Sunday, March 25, 2007

Guia para Engarrafamentos

São Paulo é dona do pior trânsito do Brasil. Por outro lado, Salvador ao ser a 3ª maior aglomeração urbana do país, tem ao menos em tese, o 3º pior trânsito. Na verdade, a introdução nesse post de hoje é o que menos interessa.
Consideremos que você esteja às 18h na principal via de qualquer capital ou média cidade brasileira (por exemplo, Maceió). Sem dúvida lá também haverá engarrafamentos. Voltando a Salvador, essa semana o engarrafamento diário foi piorado pela chuva. Tendo isso em mente, pensei: - O que se pode fazer em uma hora assim?
Adianto que o engarrafamento foi longo (ou está) sendo longo e por tabela esse texto – escrito em plena Av. ACM enquanto caminhava 10m/min - é a primeira opção para entretenimento no caos viário urbano. Comecei, então, a refletir sobre o tema e o resultado foi bastante rico, vejamos:

a) PAQUERAR – Dependendo de em qual bairro você esteja, paquerar no trânsito pode ser uma boa saída. Até o momento não conheço nenhum casamento ou envolvimento "de futuro" originado literalmente nas ruas. Aliás, nunca ninguém me relatou haver ficado com alguém novo enquanto esperava o sinal abrir. Antes de gerar desânimo em quem lê, ressalto que em um ambiente totalmente parado há o benefício de deter a atenção (ou pelo menos passividade) de sua paquera. Antes de conhecer as soluções que esse guia oferece, ela (ou ele) estará ali parada, no máximo ouvindo a Voz do Brasil. Já você, chavequeiro, estará procurando sua cara-metade enquanto 99% dos seus companheiros de programa de índio estarão completamente entediados por estarem ali. Hipoteticamente cruzar com belos olhos é bem mais interessante que ficar pensando na morte da bezerra ou até escrevendo texto.
Na situação onde me encontro, perto da Rodoviária de Salvador, só alcanço ver motoboys e uma turma com faixa etária de 50+. Por isso escrevo esse guia. Sugiro saídas de academias, faculdades e colégios (se pedófilo), para uma paquera de melhor rendimento. Sem dúvida, haverá mais potenciais alvos nas imediações desses lugares. Aos leitores com experiência no tema, favor compartilhar.

b) TELEFONAR – Antes de tudo, telefonar ao volante é contra a lei, mas quem não transgride? Hoje, antes de começar o texto, aproveitei para ligar para uma amiga de Natal cujo excelente papo vale ligações até debaixo d´água. À ela, meu muito obrigado pela inspiração para esse longo texto de agora. Em meu caso, cá na Bahia, telefonar é mais custoso afinal boa parte de meus contatos são interurbanos e um rombo na conta mensal não seria bem-vindo no já curto orçamento. Entretanto, desconsiderando dinheiro, e reforçando a tese de que ele foi feito apenas para gastar e passar troco somado ao fato de não estar abordando o custo dos passatempos, adianto que telefonar é uma grande saída contudo nem sempre se é bem atendido já que em numerosas ocasiões seu interlocutor também estará engarrafado, seja em sua cidade ou em outra parte do país.

c) JOGOS - Não acredito que ninguém consiga jogar nada durante um engarrafamento. No entanto, caso você esteja acompanhado de alguém bastante empolgado, imagino que seja possível arrumar algum jogo minimamente satisfatório. Já ouvi falar de xadrez, dama e até futebol (nesse caso tendo que obviamente descer do carro e usar-se da rua, iniciativa duplamente babaca e perigosa). Se você estiver sozinho, ou procure alguma alternativa acima ou então ouça a Voz do Brasil - meio caminho para o corte de pulsos.

