Tuesday, October 16, 2007

Pintura de apartamento

Tenho um mau hábito de inventar novidades e abraçá-las como metas a alcançar. Reputo como sendo um mau hábito, afinal não raras vezes me arrependo de ter pensado demais e quero desistir, mas uma espécie de auto-orgulho me inibe de cair fora do que nem deveria ter sido iniciado. Se eu fosse reler esse parágrafo, certamente não iria entender muito bem o que quis dizer, porém com um exemplo todos conseguem compreender.
Após uma extensa negociação, mudei de apartamento aqui em Salvador. Não foi nada grandioso, afinal saí do nono para o décimo andar. A mudança, no entanto, ocasionou uma série de pequenos acertos e reparos em ambos apartamentos - o vago e o novo. Até aí tudo bem, afinal não é a primeira vez que faço e desfaço malas, mas, no geral, dessa última meu tempo foi bastante tomado e, momentaneamente, deixei de lado algumas atividade cotidianas como o blog, por exemplo.
Dentre um dos reparos necessários estava a pintura do novo apartamento. A idéia inicial seria pintar tudo, porém fui diminuindo até que restringi-me somente ao quarto. O pintor, um camarada da mais alta polidez e simpatia, furou quatro vezes. Essas evasivas mexeram comigo e então tive a infeliz idéia de eu mesmo pintar a nova morada. Repito: I-N-F-E-L-I-Z. Melhor teria sido se nesse momento de loucura, eu estivesse dormindo e a atividade de pintura fosse um mero pesadelo.
De idéia na cabeça, comprei todo o material e no último domingo comecei o que seria um lazer mas terminou como um parto. Faço aqui uma pequena interrupção: tenho uma tese de que tudo no começo é bom e, como não deveria ser diferente, minha missão iniciou-se às 8h como ares de grande acontecimento e encerrou-se, já pelas 17h de um domingo de sol em Salvador, com uma tremenda sensação de alívio.
De começo é uma beleza: o cara começa devagarzinho, dá uma pincelada aqui, se mela um pedaço, em resumo acha tudo bacana. Esse é o momento novidade. Lá pra uma hora de pintura, o cidadão já se acha o Salvador Dalí. A prática adquirida em sessenta minutos de pintura, o habilita até a ganhar um extra nas férias e ele começa a se perguntar "por que eu nunca pintei antes?". Terminada a primeira demão (camada) de tinta, já dói tudo: braço, perna, costas, cabeça. Se for destro, o mané vai tentar pintar com a esquerda pra aliviar e é aí que o caldo começa a entornar. Muitos podem associar isso ao casamento, mas deixo as analogias por conta de cada leitor.
Após duas horas de tinta, o imbecil vai querer parar por algum motivo. Seja café, cigarro ou banheiro, qualquer auto-desculpa o tirará do seu flagelo. Comigo não foi diferente. A visão de todo, algo que a filosofia há muito vem discutindo, não chegou nem a sua metade. Se eu já achava que tinha chegado ao inferno, faltava pintar o teto... Ah, o teto. Por que danado a gente não mora em casa sem teto? Podia ser aquela da música que não tinha teto não tinha nada! Meu domingo iria piorar exponencialmente ao começar levantar o pincel em direção ao céu...
Pintar o teto, e aí peço uma pequena abstração de sua parte, é ficar feito um otário com um cabo de vassoura na mão esfregando um rolo pra lá e pra cá pelo menos umas setecentas vezes. Se for usuário de lente de contato, como eu, dê um jeito de acostumar-se com os pingos ou use óculos de proteção (eu tinha mas nem lembrei disso). No geral, dá pra cansar, isso eu garanto. E lembremos que aí conclui-se a primeira demão. Falta a segunda.
Pós-almoço, é hora de pedir pra morrer. Primeiro já se fez a merda de iniciar uma pintura que por qualquer cem conto alguém faria, depois porque você ainda não chegou a lugar nenhum. O máximo que há, e haja boa vontade aí, é uma camada esbranquiçada sobre a antes suja parede, mas nada de fato alcançado.
O foda-se é ligado nesse momento. Tudo que se quer é atingir algo minimamente bonito e cômodo. Essa é a hora do erro, da culpa e do arrependimento. Se estiver acompanhado, guarde para si todas as queixas, afinal o menos necessário no momento é desmotivar quem está ali para contribuir.
O resultado final ficou bom, confesso. Agora não sei se minha percepção foi influenciada pelo esforço ou se de fato pintamos bem. A sensação de se alcançar algo difícil é ótima, mas o desenrolar é miserável. Fica aqui uma recomendação: por favor só invente novidades fáceis de serem levadas até o fim. Para quem quiser um exemplo de algo a não fazer é pintar seu próprio apartamento. Se ainda tiver dúvidas, lembre-se de mim ao pintar o teto.

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