Wednesday, November 21, 2007

Baianas como business

Dia desses, enquanto comia um acarajé, comecei a reparar no fluxo de pessoas em volta da barraca. Era perto das 17h e uma fila quilométrica se amontoava em torno da cobertura de 2x2 onde uma baiana devidamente paramentada (vestidos, colares e afins) junto com dois ajudantes despachavam acarajés, abarás, cocadas e coca-cola (por algum motivo nunca vi uma vendendo cerveja, mas ainda vou descobrir o porquê).
Fazendo uma análise empírica, e considerando que essa não é a baiana mais famosa de Salvador (não é Cira, Dinha nem Regina), reparei que ali se vende um acarajé por minuto. Ora, se cada acarajé é vendido a R$3,00, em uma hora faturam-se R$180,00 e em quatro horas apuram-se R$720,00. É uma meta simples de alcançar: 240 vendas de R$3,00 (já dando um bom desconto afinal não estou incluindo cocadas, bebidas ou acarajés em uma freqüência maior que a cada sessenta segundos).
Continuando a matemática, as baianas de acarajé, no geral, trabalham de segunda a sábado das 16h às 20h. Nunca vi acarajé antes do fim-de-tarde e em dia de domingo só se vende em pontos turísticos. Entretanto, para sermos fiéis, além desse regime de 4h/dia, vamos considerar que elas necessitam de duas horas antes e duas depois para preparo, montagem e desmontagem de sua estrutura quituteira. Enfim, as jovens de branco rendado também trabalham 8h/dia.
Calculando sobre um faturamento médio/dia de R$700,00 (dei R$20,00 pro "santo"), teremos que ao final de um mês (vinte e seis dias de trabalho, quatro folgas), a baiana terá faturado 700*26 = R$18.200,00. Se cada ajudante lhe custar R$1.000,00/mês (o mesmo que ganhei para andar engravatado e ser escriturário no BB) e que ela paga a sei-lá-quem um aluguel de mais R$1.000,00, ainda assim sobrariam R$15.200,00.
As baianas no geral são pessoas de muito boa índole e reputação. Dessa forma, vou supor que elas doam R$200,00/mês para ONGs como Greenpeace, WWF ou similares. Por fim, seu faturamento bruto é de R$15.000,00. Se considerarmos que ela gasta 33% do seu faturamento com o custo de produzir os acarajés, facilmente chegamos a conta de R$10.000,00 mensais líquidos.
Para melhor explicar, segue Demonstrativo de Resultado do Exercício para o mês I:
(+) R$18.200,00 - Vendas Brutas
(-) R$5.000,00 - Custo de Produtos Vendidos
(=) R$13.200,00 - Lucro Operacional
(-) R$1.000,00 - Empregado I
(-) R$1.000,00 - Empregado II
(-) R$1.000,00 - Instalações
(-) R$200,00 - Greenpeace
(=) R$10.000,00 - Lucro líqüido
Rapidamente conclui-se que ser vendedor de rua é mais rentável que estudar para concurso público. Baianas de acarajé necessariamente não precisavam fazer faculdade, quiçá mestrado; não estudam línguas ou informática; não são obrigatoriamente líderes, proativas, motivadas, ambiciosas e "hands on"; em resumo, as baianas praticam o mesmo ofício há décadas (o qual é inclusive Patrimônio Cultural Imaterial) e com isso obtêm renda que as coloca no topo da pirâmide social.
Se você estiver pensando em mudar de carreira, vá em frente. Eu ainda prefiro não me vestir de baiana.

Tuesday, November 20, 2007

Procura-se um revisor

Meus textos em alguns casos estão carregados de erros, foi o que constatei após uma leitura que fiz esses dias. Em grande parte acho que isso se deve à minha constumeira impaciência com tudo que me cerca e como diferente não seria, digito feito um doido e nem me dando o tempo de reler, já clico em publicar e só então, com um pouco mais de calma, dias depois, paro, leio e vejo o que passa despercebido por mim.

Comigo, a escrita flui de maneira muito rápida e direcionada. Às vezes tenho uma idéia de escrever algo, faço alguns parágrafos e vou salvando no site. Atualmente estou com menos, afinal fiz uma campanha para publicar o que estava pendente (esse é inclusive um deles) e terminei limpando boa parte dos textos rascunhados, porém já cheguei a ter dez rascunhos por meses sem nem tocá-los. Resultado, quando tenho vontade, sento, publico e pronto. Nisso entram no ar diversas falhas que não reparo. Enfim, isso foi para falar que não tenho muita paciência em escrever pausada e delicadamente.

O resultado de minha personalidade apressada são os erros que passam batido e que aqui ou ali, pessoas com muito jeito e delicadeza vem me apontando. Agradeço a todas, obviamente, mas necessito algo além disso: estou em busca de um revisor. Pode ser revisora também. Alguém que tenha um delta de calma a mais que eu para acertar defeitos que ficam após o texto ser publicado e para os quais eu dificilmente retorno a fim de consertar.

Estou disposto, inclusive, a dar minha senha para que quem for revisar entre e corrija itens como pontuação e ortografia, sobretudo. Acho que na impaciência e até pressa em colocar novidades aqui, termino perdendo um pouco o critério e nessa esteira muitos textos truncados vêm a público num claro atentado à minha imagem de bom e atencioso blogueiro.
Por fim, está feito o convite, adianto que o trabalho é voluntário. Hoje em dia isso é chique.

