Tuesday, October 30, 2007

Dois anos de Bahia III

(CONTINUAÇÃO)


O pior de querer, e até em parte, alcançar ser gente grande é a solidão. Não durou mais de dez dias para perceber que viveria boa parte dos meus momentos sozinho. Claro que existem pessoas muito importantes para mim aqui, porém eu sentia uma falta de tudo. Não demora muito até você perceber que o ônus de se lançar em certas aventuras (ou até doidice, dependendo do intérprete) tem um preço bastante alto e isso, em muitas vezes, beira o arrependimento. Ao chegar aqui, saí de um ambiente bastante acolhedor em Macaé para encarar o que seria a rotina de morar numa Salvador que em muito diferia do que eu estava acostumado tanto em Natal, quanto em meio à minha turma de CF no Rio (muita gente e agitação).


O que a época de chegar aqui me reservaria seria, a princípio, um esquema de casa-trabalho, arrumação de mudança e tarefas chatas as quais em nada se pareciam o que eu sempre imaginei de ser o fato de morar só. A época em que aportei à Bahia, entretanto, é a que imagino ser a melhor: o verão. Salvador faz jus a fama de cidade festeira e, da 1a semana até pouco antes do carnaval, onde não fiquei aqui, mas fui para Caicó, frequentei todo tipo de festa: ensaio de tudo no mundo, festas, lavagens e correlatas. Nesse período, meu banco de horas pulou do azul claro para o vermelho encarnado, mas tudo era festa. Mais uma vez, o ciclo se inicia nas próximas semanas, porém hoje não vivo mais a mesma tara de festas como todo turista (e assim me considerava quando vim pra cá) tem. Pelo fato de se mencionar Salvador, automaticamente diversas pessoas têm uma visão de "acarajé, Pelourinho e capoeira", mais ou menos a mesma que tive.


No entanto, fato é morar em uma cidade, algo totalmente distinto é ser turista nela. São Paulo, por exemplo, é excelente para passear, porém se fosse morar ali, eu teria que me acostumar com aquele trânsito FDP, algo no qual Salvador não deixa muito a desejar não. Vivo dizendo que me considero também baiano, mas o trânsito aqui é capaz de irritar o mais apaixonado dos soteropolitanos e isso é sem dúvida meu maior incômodo com relação à essa bela cidade.


A solidão, continuando, em meu caso, vinha do excesso de tempo livre pós-trabalho. Nessa esteira, resolvi que iria ocupá-lo, logo eu fiz curso de redação, mergulho, culinária (japonesa, italiana, francesa, brasileira, chinesa), drinks, vinhos, natação, corrida, musculação, boxe. Fui a degustações de whiskey, vinho, vodka, cerveja. De positivo nisso tudo teve perda de peso (8kg) e muitas amizades que fiz. Por último entrei numa confraria na qual nos reunimos quinzenalmente para cozinhar e tomar vinho. Como se vê, minha rotina é bastante relacionada com a mesa. Por fim, aprendi a lidar com a solidão e talvez seja por isso que hoje consigo viajar sozinho (como relatado abaixo) e não sofrer ou me amedrontar com o fato de deparar-se somente com minha própria compahia.


Por outro lado, ainda tocando no tema solidão, no geral os domingos ainda são terríveis para mim. Lá em casa, em Natal, eles são historicamente dias bastante "famíla", sobretudo os almoços, e isso faz falta. Arrisco até dizer que é o tipo de ocasião insubstituível na vida de alguém, afinal invariavelmente em quase todos domingos sinto falta deles, dos bons papos, porém isso é algo que ainda terei que trabalhar e possivelmente quando fizer outro retrospecto já terei evoluído um pouco mais.


