Acordei em mais uma manhã gélida em La Paz. A mais fria até então: -5C. Era 6:30 da manhã, eu estava ressacado, La Paz nublada. Havia comprado uma passagem para ir a Cusco (me venderam como direta, mas ao chegar no albergue descobri que vendem todas como diretas porém no fim o trecho verdadeiro é La Paz - Copacabana - Puno - Cusco). Existem dias, acredito assim, que não deveriam nem existir. E bem que aquela seqüência de manhã tarde e noite poderia ter sido evitada em minha existência.
Começou quando não me permitiram sair do albergue por conta de uma "dívida" de 4 bolivianos (o mesmo que a fortuna de R$1,00). Esse é mais um caso onde viajar lhe abre os horizontes e aqui explico: quem nesse país chamado Brasil gosta de moeda? Ninguém que eu conheça e assim também sou. Na minha conta havia uma garrafa de água de 4 bolivianos, eu só tinha uma nota de cinqüenta, o cara não tinha troco, ninguém trocava 50 e eu seguia ali na frente dele. Discuti com a figura e saí sem pagar os 4 bolivianos. Não entendi porque ele se sentia tão insultado com minha nota de cinqüenta. Welcome to Bolivia. Não há dinheiro trocado no país... Ahhhh, caso consiga umas notinhas de 5, 10 e moedas, então, guarde com força. A propósito, cruze os dedos ao ir num caixa eletrônico: a esmagadora maioria só tem nota de 100 ou 50. É hilário, juro que me senti naquele jogo de baralho em que o otário fica sempre com o mico. A diferença é que o primata da questão representava 1/3 de um salário mínimo local.
Saindo do albergue congelante, fui a rodoviária a fim de chegar ao eldorado inca - Machu Picchu. Lá, houve o segundo quiproquó do dia. Para resumir, comprei uma passagem na companhia A que me "revendeu" para a B, a qual mandou para a C e logo para D e E. O destino La Paz-Cusco teria que encerrar-se no meio por conta de uma greve (mais comum que mendigo em Salvador) e a senhora índia não queria me reembolsar. O valor não seria muito - o equivalente aí a R$10,00. Não houve jeito, não haveria restituição nenhuma. Acudi pela polícia (instituição não tão confiável), muito contentemente saí com meu dinheirinho e um terrível "gosto de sangue"* na boca...
Cheguei na empresa E e disse que havia pago pelo roteiro completo (sem reembolso). Tudo bem, colou pensei. Na entrada do ônibus, Evo Morales Motorista me interpelou:
M - motorista
D - Daniel
M - Tu pasaje?
D - No me dieron.
M - Pero hay que tener una para viajar.
D - Sí, claro, pero Carmen no me dío nada.
M - ¿Quién es Carmen?
D - La señora de Transcontinente.
M - Bueno, no vas a viajar sin tiquete y hay que bajarse.
D - No me bajo y sí voy viajar!!!!!!
Nesse momento, Evo levantou-se, descolou o bucho do volante e veio em direção a esse herói que vos brinda a história. Então, Dandanzinho gritou:
D - ARRIBA!!!!!!!!!!
Pronto, eu havia acabado de chamar um motorista de ônibus prá porrada... GRAÇAS AO BOM JESUS, apareceu a turma do deixa-disso, a tal Carmen surgiu, colocou panos mornos e eu entrei gritando pro motorista "loco, loco, loco". Minha virilidade foi bater em Marte, mas depois fiquei pensando no risco que corri. E se o cara chegasse perto mesmo? Eu ia encarar? Ia correr? E se fosse preso? É, de cabeça quente ninguém pensa nisso. Sorte minha que tudo (até então) resolveu-se.
Eram 08:30 da manhã... Estava em jejum, com frio, gripado e brigando... O dia podia ter encerrado aí, mas não...
No caminho, comprei metade do staff do ônibus com biscoitos. Era cookie pra cá, cookie pra lá. E no fim a tal Carmen já me chamava de Dani... Tudo não foi à toa... Eu ia precisar dela para me colocar no segundo ônibus pouco antes da fronteira. Como conseguiria ir para uma 6a empresa de ônibus e cruzar a fronteira sem bilhete? Era culpa de Carmen, mas ela podia me abandonar e eu ter que gastar o tão suado reembolso para comprar outra passagem. Estava decidido a levar melhor sobre ela (que também não era flor que se cheirasse), o motorista, o sistema de transporte público da Bolívia, o cara que quis me cobrar R$1,00 como se fosse uma fortuna e todas pessoas que tentaram me enrolar em uma semana de andes.
Chegando em Copacabana, o ônibus "directo" parou por duas horas, almoçamos e nos colocaram na 6a empresa de ônibus. Minha pouca paciência já tinha ficado na primeira barraca de frango assado da rodoviária e quando o peruano que nos levaria a Cusco disse que o máximo que conseguiria chegar seria Puno eu comecei a me irritar... Argumentei que tinha pago o roteiro completo (mentira dos infernos, eu tinha sido reembolsado), que era um absurdo, que eles dependiam do turismo e blá blá blá... Modéstia a parte eu consigo ganhar algumas pessoas no papo e foi assim com essa figura... Ele me colocaria na 7a empresa de ônibus sem ter que pagar nada, ótimo.
O resto transcorreu tranqüilo, incluindo a terrível pizza vegetariana (o que viria ser minha única refeição do dia), à tarde comprei um passeiozinho pelo Lago Titicaca - o lago navegável mais alto do mundo. Super interessante.
