Monday, December 17, 2007

Preços

Com a chegada de 2008, certas tarefas que deixei pendentes ao longo desse ano tornam-se urgentes. Necessariamente não deveriam ser levadas a cabo até 31/12, porém, por uma questão moral, comecei a reparar os objetos quebrados, furados, descolados, queimados, colocar quadros na parede e desembalar metade da suposta "decoração" que comprei para vir pro novo (porém no mesmo edifício) apartamento. Nesse meio estavam um par de sandálias descoladas (um pé só) e um jeans com bolso furado. Cabe dizer, em um parêntese, que passei 2007 inteiro querendo usar esses artigos porém sempre eles estiveram encostados.

Hoje, entretanto, seria o dia de resolver as pendências e levei tudo para dois pequenos negócios no Shopping Salvador. Pequenos, porém com preços de 5a avenida, foi o que pensei quando a jovem balconista teve o desplante de me cobrar R$13,00 para costurar o bolso da calça e R$18,00 (+R$8,00 da mão-de-obra e R$25,00 caso eu fosse pintar) pelo conserto da sandália. O mais impressionante foi ela dizer que só me custaria R$51,00 ter uma sandália "novinha"(a mesma que há um ano custou R$75,00). Ou eu ganho pouco ou a ninfeta gasta demasiado (justo ela a qual muito provavelmente ganha salário comercial). Senti vontade de dizer algumas verdades, porém engolei a seco, juntei minhas trouxinhas e fui embora pensativo.

Imagino, momentaneamente, o que você pensa sobre o desfecho do enredo ao chegar a esse ponto. Caso tenha lido meia dúzia do que já escrevi aqui, obvia e previsivelmente, saberá que eu mesmo resolvi consertar tudo: me furei duas vezes com a agulha (e prometi deixar mamãe costurar o bolso) e, pela primeira vez em dezenas, não colei os dedos usando Super Bonder (e após isso, ainda com 3/4 do vidrinho, posso colar o que quiser!). Para quem encarou pintar o apartamento, colar a sandália seria fichinha e de fato foi. Fiquei R$64,00 menos pobre e muito satisfeito em ter contribuído para o fim dos preços abusivos.

Além disso, acabo de minutar um email pra o Dr. Henrique Meirelles. Imagino que esteja em curso um processo inflacionário no mercado de serviços (de baixa qualifacação, frise-se) ou então meu nível de renda não me permite terceirizar o antes doméstico, das duas uma. Alguém pode evocar, após ouvir o Café com o Presidente, que o Brasil está crescendo e as pessoas com mais dinheiro. Talvez, entretanto duvido muito que o nível (excesso) de liquidez internacional e a taxa de juros americana influenciem a sola da minha sandália modernosa. Para mim isso leva outra nome: roubalheira.

Friday, December 07, 2007

Sinal da cruz

Hoje quando entrei no avião vi três pessoas fazendo sinal da cruz. Na saída até a aeromoça fez. Engrossando as fileiras, lá no trabalho alguns fazem isso também, logo que chegam. Nada contra a religião, óbvio, mas acredito que em momentos de maior violência, talvez, essa simbologia toma corpo entre nós.
Fugindo um pouco disso, vive-se fazendo sinal da cruz pra tudo. Refiro-me a nós como povo, até porque eu nem esse hábito tenho. Entretanto, do Presidente da República aos surfistas na praia da Pipa, todo mundo faz sinal da cruz por qualquer motivo. Há goleiros, inclusive, que fazem um para cada pau da trave como se algo sobrenatural fosse evitar a alegria da torcida adversária. É engraçado isso. Se perguntados, boa parte não tem idéia precisa do motivo de fazerem isso. Eles não se confessam, comem hóstia ou vão à missa.
Acredito que vivemos cercados de cacoetes sendo um grande expoente desses o Presidente Lula. Expandindo um pouco esse conceito, ele tem cacoetes verbais, em grande parte, para sustentar seus frágeis posicionamentos. Ele, até onde entendo esse hábito, opta, assim como boa parte da população brasileira, por essa e outras simbologias como forma de compartilhamento de responsabilidades. Algo como se dissesse, que se o errado ocorresse, ele seria culpado só em parte.
Os cacoetes, assim como os clichês, são recursos simples e acessíveis a todos. É mais fácil, por exemplo, recorrer ao sinal da cruz ao invés de agarrar as bolas como se com isso o goleiro passasse a mensagem de que a tarefa dele é compartilhada com o plano espiritual. Assim como é cômodo para uma figura pública, da mesma forma que o goleiro, "tirar o seu da reta". Os símbolos como os sinais da cruz e cacoetes em geral estão ligados diretamente a isso, acredito. É uma maneira de eximir-se de culpa ou responsabilide por eventos futuros.
Não entendo por completo a mística das simbologias muito menos o motivo de tantos cacoetes, mas na dúvida é bom bater na madeira três vezes.