A dor, a qual me referi acima, produz crescimento na maioria dos casos. Contudo o pior misto de dor que já senti ao longo desse período foi o de ficar seriamente doente e não ter o apoio dos meus mais próximos. Peguei um rotavírus (imagino que seja o vírus que vem por aí rodando) e rapidamente fiquei acamado por dois dias. Não sei se por peculiaridade da doença ou por falta de cuidado, na segunda noite acordei com uma febre de 40C e fui dirigindo para o pior hospital que um ser humano pode ir: Hospital Aliança. Lá chegando às três da manhã começaram uma bateria de exames que incluiu radiografia, ultrassonografia e tomografia; exame de sangue, fezes, urina e toda uma saraivada de procedimentos os quais possivelmente foram só para fazer caixa a fim de manter uma estrutura nababesca. Resultado: ao meio-dia eu ainda não havia sido medicado e arranquei o soro da mão, atirei contra a parede e sai com mais de mil de lá. Minha saúde não me permitia rompantes de cólera, porém o negão 2x2 deve ter sentido o clima fechar quando eu mandei ele tomar naquele canto, após tentar me impedir de sair do hospital, enfim eu mesmo me liberei dos cuidados médicos e hoje guardo um "atestado de alta por evasão hospitalar". Como pude comprovar, ainda continuo metido a esquentado, mas nada que o tempo não cure e o fato de engolir muitos sapos contribui para isso.


Já concluindo, por aqui encerro esse meu relato, com a única certeza que não sei do meu amanhã seja ele de fato amanhã ou daqui a alguns anos. Não tenho idéia se e nem quando volto para Natal, apenas vivo o dia-a-dia como sendo um presente divino e o melhor de tudo são as histórias para contar que felizmente vão se somando às muitas que já foram contadas e outras que estão aqui relatadas. O que vivi nesses dois anos, acredito, me habilita a alçar vôos ainda maiores (o que quer que isso queria dizer) e sou bastante grato pelo fato de que a balança de dois anos de Bahia pende bastante para o lado positivo.

Por último, gostaria de aprofundar ainda mais o cárater auto-biográfico desse texto, porém sob pena de tornar-me chato e repetitivo deixarei para explorar temas específicos como viagens e festas (muitos dos quais já falei em diversos textos) isoladamente a fim de não matar ninguém de tanto ler pois sei que na tela tudo cansa bem mais. Através desse blog, algumas pessoas lêem meus textos e me chamam de aventureiro. Pois bem, dentre todos esses relatos, esse talvez seja o que mais conta de mim: nessa minha aventura de viver.

Dois anos de Bahia II

Continuando, essa chegada à Bahia foi o término de um período que eu imaginava ter acabado quando saí da faculdade: o de estar sob a "proteção" constante de alguém. Assim que me formei, passei quase dois meses na Argentina, entrei pro Banco e logo vim para a Petrobras. Eu não havia até então entendido a dimensão na qual me inseriria enquanto adulto, justamente por ter saído de casa em maio de 2005 e automaticamente ingressado em um grupo incrível que foi a turma com a qual entrei na Companhia e comecei propriamente minha carreira profissional. Até a 1a noite no meu apartamento em Salvador, onde entrei com um colchão, uma vela, uma garrafa d'água e toda minha mudança (resumia-se a duas malas), minha vida tinha sido totalmente protegida: durante vinte e poucos anos pelos pais aos quais Deus encarregou-se de dar a hercúlea tarefa de me fazer gente e depois, mesmo que momentaneamente e guardada a proporção do que isso pode significar, por uma turma de Curso de Formação na qual todos (ou ao menos a maior parte) eram de fora e o máximo que sabiam de seus destinos é que deixaram para trás muitas coisas.


A realidade do que a independência significaria começou a descortinar-se na medida em que tive que assumir tarefas que até então passavam ao largo da minha percepcão faculdade-estágio-academia-vida noturna. Pode parecer uma espécie de manha, mas eu nunca imaginei como seria difícil lidar com uma casa e ser realmente independente, o que até então eu só vinha vivenciando em parte já que por seis meses morei em hotel, não tive chefe, aborrecimentos, encheção de saco, ou seja, ainda vivia o fator novidade de ser "gente grande". A partir de então, há exatos dois anos, foi quando eu passei a perceber que o buraco era mais embaixo.