Tuesday, November 13, 2007

Um prato de cuscuz resolve

Assim que entrei na natação a nutricionista mandou cuidar da ingestão calórica. Ora, se fosse bom ela não estaria me avisando previamente, foi o que pensei. E não era que a infeliz tava certa? Já saio da piscina com uma fome absurda e às vezes não é fácil manter uma linha nutricional após nadar 2000m.

Foi o que ocorreu hoje. Já saí d'água com uma fome das arábias. No caminho de casa havia Burger King, Habib's, Mc Donald's, acarajés e todo tipo de veneno fast-food. Resisti bravamente, cheguei em casa e comi uma maçã. Naturalmente uma maçã não dá nem pra saída, logo comi um iogurte e por último três morangos. Foi então quando comecei a pensar em retomar um texto que iria concluir aqui. Sentei na cadeira e lembrei de uma caixinha de couscous que ainda estava aberta na geladeira: aí começou meu martírio.

A cada digitada eu só pensava no cuscuz (ou couscous) que, convém ressaltar, nem é essas comidas todas, mas pra quem tá com fome né? Foi aí então que minuciosamente minha mente começou a trabalhar contra mim mesmo: passei a avaliar os prós e contras de comer o primo do fuba e finalmente cheguei a conclusão que se eu tivesse parado no Mc Donald's teria sido muito pior. Pronto, estava dada a ordem para comer o cuscuz como se fosse a mais fina das iguarias.

O preparo seguiu o passo-a-passo que já coloquei aqui (massa de couscous marroquino, caldo de galinha ou carne, cinco minutos de fogo) e além disso fritei dois ovos com azeite. Enquanto comia, também tentando aplacar a consciência, pensei que poderia ter colocado itens bem mais engordativos (se houvesse na geladeira também né?) e assim minha mente aceitou passivamente o prato de couscous com ovos na medida em que cada colherada (sim, eu como como pedreiro) descia goela abaixo.

Ah, se os males do mundo fossem simples assim. Em meu caso, um prato de cuscuz resolve.

Saturday, November 03, 2007

Rap das Armas

De tempos em tempos nossa produção cultural nos brinda com obras de caráter bastante duvidoso. É desnecessário citar exemplos, porém o último hit que estoura em todas caixas de som (dos postos de gasolinas às nights ensacadinhas) é o tema da produção de Tropa de Elite, para quem não lembra é a música do "Parapapapapapapapapa".

Após assistir o filme por duas vezes fiquei curioso em procurar a letra e finalmente me deparei com o bastante sugestivo título do "Rap das Armas". Sua estrutura, caso queira ler, encontra-se no link a seguir - Rap das Armas. Sugiro que dê uma rápida olhada só para entender a que me proponho.

Não sou especialista em armas, mas claramente se vê, a partir do título, que a intenção do seu autor é intimidar, além de logicamente incitar e propagar a cultura da violência. Arrisco dizer, inclusive, que esse tipo de produção é financiado pelo próprio tráfico em uma relação promíscua e ilegal. Ironicamente, a prática do mecenato foi de Roma aos morros. O pior de tudo, porém, não é nem a produção ou financiamento desse tipo de "cultura" e sim, seu consumo. Esses marginais travestidos de artistas, incitam a violência em um claro atentado à ordem democrática e o estado de coisas que fazem do Brasil que construímos um país onde há respeito às diferenças. Nós, enquanto classe A-B-C, rimos e achamos gostoso descer até o chão enquanto o camarada propaga que "lá vem aquele de AK-47". Em tempo, essa é a arma mais utilizada por forças terroristas como os Taleban, os rebeldes da Chechênia e atuais insurgentes no Iraque. Para falar somente de um exemplo, sob pena de ser repetitivo.

É urgente a construção de um critério mínimo de consumo da cultura dos morros. Um lado da moeda é calça da Gang, popozudas e essa maneira lasciva de dançar. De outro, em muito relacionado também à cultura funk, há um claro ataque ao poder constituído ao mesmo tempo em que se romantiza um elemento cuja forma de divertir é propagar artefatos de destruição massiva e desproporcional ao ambiente urbano. A condescendência com a qual tratamos o que desce de lá será uma conta bastante alta de pagar, se já não o é, ao que passo em que se acha natural ouvir a palavra granada enquanto se paquera a gatinha ao lado.

Já tornou-se lugar comum a pujança do poderio militar da indústria do crime no Brasil. Isso é fato, o que critico e questiono é que nós enquanto reféns desse enredo social, consumamos uma cultura que se propõe unicamente a exaltar uma máquina capaz de nos fazer perder o sono e até a vida, em muitos casos. O problema da criminalidade vai mais além de uma canção, eu sei. Entretanto, de tanta tolerância, fico aqui pensando onde iremos parar nessa roda-viva de romantização da criminalidade, seja ela descortinada ou velada, como esses pancadões o são.

Ultimamente, ou pelo menos até onde lembre, todo verão lançam-se músicas que vão bombar. Ao ouvir essa exaltação ao poder paralelo, confesso que me dá uma saudade danada do É o Tchan, Calypso e músicas de rebolado. Lixo por lixo, é preferível o que se dedica somente a entreter.