Tuesday, February 27, 2007

San Pedro de Atacama II

Antes de chegada de hordas de mochileiros, San Pedro de Atacama (atualmente 5000 habitantes), não passava de um povoado remoto na beira do deserto mais árido do mundo. Ultimamente chegou por ali energia elétrica 24h/dia e um caixa eletrônico. Todavia a Internet é discada (razoável para mim, afinal a última atividade ali seria ler e-mail), existem poucos postos telefônicos, uma ou duas ruas calçadas e a velha praça com igreja (na maioria das vezes em todos os países hispânicos chamada Plaza de Armas). Em resumo, ainda persiste um ar provinciano com exemplos como lojas que fecham na hora do almoço (uma siesta gigantesca de 3 a 4h) e no geral um ar laissez-faire bastante similar ao que se vê na Bahia.
Por outro lado, é de causar espanto a velocidade como criam novos negócios (e com eles, obviamente empregos) os quais trazem “desenvolvimento” (intencionalmente colocado em aspas vide minhas dúvidas quanto à aplicação correta do termo). Meu objetivo não é fazer uma reflexão sobre qual desenvolvimento o turismo pode trazer para uma comunidade. É comum ouvirmos diversas correntes as quais dizem que o “rolo compressor do desenvolvimento” é inevitável. Se fosse possível, congelaria diversos momentos e situações em seus estados em determinado tempo, algo que também faria com o Atacama. Já é perceptível como sua exploração, que por mais bem manejada que seja sempre trará efeitos colaterais, vem descaracterizando um povoado pré-colombiano nos Andes e tornando-o em mais uma Meca alternativo-cosmopolita
Quanto às paisagens, e devido a um esforço governamental atípico para os moldes brasileiros, as comunidades indígenas locais têm criado associações para administração, conservação e promoção dos parques nacionais da região os quais duplamente fixam os locais e os inserem na cadeia turística ao mesmo tempo em que mantém os pontos turísticos em um nível de excelência que infelizmente não se vê em todas partes.
Durante minha estada, lembrei de uma música de Raul Seixas que dizia “pare o mundo que eu quero descer”, medida que se adotada em certas regiões turísticas, as conservaria em seu estado nativo e encantador.

Monday, February 26, 2007

San Pedro de Atacama I

Introdução

A finalidade principal desse novo blog é servir de exercício para minhas aulas de redação. Entretanto, tenho recebido comentários positivos e sem dúvida o interesse que meus textos venha a causar me dá tremenda motivação para tentar abordar novos temas. Nesse sentido, após a pausa carnavalesca, irei publicar uma série de textos sobre o Deserto do Atacama – ponto alto de uma viagem muito interessante – a fim de dividir as vivências de um lugar igualmente belo e inóspito http://pt.wikipedia.org/wiki/Deserto_do_Atacama.

San Pedro de Atacama I

Nas aulas de geografia, aprendi que os desertos são locais extremamente frios de noite e quentes durante o dia. Por outro lado, já ouvi dizer e, inclusive comprovei na prática, que algo é falar e o outro é viver. Pois bem, se eu tivesse que citar um único ponto do Deserto do Atacama seria sua incrível amplitude térmica. Nos últimos quatro dias, passei de tempetaturas de -10 a 40C.
No deserto mais árido do mundo, o uso de água devia ser o mais racional possível, contudo eu não tinha entendido essa dimensão até ir em busca do hot shower (banho quente), que o albergue (US$10/dia) “ofereceria”. Dos quatro banhos que consegui tomar (nenhum quente), um foi escondido (em tese só haveria água até às 21h, porém nunca chegava às 19) e três foram de caneco. Para quem vem da Bahia, tomar banho de caneco a 0C é uma tarefa complicada e sofrível. Por um momento, confesso, cheguei a me questionar o que eu tinha ido fazer ali.
A essa altura, cabe perguntar a que ponto chega o turismo dito aventureiro. Para quem acha que os serviços, de forma geral, são ruins no Nordeste do Brasil e piores na Bahia, sugiro um estágio atacameño. Sem dúvida, os conceitos mudarão visto que o turismo ali ainda é explorado de maneira amadora (e até diria, típica) por nativos ou pequenos negócios familiares.
San Pedro de Atacama lembrou-me a Pipa de minha infância. Possivelmente ali também devia ter seus percalços (como às vezes ainda ocorre com água, por exemplo), mas imagino que o ar de praia virgem e pequeno povoado, há muito perdido em boa parte do litoral potiguar, mantém-se quase intocado no Norte do Chile. A comparação, em termos geográficos é incompatível, porém vemos duas fases de um turismo alternativo e outro badalado. Sinceramente ainda prefiro o primeiro, embora com os limitadores de sempre.
Voltando do deserto, vim sobre refletindo como situações-limite nos fazem reavaliar posições e hoje, quando liguei a torneira e de fato saiu água, percebi como é comum menosprezar o dia-a-dia em busca de algo sensacional quando na verdade a rotina nos brinda incrivelmente com atos simples como o abrir de uma torneira. De volta à Bahia, escovar os dentes teve um novo valor e assim como já abordei em posts abaixo, a falta de algo traz consigo o benefício de colocá-lo em seu real estado.