Ao longo desse tempo, uma antiga lei da física provou-se verdade pra mim: a de que se um corpo for deixado em repouso a menos que uma força externa atue, ele permanecerá assim indefinidamente. Lembro a lei, mas de cor eu não sei o número. Com 33% de chance de acertar ou foi a 1a, 2a ou 3a. Enfim, os copos, tênis, roupas, livros, chave de carro, eles simplesmente adormeciam onde eu tinha deixado e amanheciam guardados, pendurados, lavados, limpos, enxutos e prontos para uso. Minha percepção míope não atentava para o fato de que alguém (ou Mamãe ou Raimunda, nossa lendária companheira) havia estrategicamente passado por ali e organizado o que eu não tinha feito, possivelmente ao chegar de madrugada de algum canto. Essas pessoas não iriam mais estar no meu apartamento em Salvador.

Os copos, pratos, talheres e toda imundície-bagunça-alvoroço que eu fizesse estariam de volta aqui em casa como se testemunhassem uma vida inteira de gente indo atrás do que você poderia facilmente ter feito e nunca fez. As nadadeiras ainda salgadas quinze dias em cima do sofá eram a prova cabal de que eu não tinha a mínima competência para gerenciar um apartamento de 50m2, quiçá uma vida. Esses pequenos detalhes da rotina ensinam e desgatam bastante porém eles são uma das facetas, talvez a ponta do iceberg.

(CONTINUARÁ)

Dois anos de Bahia I



Esse apanhado já foi conversado e discutido em muitas esferas: mesa de bar, trabalho, msn, mas só agora sento para tentar fazer um relato de dois anos de Bahia. A verdade é que essa idéia surgiu ainda no ano passado, porém com a correria do fim-de-ano terminei sem escrever e passei 2007 inteiro esperando chegar esse momento para enfim abordar talvez os dois anos mais intensos da minha vida.


Naturalmente tenho vivido intensamente desde que saí do segundo grau, imagino. O período de faculdade e o após ele foram cheios de novidades, mas esse foi mais peculiar, e suponho que você concordará comigo caso encare a maratona da leitura. É claro que outras épocas de minha vida também tem seus pontos altos, porém me manterei fiel aos últimos vinte e quatro meses.


Para começar, cheguei aqui de pára-quedas. Talvez exagerando um pouco foi mais ou menos com uma mão na frente outra atrás. Não era tão mal assim, afinal vinha empregado e com todas frescuras do mundo, porém no aspecto pessoal, além de Thiago, que vinha comigo de Macaé, as pessoas que conhecia na Bahia se resumiam a colegas de trabalho (alguns dos quais tornaram-se também amigos próximos).


Nunca esqueço quando cheguei aqui em 31/10/05, véspera do meu aniversário, e me espantei com a distância até o aeroporto. Mal sabia que iria ir e voltar essa Avenida Paralela pelo menos umas vinte vezes para ir à Natal (pelas minhas contas deve ter sido isso mais ou menos). O dia seguinte, 01/11, seria o que até hoje imagino ter sido um dos piores da minha vida: além de ser meu aniversário, lembrei muito da minha família, dos amigos que deixei em Macaé, de um "amor" (complicado dizer como evoluiria, mas ainda assim especial) deixado no Rio e o medo de tudo que estava por vir. Eu havia trocado de cidade como quem muda de roupa, explicarei mais abaixo.

São nessas horas que começam a aparecer os torturantes "e se...". Confesso que eles ocuparam minha mente por um tempo, acho que pelo menos os seis primeiros meses foram cheios de "e se..." e até onde percebi eles não contribuiram com muita coisa. Fato era, hoje eu percebo, em uma questão de dias eu havia dado um rumo totalmente diferente à minha vida e não sabia aonde isso iria me levar, se eu iria gostar,me adaptar, ficar aqui para sempre, em resumo, eu não sabia de nada do meu presente e futuro imediato. Pode parecer exagero porém até hoje imagino que as repercussões dessa minha decisão impactaram toda minha vida: trabalho, família, amigos. É mais ou menos a tese da Teoria do Caos, ou seja, um "sim, eu concordo" mudou possivelmente o trabalho que eu desempenho, a pessoa com a qual vou me casar, um eventual acidente que eu poderia vir a ter. É viagem demais começar a conjecturar a esse respeito, mas espero ter sido claro no valor que acho que esse sim pode ter tido.

