Wednesday, October 17, 2007

Festa do Padroeiro de Maracaípe

Pela 5a vez em dois anos percorri o trecho Salvador-Natal (ou o oposto) por carro. Muitos dizem que é loucura e não tiro suas razões. Enfrentar 1150km não é para qualquer dia tampouco qualquer um. Entretanto, como tudo na vida, há vantagens as quais, dependendo do ponto de vista, amenizam a trajetória de em média 15h.
Conhece-se um Brasil distinto das grandes cidades. Lugares remotos como Piaçabuçú (AL), São José da Coroa Grande (PE) e Mamanguape (PB). Saindo de Salvador às 11h da manhã, cruzava a PE-060 às 21h e o cansaço começou a chegar. Olhei em volta, só havia canavial e , não dá pra negar, o camarada sente um medinho de qualquer coisa. Sei lá o quê. Ainda faltavam, mais ou menos, 350km até Natal e seguindo no mesmo ritmo aportaria na Capital Potiguar por volta de uma da matina. Era de fato o que eu queria, chegar em casa o mais cedo possível, contudo o destino me reservaria uma experiência diferente.
Parei em um posto de gasolina (que felizmente apareceu antes de uma "pousada" qualquer) para perguntar a um cidadão muito despreocupado, como boa parte dos frentistas de interior, qual era a parada mais próxima. Qual não foi minha surpresa ao saber que estava a meros 20km da paradisíaca Porto de Galinhas. Pronto, ali descansaria.
Lá chegando e após a busca por uma hospedagem, soube por fontes seguras que o movimento da noite seria em Maracaípe (conhecido pico do surfe) em sua pública festa do padroeiro. Justiça seja feita, não me animei muito, é verdade, mas já escaldado de outras festas de rua, públicas, povões e afins, coloquei uma camiseta furada, uma bermuda até mais ou menos e vinte conto no bolso. Subi no mototáxi e após quinze minutos de "pó-pó-pó" eu estava a beira do apocalipse.
Não quero ser preconceituoso, que fique claro, porém é necessário uma dose cavalar de mente aberta, álcool e empolgação para se soltar em festas assim. Após 11h de direção, fato era, eu juntava mais ou menos todos os requisitos auto-impostos para o lazer a baixo custo em meio à população nativa de um point do surfe nacional. Além disso, tomar algumas cervejas (e o dinheiro também não tinha como dar para mais que isso) ouvindo um cover de Aviões do Forró era seguramente melhor que ter dormido em alguma hospedagem de BR (entedida em seu sentido lato sensu, ou seja, motel) ou seguir dirigindo mais 350km até Natal.
O público, em sua maioria, era estranho à minha convivência. Novamente não quero soar preconceituoso, afinal foi bastante divertido, porém meu dia-a-dia não me brinda com a convivência entre pessoas tão animadas e soltas. Os nativos, no geral, são assim soltos e felizes à sua maneira.
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[Gostaria, aqui, de fazer uma pequena intervenção e analisar meu próprio texto. Comecei a escrevê-lo há uma semana e só hoje, 17/10, retomei a redação. Ri muito ao ler o último parágrafo o qual muito se assemelha À Carta de Pero Vaz de Caminha escrita assim que os portugueses aportaram aqui (A Carta, Pero Vaz de Caminha - http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/carta.html). A maneira como descrevi os locais soou, ao meus olhos, preconceituosa e elitista, entretanto não cabe alterar].
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Voltando à festa, restavam R$2,00 no bolso que seriam a condução de retorno. Subi numa kombi velha e voltei para minha realidade menos crua. No caminho comecei a pensar no que ainda me falta ocorrer. Certamente, na próxima Festa do Padreiro de Maracaípe, em outubro/08, estarei menos preocupado com o ambiente e mais imerso na multidão. Por fim, a experiência valeu: as cervejas, as risadas e o texto.

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