Tuesday, October 30, 2007

Dois anos de Bahia I



Esse apanhado já foi conversado e discutido em muitas esferas: mesa de bar, trabalho, msn, mas só agora sento para tentar fazer um relato de dois anos de Bahia. A verdade é que essa idéia surgiu ainda no ano passado, porém com a correria do fim-de-ano terminei sem escrever e passei 2007 inteiro esperando chegar esse momento para enfim abordar talvez os dois anos mais intensos da minha vida.


Naturalmente tenho vivido intensamente desde que saí do segundo grau, imagino. O período de faculdade e o após ele foram cheios de novidades, mas esse foi mais peculiar, e suponho que você concordará comigo caso encare a maratona da leitura. É claro que outras épocas de minha vida também tem seus pontos altos, porém me manterei fiel aos últimos vinte e quatro meses.


Para começar, cheguei aqui de pára-quedas. Talvez exagerando um pouco foi mais ou menos com uma mão na frente outra atrás. Não era tão mal assim, afinal vinha empregado e com todas frescuras do mundo, porém no aspecto pessoal, além de Thiago, que vinha comigo de Macaé, as pessoas que conhecia na Bahia se resumiam a colegas de trabalho (alguns dos quais tornaram-se também amigos próximos).


Nunca esqueço quando cheguei aqui em 31/10/05, véspera do meu aniversário, e me espantei com a distância até o aeroporto. Mal sabia que iria ir e voltar essa Avenida Paralela pelo menos umas vinte vezes para ir à Natal (pelas minhas contas deve ter sido isso mais ou menos). O dia seguinte, 01/11, seria o que até hoje imagino ter sido um dos piores da minha vida: além de ser meu aniversário, lembrei muito da minha família, dos amigos que deixei em Macaé, de um "amor" (complicado dizer como evoluiria, mas ainda assim especial) deixado no Rio e o medo de tudo que estava por vir. Eu havia trocado de cidade como quem muda de roupa, explicarei mais abaixo.

São nessas horas que começam a aparecer os torturantes "e se...". Confesso que eles ocuparam minha mente por um tempo, acho que pelo menos os seis primeiros meses foram cheios de "e se..." e até onde percebi eles não contribuiram com muita coisa. Fato era, hoje eu percebo, em uma questão de dias eu havia dado um rumo totalmente diferente à minha vida e não sabia aonde isso iria me levar, se eu iria gostar,me adaptar, ficar aqui para sempre, em resumo, eu não sabia de nada do meu presente e futuro imediato. Pode parecer exagero porém até hoje imagino que as repercussões dessa minha decisão impactaram toda minha vida: trabalho, família, amigos. É mais ou menos a tese da Teoria do Caos, ou seja, um "sim, eu concordo" mudou possivelmente o trabalho que eu desempenho, a pessoa com a qual vou me casar, um eventual acidente que eu poderia vir a ter. É viagem demais começar a conjecturar a esse respeito, mas espero ter sido claro no valor que acho que esse sim pode ter tido.

A verdade é que a situação era essa pelo fato de haver aceitado uma transferência para cá e sobre ela convém abordar mais profundamente. Cheguei de Buenos Aires na véspera do dia em que concordaria vir pra cá. Após um papo de cinco minutos eu havia acabado de decidir que moraria na Bahia. É hilário, mas o que me passou pela cabeça foram três coisas: acarajé, capoeira e Pelourinho. Juro que em momento algum pensei em vida, rotina. Nada. Quando ouvi a mulher sugerir vir para Salvador (após seis meses de RJ), concordei como se ela tivesse dito "vamos tomar um café" e a tal da ficha não veio cair até essa terça-feira, 01/11 - meu aniversário, hospedado em um hotel mixuruca (os melhores estavam lotados) no antro da prostituição baiana. Hoje acho graça, mas não nego que um leve desespero começava a tomar conta de mim.


A sabedoria popular, e é sempre oportuno recorrer à ela, diz que não há desespero que dure pra sempre, ou algo do tipo. Foi nisso que me peguei há exatos dois anos e saí para tomar uma cerveja em comemoração ao meu aniversário. Em respeito a quem me levou para uma véspera de finados em Salvador, não vou dizer que foi uma merda, mas foi bem ruim. Poderia ter sido pior caso tivesse ficado assistindo Casseta & Planeta em uma terça-feira de aniversário. Em parte aí começou-se a formar dentro de mim um conceito que evoluiria ao longo do tempo que é o de que as coisas podem sempre piorar. De certa forma está relacionado à Lei de Murphy, mas fato é que hoje, após tantas situações trágicas e engraçadas, penso que o motivo de uma reclamação hoje pode ser o de uma alegria amanhã e vice-versa. O que temos de fato é hoje, o amanhã é mera especulação.


Lembrei que escrevi uma carta para Flocos, no meio de 2004 (inclusive está abaixo, basta procurar por "Flocos" em seu navegador) a qual dentre outros conselhos dizia assim " Saiba que o crescimento vem acompanhado de dor. Se vier a senti-la, lembre que eu, a torcida do América e mais um monte de gente estaremos com você. Sempre.". Ironicamente, eu iria me pegar lendo a carta que eu tinha escrito para um amigo como forma de entender tudo o que se passava na minha vida.


(CONTINUARÁ)

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