sociólogo ou trabalhar no Censo. De toda forma, vamos aos fatos.
O primeiro argumento, claro, é o número de caminhões com placas RS. Dia desses, aqui em Salvador, vi um caminhão com placa RS - Vacaria (município que nunca nem ouvi falar) e fora essa, obviamente, é bastante freqüente ver placas de Uruguaiana, Canoas, ou seja, municípios, em tese, mais populares ao grande público. Paradoxalmente, já refuto meu próprio argumento. Basta ver o número de carros com placa PR e a população do estado, aposto com quem quiser que o número de veículos licenciados no Paraná é incompatível com a população de lá*.
Em segundo lugar, basta reparar nos restaurantes ditos "de beira de estrada" (título bastante preconceituoso afinal todos estabelecimentos ou ficam à beira de ruas ou de estradas e em muitos lugares ambas palavras são sinônimos, mas não pretendo discutir o caráter lingüístico de "estrada"). Em grande parte, os paradores de "beira de estrada" são churrascarias, e caso o conceito de churrascaria seja flexível, bastaria excluir do mapa todos os estabelecimentos rodoviários com nomes que evoquem os pampas (aqui sem necessidade de exemplo) e os que sejam pintados em amarelo, verde e vermelho - fatalmente diminuiria a densidade demográfica de qualquer BR, em resumo, os restaurantes são feitos, possivelmente por gaúchos, porém, mais relevante ainda, eles são feitos para gaúchos, justamente os caminhoneiros.
Em terceiro lugar, quem quer que tenha pernoitado em algum posto de gasolina Brasil afora, poderá facilmente perceber que o item mais consumido em qualquer alvorada é o chimarrão. Não conheço outra população que consuma tanta erva-mate como os gaúchos (incluídos aí argentinos, paraguaios e uruguaios, também gaúchos) e seus representantes nas estradas não são diferentes. Basta visitar qualquer posto entre cinco e sete da manhã (espero que não seja necessário você vir a vivenciar isso, mas serve como exemplo também).
Em quarto lugar, e para concluir, ainda no ano passado, distraídamente tranquei uma Scania de placa RS - São Leolpoldo, percorri alguns metros e lá veio o caminhoneiro cortando luz atrás de mim, abri pra direita, fiz sinal de positivo, mas não deu outra:
- Vai tomar no c*, tchê!
E tchê, até onde sei, é linguajar de gaúcho.
* O Paraná tem um dos IPVAs mais baixos do Brasil.
----------------
Now playing: Dire Straits - Sultains Of Swing
via FoxyTunes
A tese, a princípio, pode parecer descabida, contudo convém fazer uma análise mais aprofundada do fato. Por certo que não tenho dados estatísticos que suportem minha proposição. Obviamente, também, minha pesquisa não tem caráter científico algum, entretanto após seguir minha linha de raciocínio, ao menos 80% de quem passa por esse blog, poderá ver o fenômeno do transporte rodoviário nacional versus a naturalidade de seus motoristas assim como eu. Talvez eu devesse ter sido sociólogo ou trabalhar no Censo. De toda forma, vamos aos fatos.
O primeiro argumento, claro, é o número de caminhões com placas RS. Dia desses, aqui em Salvador, vi um caminhão com placa RS - Vacaria (município que nunca nem ouvi falar) e fora essa, obviamente, é bastante freqüente ver placas de Uruguaiana, Canoas, ou seja, municípios, em tese, mais populares ao grande público. Paradoxalmente, já refuto meu próprio argumento. Basta ver o número de carros com placa PR e a população do estado, aposto com quem quiser que o número de veículos licenciados no Paraná é incompatível com a população de lá*.
Em segundo lugar, basta reparar nos restaurantes ditos "de beira de estrada" (título bastante preconceituoso afinal todos estabelecimentos ou ficam à beira de ruas ou de estradas e em muitos lugares ambas palavras são sinônimos, mas não pretendo discutir o caráter lingüístico de "estrada"). Em grande parte, os paradores de "beira de estrada" são churrascarias, e caso o conceito de churrascaria seja flexível, bastaria excluir do mapa todos os estabelecimentos rodoviários com nomes que evoquem os pampas (aqui sem necessidade de exemplo) e os que sejam pintados em amarelo, verde e vermelho - fatalmente diminuiria a densidade demográfica de qualquer BR, em resumo, os restaurantes são feitos, possivelmente por gaúchos, porém, mais relevante ainda, eles são feitos para gaúchos, justamente os caminhoneiros.
Em terceiro lugar, quem quer que tenha pernoitado em algum posto de gasolina Brasil afora, poderá facilmente perceber que o item mais consumido em qualquer alvorada é o chimarrão. Não conheço outra população que consuma tanta erva-mate como os gaúchos (incluídos aí argentinos, paraguaios e uruguaios, também gaúchos) e seus representantes nas estradas não são diferentes. Basta visitar qualquer posto entre cinco e sete da manhã (espero que não seja necessário você vir a vivenciar isso, mas serve como exemplo também).
Em quarto lugar, e para concluir, ainda no ano passado, distraídamente tranquei uma Scania de placa RS - São Leolpoldo, percorri alguns metros e lá veio o caminhoneiro cortando luz atrás de mim, abri pra direita, fiz sinal de positivo, mas não deu outra:
- Vai tomar no c*, tchê!
E tchê, até onde sei, é linguajar de gaúcho.
* O Paraná tem um dos IPVAs mais baixos do Brasil.
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