d) COMER - Quem é guloso comeria em qualquer momento, seja no trânsito, no trabalho ou no consultório do dentista. Pessoalmente sou completamente contra alimentar-se dentro do carro, primeiro porque as chances de sujar e "dar" barata são astronômicas e depois porque comida deve ser apreciada e não "colocada pra dentro" feito uma forrageira. Acima de tudo, comer atrapalha a paquera (quem pode ser interessante de boca cheia?) e as ligações afinal falar de boca cheia, desde que o mundo é mundo, é grosseria pura e um mínimo de educação doméstica nos primeiros anos de vida evitaria milhares de deslizes mundo afora. Por ser comum no trânsito, coloco essa alternativa aqui mas é feio e deselegante, ainda mais em Salvador onde já vi gente comer até acarajé (!!!!!!!!) enquanto dirige. Uma vez, porém, resolvi provar umas pimentas que havia comprado e me fud* com a boca queimando até chegar em casa. Não deu pra paquerar nem para telefonar, ou seja, além de burro, apressado.

e) LER - Totalmente mentiroso-ordinário-cara-de-pau quem diz que consegue ler durante o trânsito. Vá lá que leituras de outdoors, faixas, frase de caminhão e publicações tais quais Caras, Gente, Contigo! e Capricho requeiram um mínimo de "desembolso mental", mas em todo caso continuo achando que é mentira. Ah, adicionalmente, os livros que comecem com "Como...", "100 motivos/razões/maneiras/soluções...", os de Zíbia Gasparetto, Lya Luft e demais de auto-ajuda podem ser compreendidos perfeitamente até plantando bananeira debaixo d´água em dia de chuva. Esses não contam. Busco alguém que consiga ler enquanto dirige. Ao desafiante, sugiro o Pequeno Princípe para ser lido e interpretado durante um engarrafamento. Em caso positivo, iremos levá-lo para o Livro dos Recordes (mentiroso fino).

f) ESCREVER - Diferente de mim que escrevo nesse exato momento, desconheço qualquer pessoa que tenha escrito um artigo enquanto estava em um engarrafamento. Imagino que sou pioneiro nessa área, mas não que isso necessite alguma habilidade especial. A recorrência dos engarrafamentos, a conta de celular pelas alturas, o ambiente "anti-paquerável" e a descrença nos tópicos anteriores, levaram-me a escrever esse texto (claro, bastante longo, afinal ninguém passa menos que 40´ engarrafado aqui em Salvador).

Não gosto de perder idéias sobre as quais quero escrever, assim que às vezes anoto o tópico e só depois abordo o tema. Hoje, porém, foi diferente. Até já escrevi duas poesias no trânsito, mas joguei fora no outro dia já que não me agradaram.
Por fim, está aberto o espaço para quem conheça outras atividades a serem desempenhadas no dia-a-dia das ruas brasileiras. Pensar em pessoas durante os engarrafamentos também é bom negócio. Baseado nisso escrevi esse post o qual dedico a quem me acompanha anonimamente ou mesmo quem visita esse blog pela 1a vez. Saber que serei lido é motivo suficiente para escrever, mesmo que seja um mero Guia para Engarrafamentos.