A verdade é que a situação era essa pelo fato de haver aceitado uma transferência para cá e sobre ela convém abordar mais profundamente. Cheguei de Buenos Aires na véspera do dia em que concordaria vir pra cá. Após um papo de cinco minutos eu havia acabado de decidir que moraria na Bahia. É hilário, mas o que me passou pela cabeça foram três coisas: acarajé, capoeira e Pelourinho. Juro que em momento algum pensei em vida, rotina. Nada. Quando ouvi a mulher sugerir vir para Salvador (após seis meses de RJ), concordei como se ela tivesse dito "vamos tomar um café" e a tal da ficha não veio cair até essa terça-feira, 01/11 - meu aniversário, hospedado em um hotel mixuruca (os melhores estavam lotados) no antro da prostituição baiana. Hoje acho graça, mas não nego que um leve desespero começava a tomar conta de mim.


A sabedoria popular, e é sempre oportuno recorrer à ela, diz que não há desespero que dure pra sempre, ou algo do tipo. Foi nisso que me peguei há exatos dois anos e saí para tomar uma cerveja em comemoração ao meu aniversário. Em respeito a quem me levou para uma véspera de finados em Salvador, não vou dizer que foi uma merda, mas foi bem ruim. Poderia ter sido pior caso tivesse ficado assistindo Casseta & Planeta em uma terça-feira de aniversário. Em parte aí começou-se a formar dentro de mim um conceito que evoluiria ao longo do tempo que é o de que as coisas podem sempre piorar. De certa forma está relacionado à Lei de Murphy, mas fato é que hoje, após tantas situações trágicas e engraçadas, penso que o motivo de uma reclamação hoje pode ser o de uma alegria amanhã e vice-versa. O que temos de fato é hoje, o amanhã é mera especulação.


Lembrei que escrevi uma carta para Flocos, no meio de 2004 (inclusive está abaixo, basta procurar por "Flocos" em seu navegador) a qual dentre outros conselhos dizia assim " Saiba que o crescimento vem acompanhado de dor. Se vier a senti-la, lembre que eu, a torcida do América e mais um monte de gente estaremos com você. Sempre.". Ironicamente, eu iria me pegar lendo a carta que eu tinha escrito para um amigo como forma de entender tudo o que se passava na minha vida.


(CONTINUARÁ)

Wednesday, October 24, 2007

V Meia Maratona Internacional da Bahia

Como comentei abaixo em Pintura de apartamento, tenho o hábito de "inventar novidades e abraçá-las como metas a alcançar". Uma delas, iniciada no meio do ano passado, foi a de iniciar um treinamento de corrida e entrar para o Clube de Corrida da academia. Até aí nada diferente do sempre eu: inventar uma novidade para ter com quê se preocupar.

Para começar um treinamento assim, de início cada quilômetro é sofrível e uma mistura de dor generalizada, ofegância e uma completa sensação de desmonte corporal tomaram conta de mim. Dóia tudo, é claro, afinal o máximo que eu tinha corrido até então tinha sido as Olimpíadas Infantis do Colégio Marista de Natal aí pelo começo dos anos 90. E como não poderia ser diferente, a medida que fui ganhando condicionamento, resistência, ousadia e gaiatice, passei a percorrer maiores distâncias no asfalto até que participei da 1a prova em agosto último.

Naturalmente, e como reforcei abaixo em XXXV Corrida Duque de Caxias, após vencida uma prova de 10km, a meta seria a Meia Maratona que ocorreria dois meses depois. Conhecendo esse Daniel que conheço, e fiel a meus princípios-auto-flagélicos (para quem ler hoje, 24/10, amanhã no escritório olho no dicionário se existe essa palavra, mas até lá fica assim), treinei feito um corno: aclives, corridas diurnas, a favor/contra o vento, noturnas, longas distâncias, ritmo intenso; em resumo, melhorei meu tempo, mas o principal foi minha resistência. Estava pronto para correr exatos 21,1 km na V Meia Maratona Internacional da Bahia marcada para o domingo dia 25/10.

Nos últimos dias antes da corrida estava em Recife. Lá, na quinta-feira anterior à prova, corri 7km em Boa Viagem. Fiz um tempo bom (41' - para os meus termos) e fui descansar crente que a meia seria tranquila. Na sexta, entretanto, saí na noite pernambucana e, digamos, tomei umas cinco doses de whiskey. Logo, partindo do axioma popular de que "quem nunca come mel, quando come se lambuza", por analogia, associo que "quem está sem beber, quando bebe se ferra"e foi exatamente o que ocorreu: acordei o sábado com uma ressaca de matar qualquer queniano.

