De tempos em tempos nossa produção cultural nos brinda com obras de caráter bastante duvidoso. É desnecessário citar exemplos, porém o último hit que estoura em todas caixas de som (dos postos de gasolinas às nights ensacadinhas) é o tema da produção de Tropa de Elite, para quem não lembra é a música do "Parapapapapapapapapa".
Após assistir o filme por duas vezes fiquei curioso em procurar a letra e finalmente me deparei com o bastante sugestivo título do "Rap das Armas". Sua estrutura, caso queira ler, encontra-se no link a seguir - Rap das Armas. Sugiro que dê uma rápida olhada só para entender a que me proponho.
Não sou especialista em armas, mas claramente se vê, a partir do título, que a intenção do seu autor é intimidar, além de logicamente incitar e propagar a cultura da violência. Arrisco dizer, inclusive, que esse tipo de produção é financiado pelo próprio tráfico em uma relação promíscua e ilegal. Ironicamente, a prática do mecenato foi de Roma aos morros. O pior de tudo, porém, não é nem a produção ou financiamento desse tipo de "cultura" e sim, seu consumo. Esses marginais travestidos de artistas, incitam a violência em um claro atentado à ordem democrática e o estado de coisas que fazem do Brasil que construímos um país onde há respeito às diferenças. Nós, enquanto classe A-B-C, rimos e achamos gostoso descer até o chão enquanto o camarada propaga que "lá vem aquele de AK-47". Em tempo, essa é a arma mais utilizada por forças terroristas como os Taleban, os rebeldes da Chechênia e atuais insurgentes no Iraque. Para falar somente de um exemplo, sob pena de ser repetitivo.
É urgente a construção de um critério mínimo de consumo da cultura dos morros. Um lado da moeda é calça da Gang, popozudas e essa maneira lasciva de dançar. De outro, em muito relacionado também à cultura funk, há um claro ataque ao poder constituído ao mesmo tempo em que se romantiza um elemento cuja forma de divertir é propagar artefatos de destruição massiva e desproporcional ao ambiente urbano. A condescendência com a qual tratamos o que desce de lá será uma conta bastante alta de pagar, se já não o é, ao que passo em que se acha natural ouvir a palavra granada enquanto se paquera a gatinha ao lado.
Já tornou-se lugar comum a pujança do poderio militar da indústria do crime no Brasil. Isso é fato, o que critico e questiono é que nós enquanto reféns desse enredo social, consumamos uma cultura que se propõe unicamente a exaltar uma máquina capaz de nos fazer perder o sono e até a vida, em muitos casos. O problema da criminalidade vai mais além de uma canção, eu sei. Entretanto, de tanta tolerância, fico aqui pensando onde iremos parar nessa roda-viva de romantização da criminalidade, seja ela descortinada ou velada, como esses pancadões o são.
Ultimamente, ou pelo menos até onde lembre, todo verão lançam-se músicas que vão bombar. Ao ouvir essa exaltação ao poder paralelo, confesso que me dá uma saudade danada do É o Tchan, Calypso e músicas de rebolado. Lixo por lixo, é preferível o que se dedica somente a entreter.
1 comment:
Esse rap é de 95.. fez pouco sucesso na época e tá estourado agora por causa do filme...
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