Wednesday, March 21, 2007

Falar bonito

Ultimamente, tem sido comum ficar reparando em pessoas que gostam de falar bonito. Primeiramente, é interessante como a língua portuguesa tem milhares de palavras e para cada uma delas, outros montes de sinônimos. Tanto é, que frequentemente nos vemos em dúvida quanto à ortografia (p.ex.: x, z, s, ss ou ç). Eu, por exemplo, geralmente escrevo esses posts com o Aurélio aberto e de vez em quando ponho a definição do Dicionário para abordar algum tópico.
Sobre incrementar a linguagem com palavras escolhidas a dedo e a fim de melhor argumentar o falar bonito, lembrei dos que andam alardando o “juridiquês”. Em tese, os advogados e demais do meio jurídico detém um conhecimento de língua maior que a média da população, contudo não deixa de ser incômodo escutar um português inacessível para o grande público – a massa que fala português. O ápice do ridículo é usar o latim (em minha opinião, idioma de missa). Aí sim, é o atestado de completa “fazeção de média”. Já generalizando, todo mundo que cita algo em latim está por excelência querendo aparecer.
O prof. Pasquale, por exemplo, nacionalmente conhecido como autoridade em língua portuguesa, tem um linguajar simples e acessível. Se ele, tido como o ba-bã-bã em português não fala complicado, por que seu tio que não completou a 4ª série insiste em seguir nessa? Haja “cimancol” para esses que escolhem palavras pouco faladas para parecerem cultos. Ah, não vou nem citar os que inventam ou falam errado aquilo que escolheram para “tirar uma” de informados.
Demonstrar erudição é pedante e por vezes o dito culto leva titulo de chato ou ridículo. Não são necessários tantos exemplos, afinal todos temos um amigo, vizinho, parente ou similar que adora puxar palavras do Houaiss (daqueles de mil e tantas páginas) e largar em dia de almoço de domingo ou mesa de bar. Às vezes é rir para não chorar, afinal em uma época onde temos buscado simplificar, é de admirar a proliferação dos que falam bonito. Além de inspiração para post em blog, esses têm se tornado motivo de graça, ou chacota, como diriam eles.
Em um país com tantas diferenças, não vejo sentido em criar mais uma barreira para compreensão entre os diferentes estratos sociais. O português culto, refinado e formal é bom e prazeroso de se falar, entretanto o que se vê nas ruas é o do dia-a-dia, aquele cujas bases talvez remontam às senzalas e que hoje prolifera-se na periferia. Falar bonito e empolar* o vocabulário serve apenas para aumentar o já gigantesco fosso sócio-cultural que temos aqui. Imagino estar fazendo minha parte, assim que a partir de hoje irei adotar o “a gente fomos” e o “nós fumo”, se não conseguir me comunicar melhor pelo menos servirá para rir. Um excelente remédio nos dias atuais.

*empolar2
[De empola + -ar2.]
V. t. d.
1. Fazer ou causar empolas em.
2. Tornar pomposo, bombástico: empolar as frases; empolar o estilo.

Tuesday, March 20, 2007

Bandejões

Bandejão é sempre uma aventura. Lembro dos tempos de UFRN onde tive a oportunidade de comer uma única vez no famoso RU (Restaurante Universitário). Mal sabia eu, ali se iniciava minha carreira gastronômica no mundo dos bandejões.

Bandejão, segundo o Aurélio:

[De bandeja + -ão1.]
S. f. Bras.
1. Refeição servida em bandeja ger. com divisão para os alimentos, que se usa em fábricas, escolas, restaurantes populares, etc.

Pautado na definição do ilustre acadêmico, gostaria apenas de tecer alguns comentários aos bandejões modernos: neles é possível, em muitos casos, comer tomate-seco, batata palha, rúcula, ricota e outros itens. Há também aqueles onde a combinação feijão e arroz impera, a salada é nula e a carne é contada. Tem para todos os gostos, porém já se pode ver alguns ensaios rumo a sofisticação do bandejão.
No entanto, comida em larga escala é frequentemente associada à lavagem. Exceção a essa regra, é a Feijoada do Sesc lá em Natal. Por R$4,00 (R$ 1,70 se comerciário), é possível degustar a iguaria luso-afro-brasileira com todos os acompanhamentos, extras e adendos que a orgia permite. Após ler uma reportagem na Tribuna do Norte, e ainda quando trabalhava no Banco do Brasil ali perto da Universidade, fui ao Sesc Potilândia e confesso que não me arrependi. Em meio a uma turma de macacão cujo principal objetivo era comer o “completo”, senti-me pressionado pelo grupo a também optar pelo prato-fundo-transbordando e mergulhei em uma “semi-bacia” de 1 kg de feijoada, carne e, naturalmente, a “mistura”. Em situações assim, pratos de um quilo não são exceção. Difícil, na verdade, é ver uma refeição cuja salada ocupe mais que 10% do prato.
Hoje, porém, o bandejão da maior empresa do Brasil, brindou-me o último exemplo de comilança-corporativo-estudantil-a-baixo-custo: figuras enchendo copo de 300ml de doce de goiaba. Tarefa que não é para qualquer um.
No geral, não acho que os usuários dos bandejões agüentam comer tanto assim. Em empresas, onde a refeição é grátis ou subsidiada, entendo que muitos se sintam como num rodízio, a única diferença é que aqui ele vai durar até os 55 de idade e 30 de contribuição. Já nas universidades e Sescs da vida, a gula deve ser o motor de tamanho apetite. Em todo caso, comer em bandejões é uma experiência muito gratificante: lúdica e gastronomicamente.
Em tempo, mal consegui me arrastar até o banco após vencer a Feijoada do Sesc.