Monday, February 12, 2007

Coluna Social

Tenho diversos maus hábitos. Não convém enumerá-los afinal prefiro poupar um pouco minha imagem, porém dentre eles, o que mais me coloca num misto de curiosidade, riso e auto-penintência é a leitura de coluna social.
Sou viciado nelas. Pequena ressalva: em cidades provincianas como Natal (que me perdoem os mais bairristas), é incrivelmente interessante como todos se conhecem e sabem uns das vidas dos outros. É comparável às cidades de interior, contudo estamos falando de uma capital de estado, beirando 1.000.000 de habitantes, entretanto ainda assim uma província.
Antes que caiam de pau em cima de mim, ler colunas sociais não é benefício de naturais de cidades pequenas como Natal. Em uma rápida enquete feita com pessoas próximas, no mínimo 80% dos leitores de Veja (revista da qual não sou tão fã, porém me incluo na enquete) começa a ler a revista pela coluna Gente. É igual às da Tribuna do Norte, porém com circulação nacional.
Vida alheia é um tema interessante desde os primórdios e, em se tratando de produção natalense, sou leitor assíduo. Possivelmente por conhecer (quase) todas as figuras que nelas são abordadas e, em todo caso, me divertir muito.De tanto lê-las, já imitei o estilo de vários colunistas para aloprar com meus amigos. Assim como é possível aprender um estilo literário de algum escritor famoso, também é factível pegar o jeito de uma colunista escrever. A propósito, segue nota abaixo publicada a meu respeito:

“O mais novo blogueiro da cidade é o jovem Daniel Magalhães. Altamente antenado com o que rola na terrinha, o moço escreve de tudo tendo Mami Eliane como grande leitora. De dez!”

Para concluir, antigamente eu achava que meu tempo deveria ser gasto com afazeres mais educativos. Talvez nunca tenha conseguido me educar suficientemente ou até tenha me educado demais. De toda maneira, as colunas são divertidas e um excelente entretenimento, embora não mudem nada na rotina dos seus leitores nem traga reflexões complexas. Ultimamente papos profundos têm me cansado, daí talvez o motivo em escrever sobre quem fala de vida alheia. Finalizando, não critico quem assiste Big Brother, eu leio coluna social.

P.S. A nota publicada a meu respeito foi feita por mim mesmo. Prova como já estou habituado a escrever como os colunistas. Nesses dias serei cool, hype ou in também.

