Sunday, February 20, 2005

Mar Adentro

Seria bom ter opinião formada sobre tudo. De repente seria mais simples se posicionar sempre para assim entender o mundo. A dúvida limita e o conhecimento liberta.Por outro lado, é ótimo não ter opinião sobre zilhões de coisas, não se comprometer nem se prender ao que foi dito ¿ algo muito comum na vida política.
A polêmica é interessante pelas diversas maneiras como se pode encara-la. E em se tratando dela, vale a pena ver ´Mar Adentro´ um dos concorrentes ao Oscar de melhor filme estrangeiro, que fala sobre a eutanásia e o suposto direito que os indivíduos têm de decidirem sobre a própria vida. Em linhas gerais, o protagonista foi mergulhador na juventude até que ficou tetraplégico em um acidente no mar. Desde então, comparada com sua vida anterior, era preferível morrer a viver atado à uma cama.
Além da bela fotografia, o filme é fiel em explorar os dois lados da eutanásia, uma imparcialidade não tão comum no cinema atual.
Mudar de opinião não é feio, talvez até melhor do que não ter nenhuma. Difícil às vezes é escolher.

Tuesday, February 01, 2005

A era do administrador - Stephen Kanitz

Tá na Veja dessa semana (02-08/01). Não é exatamente supervalorizando a profissão, mas convém ouvir o que ele tem a dizer, afinal ele sabe muito.

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A era do administrador - Stephen Kanitz

"Em 2006, o candidato da oposição que
demonstrar boa capacidade gerencial será
um forte candidato à sucessão de Lula"


Por que os Estados Unidos são o país mais bem-sucedido do mundo?
Porque são um país que resolveu o problema da miséria e da estagnação
econômica, ao contrário do Brasil?

O segredo americano, e que você jamais encontrará em nenhum livro de
economia, é que os Estados Unidos são um país bem administrado, um
país administrado por profissionais.

Dezenove por cento dos graduados de universidades americanas são
formados em administração. Administração é a profissão mais
freqüente, e portanto a que dá o tom ao resto da nação.

Infelizmente, o Brasil nunca foi bem administrado. Sempre fomos
administrados por profissionais de outras áreas, desde nossas
empresas até o governo. Até recentemente, tínhamos somente quatro
cursos de pós-graduação em administração, um absurdo!

De 1832 a 1964 a profissão mais freqüente no Brasil era a de
advogado, e foi essa a profissão que exerceu a maior influência no
país, tanto que nos deu a maioria de nossos presidentes até 1964. A
revolução de 1964 acabou com a era do advogado e a legalidade, e
tivemos a era do economista, que perdura até hoje.

Nos próximos dez anos isso lentamente mudará. O Brasil já tem 2.300
cursos de administração, contra 350 em 1994. Estamos logo depois dos
Estados Unidos e da Índia.

Administração já é hoje a profissão mais freqüente deste país, com
18% dos formandos. Antes, nossos gênios escolhiam medicina, direito e
engenharia. Agora escolhem medicina, administração e direito, nessa
ordem.

Há dez anos tínhamos apenas 200.000 administradores, e só 5% das
empresas contavam com um profissional para tocá-las. O resto era
dirigido por "empresários" que aprendiam administração no tapa. Por
isso, até hoje 50% das empresas brasileiras quebram nos dois
primeiros anos e metade de nosso capital inicial vira pó.

O que o aumento da participação dos administradores na gestão das
empresas significará para o Brasil? Uma nova era muito promissora.
Finalmente seremos administrados por profissionais, e não por
amadores. Daqui para a frente, 75% das empresas não quebrarão nos
primeiros quatro anos de vida, e nossos investimentos gerarão
empregos, e não falências.

Em 2010, teremos 2 milhões de administradores formados, e se cada um
empregar vinte pessoas haverá 40 milhões de empregos novos. Será o
fim da exclusão social.

Administradores nunca foram ouvidos por políticos e deputados nem
concorriam a cargos públicos. Em 2010, é muito provável que teremos
nosso primeiro presidente da República formado em administração. Por
incrível que pareça, nunca tivemos um executivo no Executivo.

Muitos de nossos ministros e governantes aprendiam administração no
próprio cargo, errando a um custo social imenso para a nação. Foi-se
o tempo em que o mundo era simples e não havia necessidade de ter um
curso de administração para ser um bom administrador.

Em 2006, o candidato da oposição que demonstrar boa capacidade
gerencial será um forte candidato à sucessão de Lula. João Paulo
Cunha, do PT, já o alertou de que, "se houver um bom administrador,
ele conquistará o eleitorado da periferia".

Não quero exagerar a importância dos administradores, mas somente
lembrar que eles são o elo que faltava. Ordem não gera progresso,
estabilidade econômica não gera crescimento de forma espontânea,
sempre há a necessidade de um catalisador.

Não será uma transição fácil, pois as classes dominantes não aceitam
dividir o poder que têm. Há muita gente interessada em manter essa
bagunça e desorganização, como vivem denunciando Luiz Nassif, Arnaldo
Jabor e José Simão. Gente que é contra supervisão, eficiência e
organização.

Administradores têm pouco espaço na imprensa para defender suas
idéias e soluções. Em pleno século XXI, sou um dos raros
administradores com uma coluna na grande imprensa brasileira, e mesmo
assim mensal. Peter Drucker há quarenta anos tem uma coluna semanal
em dezenas de jornais americanos, ele e mais trinta gurus da
administração.

Administradores têm outra forma de encarar o mundo. Eles lutam para
criar a riqueza que ainda não temos. Economistas e intelectuais lutam
para distribuir a pouca riqueza que conseguimos criar, o que só tem
gerado mais impostos e mais pobreza.

Se esses 2 milhões de jovens administradores que vêm por aí ocuparem
o espaço político que merecem, seremos finalmente um país bem
administrado, com 500 anos de atraso. Desejo a todos coragem e boa
sorte.


Stephen Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)