Friday, March 09, 2007

No pain, no gain*

Esforço
[Dev. de esforçar.]
S. m.
1. Mobilização de forças, físicas, intelectuais ou morais, para vencer uma resistência ou dificuldade, para atingir algum fim:


Ontem na academia, com a típica cara feia de quem faz esforço, ouvi alguém dizer “No pain, no gain”. Como forma de motivação, a frase é bastante interessante, contudo comecei a raciociná-la em termos de abrir concessões. É necessário passar pelo componente doloroso para então alcançar o almejado. Parece bobo interpretar esse ditado, entretanto o que se vê comumente é a busca pelo alvo sem passar pelo sacrifício. Nessa época onde tudo é plástico, abrir concessões, fazer uma troca de A por B incorrendo em um custo seja ele pessoal, financeiro ou emocional, soa fora de época e até irreal.
Nunca em nossa história, vivemos uma época tão carpe diem. Evitarei entrar no clichê de que o mundo está mudando. Não irei por aí. Percebi, entretanto, que a idéia imediatista de vida carrega consigo a falsa noção de que não é necessário esforçar-se. Nos incutem diariamente uma idéia de que a vida é fácil. Pelo contrário, ela é feita de pequenas concessões que abrimos no dia-a-dia para então podermos disfrutá-la em sua plenitude. Suponho que as pessoas vivam tão angustiadas hoje justamente por terem perdido a noção de que o esforço é o caminho para chegar onde se quer. Não existem atalhos para ter sucesso com amizades, amor ou dinheiro. No dia-a-dia não há megasena para o povão, nem BBB 7 para peão de obra. Hollywood é um nome distante que, atrozmente, 99% da população brasileira não saberia nem escrever, quanto mais falar.
É chato falar desse tema. Vão achar que estou desapontado com isso ou aquilo. Pois bem, não quero adotar uma perspectiva fatalista, somente acho que as pessoas têm perdido ao longo do tempo a idéia de semear. Dificilmente se escuta falar de algum esforço. Ao longo do tempo construímos diversos heróis nacionais, mas pouco fala-se da “ralação” de cada um deles até chegar lá.
No mercado financeiro, por exemplo, é comum ver gente falar de ir em busca de seu primeiro milhão sem nem mesmo conseguir diminuir sua despesa com celular. Na academia todo mundo quer ficar sarado, mas ninguém abre mão de encher a cara. E no amor é onde reside o que há de pior nisso tudo: se vê gente em busca de sua “metade da laranja”, porém sem disposição para abrir qualquer mínima concessão.
Não acho que haja culpado nisso. Imagino que cada qual esteja cumprindo seu papel e os meios de comunicação estão estruturados para direcionar seu público ao consumo. Ao que me parece, a idéia é incutir nas pessoas que certos tipos ou níveis de consumo as levarão a um determinado patamar de existência com as quais elas sonham, porém não estão dispostas a pagar o preço. Em resumo, travestem o sacrifício em prol do espetáculo. É como se o artista quisesse o aplauso antes da apresentação. Simples.
O preço que se paga por não querer pagar o preço de viver gera frustrações. A vida não é um passeio, mas diariamente esse é o mote que tentam empurrar goela abaixo.
*Em tradução livre, algo como “sem dor, sem lucro”.

