O pior de querer, e até em parte, alcançar ser gente grande é a solidão. Não durou mais de dez dias para perceber que viveria boa parte dos meus momentos sozinho. Claro que existem pessoas muito importantes para mim aqui, porém eu sentia uma falta de tudo. Não demora muito até você perceber que o ônus de se lançar em certas aventuras (ou até doidice, dependendo do intérprete) tem um preço bastante alto e isso, em muitas vezes, beira o arrependimento. Ao chegar aqui, saí de um ambiente bastante acolhedor em Macaé para encarar o que seria a rotina de morar numa Salvador que em muito diferia do que eu estava acostumado tanto em Natal, quanto em meio à minha turma de CF no Rio (muita gente e agitação).
O que a época de chegar aqui me reservaria seria, a princípio, um esquema de casa-trabalho, arrumação de mudança e tarefas chatas as quais em nada se pareciam o que eu sempre imaginei de ser o fato de morar só. A época em que aportei à Bahia, entretanto, é a que imagino ser a melhor: o verão. Salvador faz jus a fama de cidade festeira e, da 1a semana até pouco antes do carnaval, onde não fiquei aqui, mas fui para Caicó, frequentei todo tipo de festa: ensaio de tudo no mundo, festas, lavagens e correlatas. Nesse período, meu banco de horas pulou do azul claro para o vermelho encarnado, mas tudo era festa. Mais uma vez, o ciclo se inicia nas próximas semanas, porém hoje não vivo mais a mesma tara de festas como todo turista (e assim me considerava quando vim pra cá) tem. Pelo fato de se mencionar Salvador, automaticamente diversas pessoas têm uma visão de "acarajé, Pelourinho e capoeira", mais ou menos a mesma que tive.
No entanto, fato é morar em uma cidade, algo totalmente distinto é ser turista nela. São Paulo, por exemplo, é excelente para passear, porém se fosse morar ali, eu teria que me acostumar com aquele trânsito FDP, algo no qual Salvador não deixa muito a desejar não. Vivo dizendo que me considero também baiano, mas o trânsito aqui é capaz de irritar o mais apaixonado dos soteropolitanos e isso é sem dúvida meu maior incômodo com relação à essa bela cidade.
A solidão, continuando, em meu caso, vinha do excesso de tempo livre pós-trabalho. Nessa esteira, resolvi que iria ocupá-lo, logo eu fiz curso de redação, mergulho, culinária (japonesa, italiana, francesa, brasileira, chinesa), drinks, vinhos, natação, corrida, musculação, boxe. Fui a degustações de whiskey, vinho, vodka, cerveja. De positivo nisso tudo teve perda de peso (8kg) e muitas amizades que fiz. Por último entrei numa confraria na qual nos reunimos quinzenalmente para cozinhar e tomar vinho. Como se vê, minha rotina é bastante relacionada com a mesa. Por fim, aprendi a lidar com a solidão e talvez seja por isso que hoje consigo viajar sozinho (como relatado abaixo) e não sofrer ou me amedrontar com o fato de deparar-se somente com minha própria compahia.
Por outro lado, ainda tocando no tema solidão, no geral os domingos ainda são terríveis para mim. Lá em casa, em Natal, eles são historicamente dias bastante "famíla", sobretudo os almoços, e isso faz falta. Arrisco até dizer que é o tipo de ocasião insubstituível na vida de alguém, afinal invariavelmente em quase todos domingos sinto falta deles, dos bons papos, porém isso é algo que ainda terei que trabalhar e possivelmente quando fizer outro retrospecto já terei evoluído um pouco mais.
A dor, a qual me referi acima, produz crescimento na maioria dos casos. Contudo o pior misto de dor que já senti ao longo desse período foi o de ficar seriamente doente e não ter o apoio dos meus mais próximos. Peguei um rotavírus (imagino que seja o vírus que vem por aí rodando) e rapidamente fiquei acamado por dois dias. Não sei se por peculiaridade da doença ou por falta de cuidado, na segunda noite acordei com uma febre de 40C e fui dirigindo para o pior hospital que um ser humano pode ir: Hospital Aliança. Lá chegando às três da manhã começaram uma bateria de exames que incluiu radiografia, ultrassonografia e tomografia; exame de sangue, fezes, urina e toda uma saraivada de procedimentos os quais possivelmente foram só para fazer caixa a fim de manter uma estrutura nababesca. Resultado: ao meio-dia eu ainda não havia sido medicado e arranquei o soro da mão, atirei contra a parede e sai com mais de mil de lá. Minha saúde não me permitia rompantes de cólera, porém o negão 2x2 deve ter sentido o clima fechar quando eu mandei ele tomar naquele canto, após tentar me impedir de sair do hospital, enfim eu mesmo me liberei dos cuidados médicos e hoje guardo um "atestado de alta por evasão hospitalar". Como pude comprovar, ainda continuo metido a esquentado, mas nada que o tempo não cure e o fato de engolir muitos sapos contribui para isso.
Já concluindo, por aqui encerro esse meu relato, com a única certeza que não sei do meu amanhã seja ele de fato amanhã ou daqui a alguns anos. Não tenho idéia se e nem quando volto para Natal, apenas vivo o dia-a-dia como sendo um presente divino e o melhor de tudo são as histórias para contar que felizmente vão se somando às muitas que já foram contadas e outras que estão aqui relatadas. O que vivi nesses dois anos, acredito, me habilita a alçar vôos ainda maiores (o que quer que isso queria dizer) e sou bastante grato pelo fato de que a balança de dois anos de Bahia pende bastante para o lado positivo.
Por último, gostaria de aprofundar ainda mais o cárater auto-biográfico desse texto, porém sob pena de tornar-me chato e repetitivo deixarei para explorar temas específicos como viagens e festas (muitos dos quais já falei em diversos textos) isoladamente a fim de não matar ninguém de tanto ler pois sei que na tela tudo cansa bem mais. Através desse blog, algumas pessoas lêem meus textos e me chamam de aventureiro. Pois bem, dentre todos esses relatos, esse talvez seja o que mais conta de mim: nessa minha aventura de viver.