No fim das contas, o peruano só conseguiu me mandar para Arequipa (cidade objeto do próximo post). Para mim, a partir da metade do caminho tudo seria lucro, afinal só paguei 50%. O trajeto La Paz - Cusco converteu-se em La Paz - Arequipa e supostas 12h de viagem viraram 19.
Minutos antes de sair da rodoviária de Puno, vi uma propaganda de um albergue em Arequipa e um endereço de msn. Entrei no msn, fiz minha reserva e a de um brother inglês que ia também. Pronto, tudo estava "garantido". A aventura, essa sim, desde o início esteve garantida.
*Gosto de sangue - sinônimo para sede de vingança.
----------------
Now playing: Mombojó - O mais vendido
via FoxyTunes
Começou quando não me permitiram sair do albergue por conta de uma "dívida" de 4 bolivianos (o mesmo que a fortuna de R$1,00). Esse é mais um caso onde viajar lhe abre os horizontes e aqui explico: quem nesse país chamado Brasil gosta de moeda? Ninguém que eu conheça e assim também sou. Na minha conta havia uma garrafa de água de 4 bolivianos, eu só tinha uma nota de cinqüenta, o cara não tinha troco, ninguém trocava 50 e eu seguia ali na frente dele. Discuti com a figura e saí sem pagar os 4 bolivianos. Não entendi porque ele se sentia tão insultado com minha nota de cinqüenta. Welcome to Bolivia. Não há dinheiro trocado no país... Ahhhh, caso consiga umas notinhas de 5, 10 e moedas, então, guarde com força. A propósito, cruze os dedos ao ir num caixa eletrônico: a esmagadora maioria só tem nota de 100 ou 50. É hilário, juro que me senti naquele jogo de baralho em que o otário fica sempre com o mico. A diferença é que o primata da questão representava 1/3 de um salário mínimo local.
Saindo do albergue congelante, fui a rodoviária a fim de chegar ao eldorado inca - Machu Picchu. Lá, houve o segundo quiproquó do dia. Para resumir, comprei uma passagem na companhia A que me "revendeu" para a B, a qual mandou para a C e logo para D e E. O destino La Paz-Cusco teria que encerrar-se no meio por conta de uma greve (mais comum que mendigo em Salvador) e a senhora índia não queria me reembolsar. O valor não seria muito - o equivalente aí a R$10,00. Não houve jeito, não haveria restituição nenhuma. Acudi pela polícia (instituição não tão confiável), muito contentemente saí com meu dinheirinho e um terrível "gosto de sangue"* na boca...
Cheguei na empresa E e disse que havia pago pelo roteiro completo (sem reembolso). Tudo bem, colou pensei. Na entrada do ônibus, Evo Morales Motorista me interpelou:
M - motorista
D - Daniel
M - Tu pasaje?
D - No me dieron.
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D - Sí, claro, pero Carmen no me dío nada.
M - ¿Quién es Carmen?
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M - Bueno, no vas a viajar sin tiquete y hay que bajarse.
D - No me bajo y sí voy viajar!!!!!!
Nesse momento, Evo levantou-se, descolou o bucho do volante e veio em direção a esse herói que vos brinda a história. Então, Dandanzinho gritou:
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Eram 08:30 da manhã... Estava em jejum, com frio, gripado e brigando... O dia podia ter encerrado aí, mas não...
No caminho, comprei metade do staff do ônibus com biscoitos. Era cookie pra cá, cookie pra lá. E no fim a tal Carmen já me chamava de Dani... Tudo não foi à toa... Eu ia precisar dela para me colocar no segundo ônibus pouco antes da fronteira. Como conseguiria ir para uma 6a empresa de ônibus e cruzar a fronteira sem bilhete? Era culpa de Carmen, mas ela podia me abandonar e eu ter que gastar o tão suado reembolso para comprar outra passagem. Estava decidido a levar melhor sobre ela (que também não era flor que se cheirasse), o motorista, o sistema de transporte público da Bolívia, o cara que quis me cobrar R$1,00 como se fosse uma fortuna e todas pessoas que tentaram me enrolar em uma semana de andes.
Chegando em Copacabana, o ônibus "directo" parou por duas horas, almoçamos e nos colocaram na 6a empresa de ônibus. Minha pouca paciência já tinha ficado na primeira barraca de frango assado da rodoviária e quando o peruano que nos levaria a Cusco disse que o máximo que conseguiria chegar seria Puno eu comecei a me irritar... Argumentei que tinha pago o roteiro completo (mentira dos infernos, eu tinha sido reembolsado), que era um absurdo, que eles dependiam do turismo e blá blá blá... Modéstia a parte eu consigo ganhar algumas pessoas no papo e foi assim com essa figura... Ele me colocaria na 7a empresa de ônibus sem ter que pagar nada, ótimo.
O resto transcorreu tranqüilo, incluindo a terrível pizza vegetariana (o que viria ser minha única refeição do dia), à tarde comprei um passeiozinho pelo Lago Titicaca - o lago navegável mais alto do mundo. Super interessante.
No fim das contas, o peruano só conseguiu me mandar para Arequipa (cidade objeto do próximo post). Para mim, a partir da metade do caminho tudo seria lucro, afinal só paguei 50%. O trajeto La Paz - Cusco converteu-se em La Paz - Arequipa e supostas 12h de viagem viraram 19.
Minutos antes de sair da rodoviária de Puno, vi uma propaganda de um albergue em Arequipa e um endereço de msn. Entrei no msn, fiz minha reserva e a de um brother inglês que ia também. Pronto, tudo estava "garantido". A aventura, essa sim, desde o início esteve garantida.
*Gosto de sangue - sinônimo para sede de vingança.
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