Thursday, March 08, 2007

Escrever poesias

Não entendo exatamente por qual motivo, mas minhas poesias têm feito algum sucesso. Já comentei aqui que demoro muito até conseguir chegar a um verso que me agrade, por isso as que estão publicadas aqui não devem passar de dez.
Para escrever poesia não é necessário, a princípio, uma inspiração direta. Em meu caso, pelo menos, surge uma idéia inicial e a partir daí desenvolve-se o que eu pretendi. Logicamente, às vezes existem inspirações sim. Nesses casos fica claro pelo nome do poema ou com um mínimo de interpretação.
No geral alguns terminam causando polêmica e isso é bom. Nesse sentido, andei juntando uns versos e terminei outra poesia que segue abaixo.

Procura-se

Procura-se

Que não seja nem lá nem cá
Nem ria muito, mas também não chore demais
Procuro uma daquelas
Cuja presença traga de tudo
Dessas que se vê na tevê
Das que o riso inspira paz

Pronta a viver
Uma história bem de cinema
Não precisa ser atriz nem feita de plástico
Serve mulher de verdade, dessas cheia de problema

Tenho procurado em todos os lugares
Jornais, cidades, botecos
Sim, eu quis dessas mesmo
Das bem difíceis de definir

Avisa-se às interessadas
Que não exige-se muito
Nem se quer o impossível

Procura-se
Viva ou morta,
De preferência,
De amor

Wednesday, March 07, 2007

Jóia

Em uma cidade como Salvador, é comum surgirem diferentes empreendimentos todos os anos, e por seu caráter turístico, a cidade vem sendo brindada ao longo do tempo com ampla variedade de restaurantes. Bastante incensado desde sua abertura, o Jóia Sushi Lounge recebeu até prêmio da Veja Salvador na categoria “Melhor happy hour” e ao longo de pouco mais de um ano tornou-se point para boa comida e bebida no bairro do Itaigara.

Desde que cheguei aqui, já fui algumas vezes ao Jóia não por sua cozinha pouco inventiva, mas sobretudo pelo ambiente onde em muitos dias da semana há um dj residente, um público jovem e, infelizmente, filas intermináveis. Até aí tudo bem, afinal é natural que haja demanda para um lugar dessa natureza. Há inclusive, certa recomendação para só ir com reserva, visto a popularidade da casa. Bom para o Jóia, bom para Salvador e bom para quem tem reserva. Em tempo, só vou com reserva mesmo.

Na última sexta-feira, porém resolvemos esticar até a Jóia (sem reserva) e após uma aceitável espera de meia hora, fomos levados à mesa. Cabe aqui um parêntese para o ar blasé das hostesses. Não entro na generalização de todas elas, porém essas últimas foram selecionadas, suponho, consoante seu ar “de leve descaso” com a clientela. É como se colocássemos figuras de ar “modelal” para atender uma clientela sedenta por consumir as iguarias de um novo local que basicamente imita o que se vê em grandes cidades. Sinceramente sinto um privilégio imenso em poder comer ali. Às vezes acho que a típica relação de consumo é invertida em locais da moda. O cliente que se sinta felizardo em pode tomar assento e não o proprietário em receber consumidores que, a propósito, deixam em média de R$60-80/pessoa/noite.

Colocados à mesa, começamos o pedido e, o até então aceitável, beirou o ridículo quando o pobre garçom deu voltas ao explicar que não havia camarão, siriguela, nirá, vodka e cream cheese. Saí totalmente convencido. Afinal, quem vai a um japonês comer camarão ou nirá? E outra: quem mandou querer vodka com siriguela em dia de sexta? O melhor teria sido perguntar o quê tem e não fazer pedidos, afinal o suprimento do mais básico em um cardápio de restaurante passou longe dali.

