Thursday, September 13, 2007

Férias XII - Machu Picchu

Um pouco emocionado foi como cheguei à Machu Picchu. No colegial foi quando começamos a planejar, eu e Juan Pablo, de chegarmos à Cidade Perdida dos Incas, e agora nove anos mais tarde, havia completado um sonho que vinha da adolescência. Fisicamente eu estava bem desgastado. Eu não tomava banho há dois dias, meu pé direito tinha uma bolha enorme (e uma bolhinha no pé tortura qualquer um), meus jeans estava preto, meu casaco preto estava branco e eu estava preto de tanto sol. Hoje, digitando esse post, sinto-me infinitamente mais limpo do que quando cheguei à Cidade Perdida, mas isso é o bom de tudo, como veremos abaixo.

Em regra, o viajante pode ir à Machu Picchu de trem saindo de Cusco ou pelas muitas trilhas que levam 4 ou 5 dias caminhando e acampando. Obviamente, é mais cômodo ir de trem, claro, é tanto que conheço pessoas que foram dessa maneira e adoraram, porém eu queria fazer o roots. Caminhar, caminhar, caminhar e por fim chegar ao meu destino. No total foram mais ou menos 70km em quatro dias de caminhada os quais, fatalmente, fazem o camarada reavaliar diversos valores.

O grande x da questão é caminhar e torcer para não ter bolhas. Eu, azaradamente, tive uma que me tirou a paciência, porém cansaço físico é administrável e seu limite, você verá, está muito mais além do que você imagina. Em regra, caminha-se de dia e acampa-se ao fim da tarde. Tínhamos uma estrutura de guerra: um cozinheiro com ajudante, um guia e um cavaleiro (que levava todas barracas, alimentos, equipamento de cozinha e mochilas). Acordávamos cedo, tipo seis da manhã, el gato (o apelido do cozinheiro) fazia milagre em cozinhar sopas, massas, cereais, frango, carne, tortilhas e tudo que podia se fazer em um fogão de uma boca a 3000m de altura carregando mantimentos para todos os dias sem reclamar nada. Caso algum dos leitores vá até essa trilha, sugiro que dê uma gorjeta (propina em espanhol) para o trabalho dessas pessoas que ganham um ordenado médio de US$100/mês.

De barriga cheia, folha de coca na boca e vento na cara, íamos trilha adentro conversando besteira e desgastando o corpo já bastante cansado. Meu grupo tinha um suíço com seus 50 anos, uma irlandesa, um cara do bangladesh (quem nasce lá é o quê?!) e eu com 20 e poucos anos e uma quatro americanos com seus 18 anos. Houve um choque de idade, sobretudo entre o coroa e os americanos, porém nada muito sério, afinal ele gritou e todos calaram a boca. Foi uma espécie de Big Brother nos Andes ver o povo batendo boca se deviam caminhar mais ou parar, fazer A ou B, enfim, decidir enquanto grupo. Preferi ficar fora disso tudo, sempre conversando com o cozinheiro e seu ajudante os quais me ensinaram muito sobre vida, quechua (o dialeto deles) e cozinha, é claro.

A trilha é cansativa sim, porém não é perigosa e nem entediante. Não há que ser atleta para chegar lá, porém um completo sedentário talvez tenha alguma dificuldade. Em todo caso, ela é uma chance de romper limites, sejam eles físicos, psicológicos ou culturais.

O retorno é em trem, afinal fazer o caminho de volta a pé é demais. Em média os valores saem em torno de US$250 incluindo tudo - ingressos, refeições, barracas e todos esses serviços. Não é caro, porém é preciso ter em mente essa despesa. Existem empresas mais baratas e caras, claro, dependendo do nível de serviço que oferecem. Eu não lembro a minha, mas ao redor da praça em Cusco existem várias. É bom, claro, seguir recomendações. É melhor ir em uma bem recomendada, pois como já deixei claro em quase tudo que escrevi, a noção de direitos nos Andes é bem rarefeita.

1 comment:

Anonymous said...

muito legal !