Wednesday, February 07, 2007

Reviravoltas I

Tenho vários amigos que piram ao ver uma praia. Já eu não sou tão assim, talvez pelo fato de ter vivido muito tempo em Natal. As praias no geral me interessam, mas nunca foram motivos de grande menção, à exceção de Morro de São Paulo. Morro, assim chamada, é um povoado da Ilha de Tinharé que é município de Cairu, baixo sul da Bahia. Chegarei ao motivo de tamanho contexto logo mais abaixo.
A introdução acima foi também para manter o caráter confuso dos meus textos. Simplesmente tenho dificuldade em começar um tema e ir abordando logo de cara. Contudo mais para o final e, possivelmente, na conclusão, suponho que o texto fará sentido e aí sim a imagem de confusão estará desfeita. Oportunamente escreverei sobre estilo de texto, algo que muito me interessa, afinal vivo sempre perdido escrevendo de uma maneira só.
Aos chegados com os quais freqüentemente compartilho idéias, é comum perceber que sempre tenho projetos nas mais diversas áreas da vida e o último deles é mudar para Morro. Após o último fim de semana, diminuiu o “já-não-tão-grande” interesse pelos afazeres urbanos. A propósito, nunca fui metido com o campo e poderia facilmente contar às vezes que fui ao interior, porém ultimamente tem soado muito agradável a possibilidade de migrar para uma atmosfera mais tranqüila.
Considerando que: a) não sou rico; b) não tenho herança a receber e c) não tenho nenhuma coroa para me sustentar; esbarro na questão de sobrevivência em um ambiente onde possivelmente não existem empresas (corporativamente falando) ou escolas de inglês (atividade na qual já estou felizmente aposentado após quatro anos de labuta). Dessa forma, na luta pelo pão do dia-a-dia, afloram aí outros interesses meus: cozinha e política. (Esse último é um dos interesses mais fugazes que tenho. Em uma semana quero, na outra desisto e tem sido assim há alguns anos mas já estou filiado a um partido político o qual não vou citar porém não é necessário revirar muito minha vida para descobri-lo).
Nessa esteira, procurei informações sobre a Câmara Municipal de Cairu pois estou pensando em transferir meu título de eleitor para lá e entrar para vida pública cairuense.A idéia, a princípio, seria excelente. Juntando três interesses meus a saber; política, vida bucólica e cozinha, os teria como meios de sobrevivência. De toda forma, abrir um restaurante lá em Morro, é limitante na perspectiva de atuar somente com turismo, porém não vejo nada muito além desse ramo lá na ilha.
Finalmente, para meu espanto, descobri que os vereadores de Cairu recebem apenas R$800,00 por mês. É, talvez tenha que deixar esse novo projeto para 2º plano.

Obs: Pensei também em arrumar uma nativa para fazer-me companhia na empreitada, porém não creio que seria tarefa difícil: para os políticos tudo é mais fácil.

Monday, February 05, 2007

Visitas III – Despedida

(Para melhor compreensão sugiro ler os antecessores, Visitas I e II).
“Visita dá duas alegrias: quando chega e quando sai”.

A todos que já ficaram em minha casa, aviso que não compartilho desse pensamento. Algumas visitas sim, deixaram uma leve saudade ao irem embora, porém esse sentimento logo foi superado afinal não demoro muito pensando no passado. Aos que não conhecem e queiram aderir, sugiro visitar a Teoria das 72h, comunidade no orkut cujas tese e propriedade são minhas. Depois posso colocar o link aqui.
Ao final de quase uma semana, o que era desconhecido passa ser amiga de longas datas, a formalidade vai embora e abre-se espaço para o companheirismo. Posso resumir minha primeira experiência em Couch Surfing como sendo nota dez. Recomendo a quem possa eventualmente hospedar um viajante ou outro, inclusive também fazendo uso para ficar na casa de alguém em outra cidade ou país. Agora no carnaval irei aproveitá-la no Chile e Argentina. Estou pensando inclusive em filtrar meus hóspedes a fim de priorizar quem fale alemão para dar um treino no idioma de Goethe. Como se vê, são inúmeros os benefícios de receber alguém nessas circunstâncias.
Aos mais muquiranas, confesso que a despesa foi mínima. Na verdade, eu é que lucrei com elas: comi das sopas, risotos e comidas prontas que trouxeram do Chile; ganhei uns chocolates muito fraquinhos por sinal (não tinha como negar afinal era presente, mas chocolate nunca foi minha praia mesmo) e por fim ainda ganhei uma balança para cozinha.
Já no apagar da luzes, passamos o fim-de-semana em Morro de São Paulo – www.morrodesaopaulo.com.br . Gostei tanto de lá que estou até pensando em dar uma reviravolta em minha vida, porém abordo esse tema em outro texto. Confesso que senti o apartamento vazio quando outras visitas partiram, mas quanto a essas nem tanto. A propósito, o que de fato deixa saudades é a visão de quando se acordava: a sala cheia de mulher.