Comparando, se for ao Rio Vermelho, no Acarajé de Regina (também premiado pela Veja), facilmente haverá tudo que se incluiu no cardápio, ainda mais em dia sexta. Espero que a síndrome de que “toda vassoura nova varre bem” não tenha atingido o Jóia. Por gostar do ambiente, irei lá mais uma vez. Afinal, nem sempre estamos nos nossos melhores dias.

Monday, March 05, 2007

Arte de rua

Ontem, fui ao VI Festival Internacional de Arte de Rua da Bahia (www.festivalderua.com). Primeiramente, não sou grande entendedor de arte. O pouco que sei devo à influência paterna, às aulas da Aliança Francesa e à uma grande amiga minha que entende do assunto.
Montado na Ribeira – bairro antigo aqui de Salvador – o festival, além de divulgar o trabalho de músicos, acrobatas e artistas em geral, serviu também como lazer gratuito para a população do bairro e de toda cidade. Em muitos casos, suponho, foi o primeiro ou ao menos um dos poucos contatos que a maioria dos visitantes ali teve com arte. Em uma realidade onde o entretenimento torna-se cada vez mais artigo supérfluo, faz muito bem ter lazer gratuito e felizmente essa iniciativa tem proliferado Brasil afora. Coincidentemente, em uma mesma Ribeira, porém em Natal, há a Casa da Ribeira (www.casadaribeira.com.br) que vem ao longo dos últimos anos oferecendo programas culturais à uma população carente de qualquer novidade na área.
Adicionalmente, há o grande benefício de tirar as pessoas de casa na hora do que reputo fazer parte do pior da programação televisiva brasileira: Faustão e Gugu. Só o fato de alguém abster-se desse lixo dominical, per si, já deveria ser motivo de orgulho dos organizadores do evento bem como da Prefeitura. Mal comparando, seria como ter membros do Cirque du Soleil “brincando” na rua sem ter que desembolsar nada por isso. Pode parecer bobo para quem tem a oportunidade de vê-los aqui ou em outro país, entretanto imagino ter sido uma opotunidade única para boa parte dos ali presentes. Dentre muitas atrações, o que me pareceu interessante, além do engolidor de espadas, foi a forma como as crianças reagiam frente à “estátua viva”, provavelmente uma das poucas chances que tiveram de interagir com algo similar.
Eu, por exemplo, não lembro ter visto muitos artistas de rua pelo Brasil. Existem, obviamente, contudo em número bem menor se comparado a outros países inclusive nossos vizinhos de América do Sul. Para meu espanto, vi diversas crianças de origem aparentemente humilde contribuindo com alguns centavos quando os artistas, naturalmente, passavam o chapéu.
Tendo um índice médio de dois livros/habitante/ano é motivo de orgulho que existam programas culturais como o de ontem. Torna-se imprescindível tirarmos milhões de brasileiros da influência de uma televisão “emburrecedora”. A batalha foi, em parte vencida ontem. O caminho é longo mas há luz no fim do túnel.