Nesse dia não caminhei, nem mesmo corri ou alonguei. Deixei minha cabeça latejar e passei o dia inteiro em completo repouso na vã ilusão de que estaria pronto para correr no dia seguinte. Puro engano. A ressaca entrou pelo domingo de tal maneira que desde às seis da manhã quando o despertador tocou e ainda ousei levantar para tentar me aprontar, percebi que meu dia seria da redinha na varanda do décimo andar do Itaigara pro sofá e nada de muito movimento - que dirá meias maratonas. Não sei se me arrependi, ainda nem formei opinião a esse respeito, mas desde então eu ri muito. Só de vingança em 2008 vou correr uma maratona inteira: 42,2 km hahaha.

(Ao longo do próximo ano irei postar aqui o desenrolar desse mais novo auto-flagelo).

Wednesday, October 17, 2007

40 docinhos




Em um fim-de-semana desses, fui ao casamento de um casal amigo. Tudo como manda o ritual. A respeito da cerimônia e desdobramentos, nada a comentar. Já dos convidados, o único senão foi uma senhora que, após aberta a mesa dos doces, achou por bem levar 40 docinhos. Ora, ela nem devia poder comer tanto açúcar. Possivelmente por problemas de idade: triglicerídes, glicose e talvez até diabetes. Cárie não ataca chapa, logo essa preocupação não existia. Em todo caso fiquei com a cena na cabeça: a inofensiva velhinha (daquelas bem vovozinhas mesmo) carregando 40 docinhos.

O que leva alguém a avançar sobre uma mesa e insatisfeito com tal voracidade, carregar 40 docinhos? Gula? Falta de educação? Ajudar os netinhos a "garantir o seu"? Se restar dúvida de como comumente as pessoas avançam, sugiro assistir Coração Valente justo na parte em que Mel Gibson grita "SCOTLAND!!!". A foto de início desse post exemplifica bem.

Antes de tudo doce não é minha praia, logo ela não era uma ameaça ao meu intuito alimentar. Se ela voasse nas garrafas de uísque, aí sim eu tomaria partido, mas até então ela podia morrer com brigadeiros e olhos-de-sogra (se bem que atualmente tudo em bufê leva nome em francês, né?) que de minha parte eu não ofereceria resistência.

Analisando o fenômeno, já de volta a meu computador, passei a associar o mesmo comportamento de manada a diversas atitudes do dia-a-dia. É fácil perceber como a velhinha perdeu a racionalidade frente aos docinhos se traçarmos um paralelo com o alvoroço que é não só para embarcar, porém sobretudo para desembarcar de um avião. Basta o piloto tocar a pista e o avião começar a andar um pouquinho mais devagar que metade do vôo se inquieta ao ponto de a comissária ter que chamar a atenção de um ou outro. Por fim, assim que chega-se à ponte, 99% do avião fica em pé, mesmo sabendo que naquela posição ainda permanecerão por pelo menos cinco minutos.

E nos self-services? Alguém já reparou como as pessoas "avoam" sobre os pratos? Até parece que aquilo tudo é boca livre. No fim das contas, todo mundo se serve, pesa a comida e paga proporcional ao que levou. Esse último exemplo foi para contrastar com os bufês em geral. Basta algum cristão dizer "o bufê abriu" que meio mundo de mortas-fome (p.s. acabei de tirar a dúvida de hífens em - http://www.pucrs.br/manualred/hifen.php) avança feito um bando de hienas rumo à carniça. Discovery Channel perde feio.

Como é de costume, alguém pode dizer que as mortas-fome (em maior número mulheres, infelizmente, por isso o feminino) quando se digladiam pela coxa do peru (e haja porrada aí pois até onde sei as aves-não-transgênicas detêm apenas duas) estão fazendo "o prato dos meninos" ou "do marido". Pra cima de mim?