Dar a volta por cima

Com a posse no Senado, na última semana, mais uma peça do complicado quebra cabeça político brasileiro é montada. Único presidente deposto por impeachment, Collor foi restabelecido a um cargo público como Senador pelo Estado de Alagoas. Em reportagem essa semana (http://www.terra.com.br/istoe/1945/brasil/1945_collor.htm), a mesma Istoé que foi fundamental em sua queda, aborda sua volta ao cenário de poder ventilando inclusive sua candidatura ao cargo maior em 2010.
A princípio, não pretendo abordar a memória curta dos brasileiros tampouco os meandros de nossa democracia. Imagino que o “fenômeno” Collor pode ser visto de diversas maneiras, entretanto a que mais me interessa hoje é sua capacidade pessoal de superação.
O exemplo de Collor deve ser visto em sua capacidade de chegar ao fundo do poço e, a partir de anos de reflexão e recuperação, alcançar em menos de um mês uma candidatura em nível federal. Muitos certamente comentarão que Collor obteve esse resultado por sair candidato ao Senado por Alagoas – um dos estados com menor IDH do país. Há que lembrar, contudo, que em todo país vivemos uma crise política sem precedentes na qual candidatos como Clodovil, Palocci, José Genoíno e outros diversos nomes duvidáveis vêm ocupando cadeiras nos legislativos federal e estaduais. O fato de Alagoas tê-lo elegido senador não denota nada mais do que a profunda ignorância política que vivemos.
Mirando-se em sua história e por mais paradoxal que possa parecer, seu exemplo é único: saber a hora de retrair-se e o momento de atacar. Se aplicado às diversas áreas da vida - trabalho, família, amor – sua vitória é, por si, ensinamento para muitos de nós. No entanto, para depreender o que há de mais profundo em sua saga, é necessário abstrair-se do viés do impeachment e vê-lo como político vencedor.
Não conheço alguém que seja imune a pensamentos derrotistas e inclusive sei de algumas pessoas que em momentos de vale atentaram contra a própria existência (assim como nosso senador alega ter pensado). Sem dúvida, hoje ele vive uma realidade distinta e a capacidade que tem em percebê-la, suponho, dá-se em grande parte aos baixos pelo quais passou e que só ele sabe onde esteve.
Já me considerando um pouco idealista, gostaria de vê-lo atuante no Senado Federal. Na vida, é imperativo saber guardar o passado e suas marcas para então se abrir a um novo futuro. Nosso ex-presidente é um vitorioso nesse aspecto e não reconhecer essa nova fase em sua vida seria uma injustiça, independente de divergências políticas.

Friday, February 02, 2007

Visitas II – Presença


Geralmente as visitas quando chegam à casa de alguém são todas melindradas, certinhas e educadas. Eu não fujo desse perfil. Toda novidade, a princípio pelo menos, tende a ser encarada com maior naturalidade à medida que o tempo passa.

Com as quatro jovens que fiz referência abaixo (Visitas I – Olhares), não tem sido diferente. De uma muralha em torno de bons-costumes-travados pode-se perceber ao longo da convivência como são os hábitos de cada uma. Talvez daí derive a frase de que “intimidade é uma merda”.

De calcinha espalhada à areia no box, toalha molhada no sofá e sair deixando a porta aberta, ocorreu-me muito. Há que se estar preparado para isso ao receber alguém, e agora entendo, quando dizem que visita é igual a peixe que passados dois dias começa a feder. Antes de tudo, não estou falando pelas costas das hóspedes. Apenas tento constatar na prática algumas verdades que há muito vêm sendo ditas.

Se tivesse que enumerar um das características que mais admiro é a flexibilidade. Evito quanto possível escrever sobre contemporaneidade por medo de cair nos chavões de globalização e modernidade, contudo saber adaptar-se as nuances que a vida mostra é um bom começo para sermos pessoas melhores. Conheço pessoas mais e menos flexíveis que eu, porém é sempre bom exercitar esse lado e tentar pegar o ponto de vista do outro. Já abordei esse tema por aqui, mas sempre me pego questionando-me a respeito de quanto falta para chegar ao modelo de gente busco ser. Gostaria de saber viver com pouco, contentar-me com menos ainda e rir quando tudo indica o contrário.