Friday, March 02, 2007

San Pedro de Atacama IV

Antes de iniciar esse último texto sobre o Atacama aproveito para desejar a todos um feliz 2007. É bem mais comum ouvir isso no começo do ano, mas afinal, o ano ainda nem começou né? O calendário brasileiro, diferente do gregoriano, tem início após o carnaval. Certamente, alguns já trabalharam esse ano, assim como eu, claro, contudo percebo um sentimento persistente de que tudo só começa de fato após o carnaval. Enquanto no Congresso nossos políticos estão mais preocupados em discutir a cláusula de barreira e suas implicações no fundo partidário, o bicho pega no meio da rua, a turma ainda cura a ressaca do carnaval e passo-a-passo tudo vai se encaixando. Ou não. É o brazilian way of life.
Voltando ao deserto, a multiculturalidade presente em um destino turístico procurado como o Atacama permite uma interação bastante grande entre diferentes pessoas. Há gente de todo mundo e, à medida que as pessoas vão se conhecendo, sobretudo em albergues, começam os questionamentos a respeito de seus países e vários mitos caem por terra. Se eu, por exemplo, pensar em Suécia, automaticamente vem à minha cabeça três coisas: vodka, sexo e Volvo. Embora reducionista, quase todas pessoas têm essas idéias a respeito de vários lugares. É desnecessário dizer então, que a sueca com a qual compartilhei minha percepção, rebateu que a dela de Brasil é carnaval, futebol e corrupção. Um ou outro falou em mulher também, naturalmente em uma conotação erotizada. Assim como a percepção de que o ano só começa após o carnaval não condiz com a realidade, fazemos diversos juízos estigmatizados.
Ao longo desses quatro textos sobre o Atacama, busquei abordar temas e valores que possivelmente não constam dos guias. Aqui ou ali há uma informação de relativo interesse turístico, mas a idéia do blog é falar sobre o que seja “invisível aos olhos”, assim sendo: valores, percepções e idéias. Como foi possível ver, em um passeio mesmo que pequeno, vivem-se algumas experiências interessantes.
A quem interessar San Pedro de Atacama como destino turístico basta colocar “Atacama” no Google que há tem muita informação. Pode me consultar também, tenho para falar tanto de percepção quanto de dia-a-dia no deserto mais árido do mundo.P.S. Gente normal também fica em albergue. Há figuras exóticas, lógico, mas nada que seja muito incomum.

Thursday, March 01, 2007

San Pedro de Atacama III

No Atacama, como em diversas partes do globo, vive-se o boom de um turismo globalizado no qual é esperado, ao menos, certa massificação de serviços desconsiderando-se inclusive a localização geográfica. Em resumo, o serviço que lhe é prestado na Índia, dentro de um possível, naturalmente, deve ser o mesmo oferecido no Deserto. O fenômeno é o mesmo que ocorre, por exemplo, em diversas praias do litoral brasileiro. Nos últimos anos, É possível encontrar comida internacional em menus (entrada, prato e sobremesa) a US$10.00.
Falando em comida, fui convidado para um “jantar típico”, o qual, naturalmente, incluía itens um tanto estranhos para mim. O nome era cazuela de pollo (ou cozido de frango). De forma geral, era uma espécie de sopa de sêmola com pimentão, jerimum (ou abóbora), tomate, batata, cenoura e um ¼ de frango. Acompanhava um pão achatado de sabor forte, casca dura e interior úmido... Chamavam de pan casero. Esqueci de perguntar, mas acho que não era feito de trigo.
No albergue onde fiquei (US$10/dia), obviamente havia todo tipo de gente. Muitos que não tomavam banho, outros que enchiam a cara diariamente, mas sempre pessoas interessadas pelo típico e local, muitos dos quais inclusive adoraram o prato acima descrito. Sem querer misturar os temas, os gringos sempre acham qualquer pratinho wonderful e incredible. Falando nisso, vou concluir um texto que tenho sobre paladar.
Voltando ao jantar, sinceramente, o prato não causou nenhuma impressão fora do comum. Parecia comida de hospital, para dizer logo a verdade. Tendo eu aqueles mesmos ingredientes, teria modificaria um pouco a receita, mas aí não seria mais típico. Fato é, partilhei uma mesa “inca” cuja comida não era lá essas coisas, mas ao menos fiz meu papel de bom turista, interessado pela cultural local.
No retorno, comecei a pensar em comidas típicas brasileiras e reconheci que feijoada não é o prato mais belo de todos, embora muitos turistas comam e gostem. Em San Pedro vive-se essa multiculturalidade. Até os mais longínquos rincões do planeta estão sendo massificados. A comida no Atacama também - do menu francês ao cozido inca.