Por último, lembrei da história do Lobo Mau. O diálogo dele com a Vovó seria mais ou menos assim:

L - Vovó, pra quê essas mãos tão grandes?
V - É pra poder carregar mais doces, lobinho.
L - Ahhhh.

Festa do Padroeiro de Maracaípe

Pela 5a vez em dois anos percorri o trecho Salvador-Natal (ou o oposto) por carro. Muitos dizem que é loucura e não tiro suas razões. Enfrentar 1150km não é para qualquer dia tampouco qualquer um. Entretanto, como tudo na vida, há vantagens as quais, dependendo do ponto de vista, amenizam a trajetória de em média 15h.
Conhece-se um Brasil distinto das grandes cidades. Lugares remotos como Piaçabuçú (AL), São José da Coroa Grande (PE) e Mamanguape (PB). Saindo de Salvador às 11h da manhã, cruzava a PE-060 às 21h e o cansaço começou a chegar. Olhei em volta, só havia canavial e , não dá pra negar, o camarada sente um medinho de qualquer coisa. Sei lá o quê. Ainda faltavam, mais ou menos, 350km até Natal e seguindo no mesmo ritmo aportaria na Capital Potiguar por volta de uma da matina. Era de fato o que eu queria, chegar em casa o mais cedo possível, contudo o destino me reservaria uma experiência diferente.
Parei em um posto de gasolina (que felizmente apareceu antes de uma "pousada" qualquer) para perguntar a um cidadão muito despreocupado, como boa parte dos frentistas de interior, qual era a parada mais próxima. Qual não foi minha surpresa ao saber que estava a meros 20km da paradisíaca Porto de Galinhas. Pronto, ali descansaria.
Lá chegando e após a busca por uma hospedagem, soube por fontes seguras que o movimento da noite seria em Maracaípe (conhecido pico do surfe) em sua pública festa do padroeiro. Justiça seja feita, não me animei muito, é verdade, mas já escaldado de outras festas de rua, públicas, povões e afins, coloquei uma camiseta furada, uma bermuda até mais ou menos e vinte conto no bolso. Subi no mototáxi e após quinze minutos de "pó-pó-pó" eu estava a beira do apocalipse.
Não quero ser preconceituoso, que fique claro, porém é necessário uma dose cavalar de mente aberta, álcool e empolgação para se soltar em festas assim. Após 11h de direção, fato era, eu juntava mais ou menos todos os requisitos auto-impostos para o lazer a baixo custo em meio à população nativa de um point do surfe nacional. Além disso, tomar algumas cervejas (e o dinheiro também não tinha como dar para mais que isso) ouvindo um cover de Aviões do Forró era seguramente melhor que ter dormido em alguma hospedagem de BR (entedida em seu sentido lato sensu, ou seja, motel) ou seguir dirigindo mais 350km até Natal.
O público, em sua maioria, era estranho à minha convivência. Novamente não quero soar preconceituoso, afinal foi bastante divertido, porém meu dia-a-dia não me brinda com a convivência entre pessoas tão animadas e soltas. Os nativos, no geral, são assim soltos e felizes à sua maneira.
...
[Gostaria, aqui, de fazer uma pequena intervenção e analisar meu próprio texto. Comecei a escrevê-lo há uma semana e só hoje, 17/10, retomei a redação. Ri muito ao ler o último parágrafo o qual muito se assemelha À Carta de Pero Vaz de Caminha escrita assim que os portugueses aportaram aqui (A Carta, Pero Vaz de Caminha - http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/carta.html). A maneira como descrevi os locais soou, ao meus olhos, preconceituosa e elitista, entretanto não cabe alterar].
...
Voltando à festa, restavam R$2,00 no bolso que seriam a condução de retorno. Subi numa kombi velha e voltei para minha realidade menos crua. No caminho comecei a pensar no que ainda me falta ocorrer. Certamente, na próxima Festa do Padreiro de Maracaípe, em outubro/08, estarei menos preocupado com o ambiente e mais imerso na multidão. Por fim, a experiência valeu: as cervejas, as risadas e o texto.