Com o já gasto bordão de “ninguém é igual a ninguém”, pode-se perceber que diversas histórias de vida são postas lado a lado por dias (dependendo do caso até horas). A maneira como caminhos se cruzam, e nesse caso específico, possivelmente apenas uma vez, apresenta-se como uma oportunidade ímpar de conviver com hábitos únicos e a partir deles conseguir chegar no parâmetro que se espera de si mesmo.

Para finalizar, ser flexível com os outros é saber ser tolerante consigo mesmo. Em última análise, é sobre si que recai o benefício de engolir um sapo aqui ou ali. E com algum exercício, pode-se rir muito deles e não achar que estamos engolindo algum.

Bem, podem dizer que essa minha conclusão está no estilo morde-e-sopra, no entanto a maneira como se vê a vida altera a forma como nos percebemos no meio. Acho que não expliquei melhor, mas ontem mesmo disseram que meus textos são confusos. A partir de hoje tentarei fazer mais sentido. De toda maneira, as entrelinhas do que escrevo – já percebi – falam talvez mais do que está no “papel” e só entrando na cabeça de quem escreve para depreender todo seu raciocínio.

Divagações à parte, é impagável a cena de acordar e ver minha sala cheia de mulher.

Thursday, February 01, 2007

Visitas I - Olhares


Desde pequeno fui acostumado a receber visitas. Tanto as que passam pouco tempo, quanto as que ficam mais que o necessário. Lá em casa, por exemplo, de alguns parentes a amigo de amigo ou primo-da-rapariga-do-cabo já passou de tudo. Hoje, em minha própria morada, ao longo de pouco mais de um ano, já recebi mais ou menos umas trinta figuras: amigos de trabalho, de vida, de infância, de Natal, de fora e parentes. Em geral, considero receber pessoas como um privilégio e devo isso à educação hospitaleira que tive.
Ultimamente, cadastrei-me em uma página bastante interessante chamada www.couchsurfing.com . Em tradução livre, seria algo como “surfe de sofá”, projeto cuja idéia é ligar pessoas que querem lugar para se hospedar com aqueles que gentilmente cedem suas casas. Na verdade, entrei para me enquadrar na 1ª categoria, contudo acabei caindo na 2ª. O único problema é receber ´estranhos´ em sua casa: desconhecidos em história, hábitos e cultura.
Contrapondo o ´ser anfitrião´ nos dois modelos acima, passei esses últimos dias pensando na confiança e ao buscar definição no Aurélio (“...segurança íntima de procedimento...”), percebi que se fosse raciocinar em bases técnicas, não aceitaria receber ninguém nessa modalidade. Entretanto, já me vali da confiança em diversas ocasiões: 2000km de carona na Argentina e em caminhão-pipa no interior da Paraíba, táxis fiado em Salvador e, recentemente, me ocorreu de não ter como pagar a conta de um jantar (Visa fora do ar) e pendurá-la para o dia seguinte. Em todos casos fui agraciado com a confiança de alguém.
Qual energia é passada naqueles segundos (ou até menos) que nos levam a ir além do comum? Como é possível ter essa “segurança íntima de procedimento” com alguém o qual jamais se viu antes? Olhares.
Eles servem para tudo e atingem todos, desde a simples paquera ao maior olhar de intimidação. Basta ver alguns minutos de Animal Planet e confirmar a tese. É oportuno dizer, contudo, que odeio clichê e jamais escreveria algo para sustentar a tese de que “os olhos são o espelho da alma”.
Sobre minhas atuais visitas – quatro chilenas que irão visitar da Bahia ao Rio – uma delas me procurou através do portal e na dúvida típica de receber ou não as viajantes, lembrei de quantas vezes fui também tomado por estranho mas ainda assim recebido como conhecido. Elas chegaram na última segunda à meia-noite e embora acordando o anfitrião, a percepção dos segundos que precedem o julgamento foi positiva. Confirmou-se mais uma vez a tese do julgamento dos olhos.
Em tempos onde a confiança se perde em disputas, mentiras e traições, confiar em alguém, mesmo que minimamente, a partir de um encontro de olhos pode ser um meio caminho entre coragem e loucura. A experiência de confiar em olhos tem sido positiva. No geral, a dúvida que tive no começo da semana foi resolvida: confio em pessoas. Pelo menos ainda.
Obs: Abordarei o tema visitas versus intimidade ainda essa semana. É interessante perceber como a formalidade inicial é quebrada em questão de horas.