Desde pequeno fui acostumado a receber visitas. Tanto as que passam pouco tempo, quanto as que ficam mais que o necessário. Lá em casa, por exemplo, de alguns parentes a amigo de amigo ou primo-da-rapariga-do-cabo já passou de tudo. Hoje, em minha própria morada, ao longo de pouco mais de um ano, já recebi mais ou menos umas trinta figuras: amigos de trabalho, de vida, de infância, de Natal, de fora e parentes. Em geral, considero receber pessoas como um privilégio e devo isso à educação hospitaleira que tive.
Ultimamente, cadastrei-me em uma página bastante interessante chamada www.couchsurfing.com . Em tradução livre, seria algo como “surfe de sofá”, projeto cuja idéia é ligar pessoas que querem lugar para se hospedar com aqueles que gentilmente cedem suas casas. Na verdade, entrei para me enquadrar na 1ª categoria, contudo acabei caindo na 2ª. O único problema é receber ´estranhos´ em sua casa: desconhecidos em história, hábitos e cultura.
Contrapondo o ´ser anfitrião´ nos dois modelos acima, passei esses últimos dias pensando na confiança e ao buscar definição no Aurélio (“...segurança íntima de procedimento...”), percebi que se fosse raciocinar em bases técnicas, não aceitaria receber ninguém nessa modalidade. Entretanto, já me vali da confiança em diversas ocasiões: 2000km de carona na Argentina e em caminhão-pipa no interior da Paraíba, táxis fiado em Salvador e, recentemente, me ocorreu de não ter como pagar a conta de um jantar (Visa fora do ar) e pendurá-la para o dia seguinte. Em todos casos fui agraciado com a confiança de alguém.
Qual energia é passada naqueles segundos (ou até menos) que nos levam a ir além do comum? Como é possível ter essa “segurança íntima de procedimento” com alguém o qual jamais se viu antes? Olhares.
Eles servem para tudo e atingem todos, desde a simples paquera ao maior olhar de intimidação. Basta ver alguns minutos de Animal Planet e confirmar a tese. É oportuno dizer, contudo, que odeio clichê e jamais escreveria algo para sustentar a tese de que “os olhos são o espelho da alma”.
Sobre minhas atuais visitas – quatro chilenas que irão visitar da Bahia ao Rio – uma delas me procurou através do portal e na dúvida típica de receber ou não as viajantes, lembrei de quantas vezes fui também tomado por estranho mas ainda assim recebido como conhecido. Elas chegaram na última segunda à meia-noite e embora acordando o anfitrião, a percepção dos segundos que precedem o julgamento foi positiva. Confirmou-se mais uma vez a tese do julgamento dos olhos.
Em tempos onde a confiança se perde em disputas, mentiras e traições, confiar em alguém, mesmo que minimamente, a partir de um encontro de olhos pode ser um meio caminho entre coragem e loucura. A experiência de confiar em olhos tem sido positiva. No geral, a dúvida que tive no começo da semana foi resolvida: confio em pessoas. Pelo menos ainda.
Obs: Abordarei o tema visitas versus intimidade ainda essa semana. É interessante perceber como a formalidade inicial é quebrada em questão de horas.
1 comment:
Morro de sao paulo http://www.salvadorbahiaguide.com/morrodesaopaulo/index.htm
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