Tuesday, October 16, 2007

Pintura de apartamento

Tenho um mau hábito de inventar novidades e abraçá-las como metas a alcançar. Reputo como sendo um mau hábito, afinal não raras vezes me arrependo de ter pensado demais e quero desistir, mas uma espécie de auto-orgulho me inibe de cair fora do que nem deveria ter sido iniciado. Se eu fosse reler esse parágrafo, certamente não iria entender muito bem o que quis dizer, porém com um exemplo todos conseguem compreender.
Após uma extensa negociação, mudei de apartamento aqui em Salvador. Não foi nada grandioso, afinal saí do nono para o décimo andar. A mudança, no entanto, ocasionou uma série de pequenos acertos e reparos em ambos apartamentos - o vago e o novo. Até aí tudo bem, afinal não é a primeira vez que faço e desfaço malas, mas, no geral, dessa última meu tempo foi bastante tomado e, momentaneamente, deixei de lado algumas atividade cotidianas como o blog, por exemplo.
Dentre um dos reparos necessários estava a pintura do novo apartamento. A idéia inicial seria pintar tudo, porém fui diminuindo até que restringi-me somente ao quarto. O pintor, um camarada da mais alta polidez e simpatia, furou quatro vezes. Essas evasivas mexeram comigo e então tive a infeliz idéia de eu mesmo pintar a nova morada. Repito: I-N-F-E-L-I-Z. Melhor teria sido se nesse momento de loucura, eu estivesse dormindo e a atividade de pintura fosse um mero pesadelo.
De idéia na cabeça, comprei todo o material e no último domingo comecei o que seria um lazer mas terminou como um parto. Faço aqui uma pequena interrupção: tenho uma tese de que tudo no começo é bom e, como não deveria ser diferente, minha missão iniciou-se às 8h como ares de grande acontecimento e encerrou-se, já pelas 17h de um domingo de sol em Salvador, com uma tremenda sensação de alívio.
De começo é uma beleza: o cara começa devagarzinho, dá uma pincelada aqui, se mela um pedaço, em resumo acha tudo bacana. Esse é o momento novidade. Lá pra uma hora de pintura, o cidadão já se acha o Salvador Dalí. A prática adquirida em sessenta minutos de pintura, o habilita até a ganhar um extra nas férias e ele começa a se perguntar "por que eu nunca pintei antes?". Terminada a primeira demão (camada) de tinta, já dói tudo: braço, perna, costas, cabeça. Se for destro, o mané vai tentar pintar com a esquerda pra aliviar e é aí que o caldo começa a entornar. Muitos podem associar isso ao casamento, mas deixo as analogias por conta de cada leitor.
Após duas horas de tinta, o imbecil vai querer parar por algum motivo. Seja café, cigarro ou banheiro, qualquer auto-desculpa o tirará do seu flagelo. Comigo não foi diferente. A visão de todo, algo que a filosofia há muito vem discutindo, não chegou nem a sua metade. Se eu já achava que tinha chegado ao inferno, faltava pintar o teto... Ah, o teto. Por que danado a gente não mora em casa sem teto? Podia ser aquela da música que não tinha teto não tinha nada! Meu domingo iria piorar exponencialmente ao começar levantar o pincel em direção ao céu...
Pintar o teto, e aí peço uma pequena abstração de sua parte, é ficar feito um otário com um cabo de vassoura na mão esfregando um rolo pra lá e pra cá pelo menos umas setecentas vezes. Se for usuário de lente de contato, como eu, dê um jeito de acostumar-se com os pingos ou use óculos de proteção (eu tinha mas nem lembrei disso). No geral, dá pra cansar, isso eu garanto. E lembremos que aí conclui-se a primeira demão. Falta a segunda.
Pós-almoço, é hora de pedir pra morrer. Primeiro já se fez a merda de iniciar uma pintura que por qualquer cem conto alguém faria, depois porque você ainda não chegou a lugar nenhum. O máximo que há, e haja boa vontade aí, é uma camada esbranquiçada sobre a antes suja parede, mas nada de fato alcançado.
O foda-se é ligado nesse momento. Tudo que se quer é atingir algo minimamente bonito e cômodo. Essa é a hora do erro, da culpa e do arrependimento. Se estiver acompanhado, guarde para si todas as queixas, afinal o menos necessário no momento é desmotivar quem está ali para contribuir.
O resultado final ficou bom, confesso. Agora não sei se minha percepção foi influenciada pelo esforço ou se de fato pintamos bem. A sensação de se alcançar algo difícil é ótima, mas o desenrolar é miserável. Fica aqui uma recomendação: por favor só invente novidades fáceis de serem levadas até o fim. Para quem quiser um exemplo de algo a não fazer é pintar seu próprio apartamento. Se ainda tiver dúvidas, lembre-se de mim ao pintar o teto.