Sunday, December 02, 2007

Baianas como business II

A princípio esse tema só renderia um texto, porém devido aos comentários pró e contra meu ponto de vista, pretendo aprofundar um pouco a análise a fim de provar, dentre outras teses, a de que você pode estar perdendo tempo fazendo faculdade.
Primeiramente o tema baianas foi utilizado pelo "folclore" que há em sua existência e por ser um exemplo que realmente vi em Salvador. Obviamente não há que ser baiana para ter um nível de renda superior a boa parte da população. O mesmo raciocínio aplica-se a qualquer tipo de vendedor de rua desde o que vende frutas, carregador de celular ou comida. A fim de se enquadrar em um médio-alto estrato de renda basta que o indivíduo tenha um retorno diário de R$200,00 (os quais em 26 dias renderiam R$5.200,00 líqüidos/mês). Isso posto, qualquer atividade comercial que renda esse spread torna-se tão ou mais rentável que o caminho clássico de estudar e arrumar um bom emprego.
Naturalmente não venho contestar o estudo, porém nem sempre é estudando que se ganha um bom dinheiro, prova disso são esses exemplos que dei. Há outros, é claro, porém não se cria um Sílvio Santos por semana, logo é preferível nem citá-los por completo. Talvez devido a um passado de instabilidade econômica, desenvolvemos um apego exarcebado a títulos e posições. Se considerarmos a existência de algum charme em trabalhar empacotado, o mesmo talvez não exista para quem tenha uma barraquinha de açaí. Entretanto, no fim das contas ambos estão economicamente em paridade.
De cara, no entanto, essa análise esconde dois fatores que envolvem ter um negócio próprio ainda que informal. O primeiro é o investimento inicial algo que dependendo da necessidade pode variar de R$500,00 até milhares de reais e o outro é a incerteza que se tem em lançar-se num empreendimento. Aqui, porém, cabe uma pequena digressão. Se o cidadão, partamos desse pressuposto, não tem educação formal e não atende aos requisitos que elenquei no primeiro artigo (línguas, estudo e informática, por exemplo), o que ele tem propriamente a perder? O mercado hoje não absorve quem sai das universidades e, em muitos casos, se absorver, lhe oferece um sub-emprego graduado.
Não é à toa a quantidade de dentistas, arquitetos e fisioterapeutas (todos obviamente com educação superior) que atuam em áreas em nada relacionadas às suas formações, para citar uns poucos. Muitos deles, inclusive, partindo para inicialmente negócios informais que após bastante esforço e mérito tornam-se pequenos e médios empreendimentos gerando diversos empregos. A própria baiana, fruto do primeiro exemplo, tinha dois ajudantes em sua barraca.
Em um país em que engenheiros e advogados recém-formados recebem propostas de trabalho de 40h semanais por um salário de R$800,00 (muitas vezes menores até que a mensalidade da faculdade, se privada) , ser baiana de acarajé, vender sanduíche natural ou qualquer atividade informal acaba sendo um escolha sensata e lucrativa. Em última análise, nós clientes comeríamos empadinhas bastante culturais.