Tuesday, October 30, 2007

Dois anos de Bahia II

Continuando, essa chegada à Bahia foi o término de um período que eu imaginava ter acabado quando saí da faculdade: o de estar sob a "proteção" constante de alguém. Assim que me formei, passei quase dois meses na Argentina, entrei pro Banco e logo vim para a Petrobras. Eu não havia até então entendido a dimensão na qual me inseriria enquanto adulto, justamente por ter saído de casa em maio de 2005 e automaticamente ingressado em um grupo incrível que foi a turma com a qual entrei na Companhia e comecei propriamente minha carreira profissional. Até a 1a noite no meu apartamento em Salvador, onde entrei com um colchão, uma vela, uma garrafa d'água e toda minha mudança (resumia-se a duas malas), minha vida tinha sido totalmente protegida: durante vinte e poucos anos pelos pais aos quais Deus encarregou-se de dar a hercúlea tarefa de me fazer gente e depois, mesmo que momentaneamente e guardada a proporção do que isso pode significar, por uma turma de Curso de Formação na qual todos (ou ao menos a maior parte) eram de fora e o máximo que sabiam de seus destinos é que deixaram para trás muitas coisas.


A realidade do que a independência significaria começou a descortinar-se na medida em que tive que assumir tarefas que até então passavam ao largo da minha percepcão faculdade-estágio-academia-vida noturna. Pode parecer uma espécie de manha, mas eu nunca imaginei como seria difícil lidar com uma casa e ser realmente independente, o que até então eu só vinha vivenciando em parte já que por seis meses morei em hotel, não tive chefe, aborrecimentos, encheção de saco, ou seja, ainda vivia o fator novidade de ser "gente grande". A partir de então, há exatos dois anos, foi quando eu passei a perceber que o buraco era mais embaixo.


Ao longo desse tempo, uma antiga lei da física provou-se verdade pra mim: a de que se um corpo for deixado em repouso a menos que uma força externa atue, ele permanecerá assim indefinidamente. Lembro a lei, mas de cor eu não sei o número. Com 33% de chance de acertar ou foi a 1a, 2a ou 3a. Enfim, os copos, tênis, roupas, livros, chave de carro, eles simplesmente adormeciam onde eu tinha deixado e amanheciam guardados, pendurados, lavados, limpos, enxutos e prontos para uso. Minha percepção míope não atentava para o fato de que alguém (ou Mamãe ou Raimunda, nossa lendária companheira) havia estrategicamente passado por ali e organizado o que eu não tinha feito, possivelmente ao chegar de madrugada de algum canto. Essas pessoas não iriam mais estar no meu apartamento em Salvador.

Os copos, pratos, talheres e toda imundície-bagunça-alvoroço que eu fizesse estariam de volta aqui em casa como se testemunhassem uma vida inteira de gente indo atrás do que você poderia facilmente ter feito e nunca fez. As nadadeiras ainda salgadas quinze dias em cima do sofá eram a prova cabal de que eu não tinha a mínima competência para gerenciar um apartamento de 50m2, quiçá uma vida. Esses pequenos detalhes da rotina ensinam e desgatam bastante porém eles são uma das facetas, talvez a ponta do iceberg.

(CONTINUARÁ)

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