Monday, October 01, 2007

Pensamentos quase póstumos

Artigo - Luciano Huck
Folha de S. Paulo


Pago todos os impostos. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa.


LUCIANO HUCK foi assassinado. Manchete do "Jornal Nacional" de ontem. E eu, algumas páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma no caderno de cultura. Não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio. Por quê? Por causa de um relógio. Como brasileiro, tenho até pena dos dois pobres coitados montados naquela moto com um par de capacetes velhos e um 38 bem carregado. Provavelmente não tiveram infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia. O lugar deles é na cadeia. Agora, como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa. Adoro São Paulo. É a minha cidade. Nasci aqui. As minhas raízes estão aqui. Defendo esta cidade. Mas a situação está ficando indefensável. Passei um dia na cidade nesta semana -moro no Rio por motivos profissionais- e três assaltos passaram por mim. Meu irmão, uma funcionária e eu. Foi-se um relógio que acabara de ganhar da minha esposa em comemoração ao meu aniversário. Todos nos Jardins, com assaltantes armados, de motos e revólveres. Onde está a polícia? Onde está a "Elite da Tropa"? Quem sabe até a "Tropa de Elite"! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade. Tenho certeza de que esse tipo de assalto ao transeunte, ao motorista, não leva mais do que 30 dias para ser extinto. Dois ladrões a bordo de uma moto, com uma coleção de relógios e pertences alheios na mochila e um par de armas de fogo não se teletransportam da rua Renato Paes de Barros para o infinito. Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão. Meu prazer passa pelo bem-estar coletivo, não tenho dúvidas disso. Confesso que já andei de carro blindado, mas aboli. Por filosofia. Concluí que não era isso que queria para a minha cidade. Não queria assumir que estávamos vivendo em Bogotá. Errei na mosca. Bogotá melhorou muito. E nós? Bem, nós estamos chafurdados na violência urbana e não vejo perspectiva de sairmos do atoleiro. Escrevo este texto não para colocar a revolta de alguém que perdeu o rolex, mas a indignação de alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo e concluir -com um 38 na testa- que o país está em diversas frentes caminhando nessa direção, mas, de outro lado, continua mergulhado em problemas quase "infantis" para uma sociedade moderna e justa. De um lado, a pujança do Brasil. Mas, do outro, crianças sendo assassinadas a golpes de estilete na periferia, assaltos a mão armada sendo executados em série nos bairros ricos, corruptos notórios e comprovados mantendo-se no governo. Nem Bogotá é mais aqui. Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba. Finge não saber. Alguém consegue explicar um assassino condenado que passa final de semana em casa!? Qual é a lógica disso? Ou um par de "extraterrestres" fortemente armado desfilando pelos bairros nobres de São Paulo? Estou à procura de um salvador da pátria. Pensei que poderia ser o Mano Brown, mas, no "Roda Vida" da última segunda-feira, descobri que ele não é nem quer ser o tal. Pensei no comandante Nascimento, mas descobri que, na verdade, "Tropa de Elite" é uma obra de ficção e que aquele na tela é o Wagner Moura, o Olavo da novela. Pensei no presidente, mas não sei no que ele está pensando. Enfim, pensei, pensei, pensei. Enquanto isso, João Dória Jr. grita: "Cansei". O Lobão canta: "Peidei". Pensando, cansado ou peidando, hoje posso dizer que sou parte das estatísticas da violência em São Paulo. E, se você ainda não tem um assalto para chamar de seu, não se preocupe: a sua hora vai chegar. Desculpem o desabafo, mas, hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser paulistano, um brasileiro humilhado por um calibre 38 e um homem que correu o risco de não ver os seus filhos crescerem por causa de um relógio.Isso não está certo.